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A VITÓRIA DO PEQUI

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Como o fruto dourado dos
Cerrados vai conquistando o Brasil




Paulo José

A partir de meados da década de 1970, com o aumento da destruição generalizada do Cerrado, o pequizeiro começou a correr sérios riscos de extinção. Agora, três décadas depois, mesmo com a multiplicação desses destruidores e o fato de as ameaças ainda existirem, podemos dizer que o pequi e o pequizeiro venceram. De um lado, graças à conquista da técnica de reprodução de mudas; de outro, porque juntos – árvore e fruto – constituem um consistente sistema cultural.

Se essa extinção tivesse se concretizado, além da árvore, estaríamos perdendo uma longa e bem distribuída tradição que gira em torno do pequi e uma fantástica rede de relacionamentos derivada das flores e frutos da espécie, marca registrada do sertão. Mas estamos falando de uma vitória.

E de uma vitória sustentável, pois, na realidade, houve conquistas de outros espaços, com o pequi regional transformando-se em nacional. É um dos primeiros frutos do Cerrado a chegar neste estágio, seguindo os mesmos caminhos da nacionalização do cupuaçu e do açaí, espalhados pela geração saúde na década de 1980. Quem hoje no Brasil não conhece esses dois frutos amazônicos?

Pois bem, o pequi cerratense-sertanejo acaba de alcançar esse reconhecimento. É hora, então, de reconhecer-lhe os valores. Para além de patrimônio natural e material, é patrimônio cultural e imaterial. E, no Iphan, cabe nos livros dos registros, dos saberes, das celebrações e até dos lugares.

Aqui neste site (Altiplano.com.br), 80% dos e-mails recebidos referem-se a questões sobre o pequi – como plantar, onde e como obter o fruto, o óleo, receitas e outras questões. São pessoas de todos os lugares do Brasil. Cristina Godoy mora em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, e quer saber onde comprar óleo de pequi “para fins medicinais”. Walter Talula, de Campinas (SP), escreve detalhando que conheceu pequi no Mato Grosso do Sul, depois reencontrou-o em Minas Gerais e, agora, apaixonado, declara: “Vocês não imaginam a angústia... quem disse que aqui em São Paulo encontramos a tal frutinha? Consigo até sentir o sabor”. E pergunta como e onde pode comprá-la ou até mesmo se não haveria um bom cristão que pudesse lhe “enviar por ônibus uma boa quantia”.

Cristina Blanco, goiana e recém-instalada no Nordeste brasileiro, já acusou a primeira saudade da terra natal: pequi. Por isso, pede mudas, sementes e dicas. “Quero muito mesmo um pequizeiro. E também quero saber os cuidados que tenho que ter para ele viver bem”. Nancy Dantas, moradora de Aracaju, escreve: “Sou fã número 1 de pequi e no meu Estado não tem, pelo menos que eu tenha conhecimento. Gostaria de saber se vocês vendem a fruta e, se positivo, quanto custa, ou se teria condições de vocês enviarem para mim”.

Nos laboratórios de universidades goianas e mineiras e instituições de pesquisa com alimentos, diversas experiências bem-sucedidas partiram do uso do pequi como ingrediente de sabor. Picolés, sorvetes e queijos são provados e aprovados. Na linha industrial, além das tradicionais conservas, óleos e licores, o uso chegou a produtos como caldo de galinha, óleo para salada, tempero e até ao conservador catchup.

Também virou Xampu Amazônia, linha Pequi, para “cabelos danificados ou tingidos”, por meio da Farmaervas e, há algum tempo, vem sendo testado por várias universidades brasileiras para a fabricação de biodiesel. Em Brasília, um estudo recém-divulgado mostra que o consumo de pequi pode diminuir efeitos colaterais de quimioterapia e combater radicais livres.

É uma expansão cultural. Temos ainda software, ONG, blogs e restaurantes batizados de pequi. Em Goiás, particularmente, ele faz parte do cotidiano e das promessas – existe até uma lei recente instituindo a Festa Estadual do Pequi, que deveria ser comemorada no último bimestre de cada ano.

Há lugares em que o fruto dourado tem status ainda mais elevado. No Tocantins e no oeste da Bahia temos uma verdadeira cultura pequizeira, mas é em Minas Gerais que acontece a institucionalização do pequi.

Em Montes Claros, a economia tem fortes laços com o fruto e é lá que se realiza a Festa Nacional do Pequi, já em sua 15ª edição. E não é só. Mineiramente e sem alarde, Minas Gerais parece amar mais o pequi que Goiás. Se nossa árvore-símbolo é a exclusiva pau-papel, a árvore-símbolo de Minas, desde 2001, é o pequizeiro. E a escolha foi por votação popular. Ganhou fácil com 31 mil votos (62% do total), enquanto o segundo colocado, a sucupira, teve 8 mil. É lá também que existe a Associação Protetora do Pequi (Asppe).

Mais. Por ironia do destino, as pesquisas arqueológicas realizadas em Lagoa Santa, também em Minas, mostram que há pelo menos 8 mil anos os “mineiros” já comiam pequi. Os indígenas sempre fizeram o mesmo e os caboclos aprenderam, e assim sucessivamente.

E, então, como tudo que se torna muito popular, o pequi ficou chique e é agora popstar. Em lista publicada pela Folha de S. Paulo, “azeites e óleos turbinam o cardápio e o corpo”, o óleo de pequi, identificado como condimento da culinária goiana, vai estar entre os nove citados, ao lado do algodão, gergelim, linhaça, macadâmia, nozes, palmas, uva e pepita de girassol. Em março, o Correio Braziliense transformou em notícia de página inteira a entrada do fruto dourado no mundo da gastronomia refinada. A novidade era que um restaurante brasiliense tinha unido o que parecia complicado: pequi e bacalhau. “A mistura deu certo. O pequi acabou potencializando o gosto do peixe”, explicou o autor do prato.

Mas, como patrimônio amplo, é algo que vai além do alimento, do sabor e das artes culinárias. É poesia, objeto literário, inconsciente coletivo. Bastam dois exemplos. Na ficção, Marietta Telles Machado transcende com sua Lenda do Pequi, na qual deixa claro que só mesmo o amor poderia gerar um fruto gostoso deste. De outro lado, na vida real, Heloísa Helena de Freitas vai talvez mais longe, em uma crônica na qual rasga elogios ao avô, “homem carismático, tão sensível, tão gente”. Porém, ressalva que ele tinha um defeito. “Um defeito muito grande mesmo: detestava pequi! Quer defeito maior, não gostar de pequi?”

Por tudo isso, podemos inferir que grande potencial tem o Cerrado e o que estamos perdendo ao destruí-lo. Neste caso do pequizeiro, trata-se de uma conquista de todos os povos do cerrado, um retorno a um caminho antigo e correto e que parecia abandonado. Uma vitória da natureza e da cultura para o hoje e o amanhã.


Paulo José é jornalista e mestre em Gestão do Patrimônio Cultural
Foto: Paulo J. S.
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2004)