UM MITO KARAJÁ

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A criação do mundo em maravilhosa cosmologia

Karajás de Santa Isabel do Morro, Ilha do Bananal, Estado do Tocantins

Quando Kÿnyxiwe criou tainahãkÿ (estrela d'alva) esticou seu dedo cheio de luz e falou para todos os Karajá:

-Essa estrela grande, a maior dos céus, pode pertencer a cada um de vocês. Vejam bem, eu dei o berohokÿ (rio Araguaia) para que vocês vivessem no fundo do rio. Vocês não quiseram morar lá onde estariam livres de todos os perigos e dores. Não faz mal. Fiz o grande o Sol para aquecer o frio e embranquecer as praias, para chocar os ovos das tartarugas, colorir as folhas das árvores e as asas dos colhereiros. Depois dei a todos vocês a lua para embelezar a solidão da noite e ajudar as viagens de todas as canoas. Agora com tainahãkÿ é diferente. Ela é muito maior do que qualquer outra estrela, não é?

-Ela maior, sim, Kÿnyxiwe.

Kÿnyxiwe sorriu dentro de toda a sua bondade. -Eu sei. Quando vocês tiverem de fazer a "última" das viagens devem olhar para ela e falar de coração:

-Bom dia, estrela grande. Eu vim de longe para viver nos seus grandes rios, nas suas selvas lindas, longe do perigo, da dor e na casa da paz. Entenderam? Todos concordaram, mas alguém perguntou:

-E o Araguaia com seu fundo lindo, não voltaremos lá?

Kÿnyxiwe balançou a cabeça tristemente. -Vocês não o quiseram. Terão de acreditar em mim e viajar para a estrela grande. Agora, adeus!

Cruzou todos os dedos de luz no peito e desapareceu.


*Mito incluído no livro Hetohokÿ - um Rito Karajá,
de Manuel Ferreira Lima Filho, Editora UCG, 1994
*Foto: Manuel F. L. Filho

Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2003)