O GARIMPEIRO E SUA
CACHOEIRA PREGUIÇOSA

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José Raimundo é um dos últimos remanescentes do tempo em que o cristal era a riqueza da Chapada dos Veadeiros. Hoje, tem uma cachoeira que só funciona metade do ano

José Raimundo brinca com chamas do fogão a lenha em seu pequeno rancho no garimpo, perto da cachoeiraA pouco mais de um quilômetro do rancho de palha e adobe do garimpeiro José Raimundo de Oliveira (foto ao lado), na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, existe uma sucessão fantástica de quedas d’água que descem bruscamente a serra. De lá a visão é deslumbrante e as piscinas naturais parecem ficar acima do horizonte. O lugar chamado Cachoeira do Abismo (foto abaixo), entretanto, só ‘funciona’ na época da chuva - de outubro a março. Na seca, desaparece, pois alimenta-se tão-somente da água que cai do céu.

Foi mergulhando nessa paisagem flutuante que José Raimundo passou os últimos 38 anos. Enquanto olhava para aqueles morros imensos, que se perdem de vista, conhecia o cerrado, mergulhava em seus rios e cavava. Cavava muito, embrenhando solo adentro em cisternas profundas à procura de um bom veio de cristal. Quando encontrava - e não foram poucas as vezes -, agradecia à mãe-natureza e ia fazer a festa na cidade. "Ganhei muito dinheiro, mas também gastei muito", diz ele, que vive com simplicidade e apenas com o necessário.

Hoje, aos 85 anos, Zé Raimundo é um sertanejo ilustrado e continua cavando. É o último dos garimpeiros que começaram a chegar ali há 70 anos e, como a maioria, soube do cristal da Chapada ‘de ouvido’. Então, veio a pé da Bahia. "Não vou parar. É a minha vida".

Cachoeira do Abismo: visão celestial e água das nuvensEstá sendo absolutamente sincero. Se quisesse, poderia abandonar tudo e ir viver confortavelmente na fazenda da família na Bahia, da qual é um dos proprietários. Convites não faltam, mas Raimundo casou-se com o cristal. E enquanto cava, cultiva milho, legumes e verduras, os quais divide generosamente com os animais silvestres que freqüentam suas roças.

Ao mesmo tempo, escreve um livro para contar essa história e quer transformar suas propriedade - onde estão o rancho e cavidades e sobras de cristal- em um parque ecológico-cultural. "É preciso preservar para mostrar para o pessoal do futuro como isso aqui foi um dia", explica.

Neste início de milênio, o garimpo esgotou-se na região e deu lugar ao ecoturismo. José Raimundo apóia a transformação, mas acha que tem muita gente chata envolvida. "Tem um povo que chega aqui e não quer que você arranque uma folha do mato. Querem ser donos de tudo. Ecologia certa é a que eu faço. Eu preservo e planto árvores que dão fruta, porque serve para mim, para o ser humano que está passando ali e para os animais". O ser humano que tem passado por ali quase sempre tem sido o turista - inevitavelmente a caminho da cachoeira. ‘preguiçosa’. 


*Reportagem de Paulo José
*Fotos de João Fernandes