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A ARTE FANTÁSTICA DE MOACIR | ||
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FOTO AO LADO - À frente, Moacir; ao fundo, alguns dos primeiros turistas a comprar sua arte |
Uma luz forte e pura em cores primárias vão preencher os desenhos, que, à primeira vista e aos mais puritanos, chocam. São temas que misturam, paradoxalmente, sexo e religião, homens e animais, flores e plantas, anjos e demônios. Com essa arte, o seu autor, o artista Moacir Soares de Faria, de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, enfrentou muita resistência, olhares enviesados e críticas no início de sua carreira que, digamos, foi inaugurada oficialmente por volta de 1990.
Há muito tempo, em épocas imemoriáveis, Moacir morreu afogado, junto com muitas outras pessoas. O mundo estava acabando e uma inundação gigante e repentina cobriu tudo, enquanto uma imensa luz brilhava no céu. É o que descreve ele em depoimento.
Um dia, aos seis anos de idade, quando jantava com a família, misteriosamente seu prato foi arrancado da mesa por uma força estranha e invisível e jogado de forma descomunal fora da casa - o que foi testemunhado por todos. E Moacir viu o que ninguém viu, viu a força e, a partir daquele dia, passou a não suportar mais muita luz. Pediu então à mãe que lhe fizesse um capuz, que passou a usar sempre que saía de casa.
Assim se passaram 30 anos e somente em 1990, graças a uma amizade com o fotógrafo João Fernandes de Paula, de Goiânia, que Moacir iria tirar o capuz e tornar-se efetivamente um artista. Incentivado, passou a desenhar não mais com toá sobre pedra, mas com outro suporte: giz de cera sobre papel e, depois, óleo sobre tela. Seus temas vão continuar os mesmos, com rituais antropomórficos, antropozoomorfos, cenas sexualizadas e repletas de seres celestiais e diabólicos. Há dez anos, Moacir vive dessa arte, o que lhe dá hoje um certo poder.
É uma história de saber, um saber particular, descontínuo, que começa em outro mundo e outro tempo, chega à nossa época e, parece, deve atravessá-la. São saberes mágicos, herdados de uma grande humanidade (um inconsciente ou um consciente coletivo?) e manifestos através da arte, do desenho, da pintura e da escultura. Tais manifestações únicas são claramente discursos de outras realidades. Com Moacir podemos viajar até elas e isso também nos dá um certo poder. (Paulo José)
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