A ARTE FANTÁSTICA DE MOACIR

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FOTO AO LADO -
À frente, Moacir;
ao fundo, alguns
dos primeiros
turistas a comprar
sua arte


Uma luz forte e pura em cores primárias vão preencher os desenhos, que, à primeira vista e aos mais puritanos, chocam. São temas que misturam, paradoxalmente, sexo e religião, homens e animais, flores e plantas, anjos e demônios. Com essa arte, o seu autor, o artista Moacir Soares de Faria, de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, enfrentou muita resistência, olhares enviesados e críticas no início de sua carreira que, digamos, foi inaugurada oficialmente por volta de 1990.

Se a comunidade local ignorava o seu trabalho, os visitantes que começaram a chegar à região adoraram e Moacir começou a vender mais e mais. Não demorou e ele estava fazendo exposições individuais e coletivas em Goiânia e Brasília. Mais um pouquinho e passou a viver de sua arte, o que, independentemente do lugar e do artista, é coisa rara no Brasil. Agora, pode até contar vantagem: recentemente, vendeu 50 trabalhos de giz de cera sobre papel a turistas ingleses fascinados. Hoje, ele e sua arte são aceitos e até são vistos como "normais", mas nem sempre foi assim. Sua história, afinal, começa no princípio dos tempos, quando o mundo era todo mágico.

Há muito tempo, em épocas imemoriáveis, Moacir morreu afogado, junto com muitas outras pessoas. O mundo estava acabando e uma inundação gigante e repentina cobriu tudo, enquanto uma imensa luz brilhava no céu. É o que descreve ele em depoimento.

No ano de 1954 da nossa era, Moacir nasceu de novo, desta vez na Chapada dos Veadeiros, e daquela época muito anterior, ele iria trazer o poder de olhar para o chão e ver o que está embaixo e olhar para o céu e ver o que está em cima. Via, assim, anjos, santos e demônios - o que passou demonstrar com outra habilidade, o desenho, expresso sobre grandes pedras. E mais impressionante: mesmo à noite, sem nenhuma luz, dizia - e mostrava - enxergar e discernir cores e detalhes como se estivesse claro.

Um dia, aos seis anos de idade, quando jantava com a família, misteriosamente seu prato foi arrancado da mesa por uma força estranha e invisível e jogado de forma descomunal fora da casa - o que foi testemunhado por todos. E Moacir viu o que ninguém viu, viu a força e, a partir daquele dia, passou a não suportar mais muita luz. Pediu então à mãe que lhe fizesse um capuz, que passou a usar sempre que saía de casa.

À intolerância à luz de Moacir somou-se outra questão: como tinha problema de audição e, portanto, de comunicação, foi afastando-se e criou um mundo particular, quase autista, enquanto a comunidade local também o isolava. Era o poder de quem podia isolar contra o poder de quem era misterioso, ou o poder coletivo contra o poder pessoal.

Assim se passaram 30 anos e somente em 1990, graças a uma amizade com o fotógrafo João Fernandes de Paula, de Goiânia, que Moacir iria tirar o capuz e tornar-se efetivamente um artista. Incentivado, passou a desenhar não mais com toá sobre pedra, mas com outro suporte: giz de cera sobre papel e, depois, óleo sobre tela. Seus temas vão continuar os mesmos, com rituais antropomórficos, antropozoomorfos, cenas sexualizadas e repletas de seres celestiais e diabólicos. Há dez anos, Moacir vive dessa arte, o que lhe dá hoje um certo poder.

É uma história de saber, um saber particular, descontínuo, que começa em outro mundo e outro tempo, chega à nossa época e, parece, deve atravessá-la. São saberes mágicos, herdados de uma grande humanidade (um inconsciente ou um consciente coletivo?) e manifestos através da arte, do desenho, da pintura e da escultura. Tais manifestações únicas são claramente discursos de outras realidades. Com Moacir podemos viajar até elas e isso também nos dá um certo poder. (Paulo José)


Fotografia: Eduardo Amorim (3) e João Fernandes (1)
Altiplano.com.br
(Goiânia, Goiás, Brasil, 2002)