KARAJÁ DE ARUANÃ: QUANDO |
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A guerra entre brancos e sociedades indígenas
Manuel Ferreira Lima Filho
A aldeia de Aruanã (Buridina Mahãdu, na língua indígena) pertence ao grande
grupo Karajá, que ocupa o território do Araguaia há pelo menos três séculos
e meio, configurando um complexo sistema cultural que tem no fundo do rio a
aldeia mitológica de suas origens. Nas praias, nos lagos, no rio Araguaia
e nos seus barrancos, os Karajá exploram secularmente sítios de moradia,
locais de pesca, ritos, economia e lugares especiais para enterrarem seus
mortos. Os Karajá de Aruanã, que viram a cidade crescer em torno de seu
território, inclusive de moradia, de exóticos e de atração turística
passaram a ser uma pedra no sapato da cidade.
Tudo começou, quando motivados por outras lideranças indígenas Karajá que
estiveram em Goiânia em 1991 para discutirem a desocupação da ilha do
Bananal, os Karajá de Aruanã entraram com um pedido na Procuradoria Geral da
República em Goiás, a fim de que a Funai também iniciasse com eles o
processo de rever suas terras. Esse pedido foi respaldado por um laudo
antropológico meu, que depois de morar seis meses com os Karajá da aldeia
Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal (1989-1990) e de defender uma
dissertação de mestrado sobre um rito de iniciação masculina do referido
grupo, coordenava um projeto de extensão na aldeia de Aruanã desenvolvido
pelo IGPA da Universidade Católica de Goiás.
Em 1992 e em 1993, fui convidado pela Funai para participar com outros
profissionais e outros dois antropólogos (Eliana Maria Granado e Noraldino
Vieira Cruvinel) ambos da mesma instituição para compor o Grupo Técnico que
faria um relatório que apontasse os limites das terras indígenas dos Karajá
de Aruanã. Os critérios utilizados pelos técnicos, inclusive os do meu
primeiro laudo antropológico, foram expostos com clareza nos relatórios
produzidos tais como pesquisa de campo com os indígenas, com os pioneiros
da cidade, com personalidades políticas da cidade, com sertanistas, como
Acary de Passos Oliveira, além de inúmeras documentações históricas. Na
pesquisa de campo, os indígenas foram unânimes em estabelecer os limites da
aldeia de moradia, incluindo um antigo cemitério, local de grande
importância cultural para eles, uma vez que a prefeitura nos anos 70,
durante uma fase da expansão da cidade, destruiu o cemitério e jogou as
ossadas dos antepassados mortos, no rio. O mesmo cemitério, já havia sido
alvo de uma pesquisa em 1975, quando a arqueóloga doutora Irmhild Wust
(UFG/UCG) registrou o local, assim como um sítio arqueológico GO-JU-41 que
hoje faz parte do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do Iphan, como
bem cultural patrimonial brasileiro e protegido por legislação própria. O
relatório final (1993) indicava também os limites de uma segunda área de
plantio, na vazante do rio, no lado do estado do Mato Grosso, e uma terceira
área de plantio permanente e também de coleta de matéria prima para
artesanato (cestaria e flechas). Embora as áreas identificadas já
estivessem em pleno processo de demarcação, com portarias declaratórias
(1996), a prefeitura/governo estadual começam a construção, em 1998, de um
estação de tratamento de esgoto/água na área considerada indígena.
O processo de demarcação pela Funai prevê indenização das
edificações de boa fé, como é o caso dos limites indicados pelos Karajá que
contem "mansões", escola estadual, lotes vagos e casas de moradores locais.
Apesar de tais construções, os Karajá, jamais, durante a pesquisa de campo
dos antropólogos do grupo técnico, abriram mão do local do antigo cemitério
indígena.
Já se passaram nove anos desde a reivindicação primeira dos Karajá
e, o barulho que se tem ouvido do Araguaia pode querer informar ao público
goiano e nacional que tal processo, só agora teve início.
É interessante ressaltar que os Karajá são utilizados historicamente como
ícones da construção da identidade goiana, com suas famosas bonecas de
cerâmica, dando nomes a hotéis, lojas comerciais e ainda, emprestando o
nome de um importante ritual do grupo (Festa dos Aruanãs) para renomear a
cidade de Aruanã em 1950, que antes se chama Leopoldina. Mas ao migrarem da
posição de exóticos e atrativos turísticos e de inspiração para a construção
ideológica da identidade dos goianos, no melhor estilo do "bom selvagem", e
por reivindicarem os seus direitos constitucionais, os Karajá de Aruanã
passam a incomodar, refletindo a imensa dificuldade que nos ocidentais
(goianos!) temos de lidar com a diferença, com os indígenas, cuja história
nos informa sobre um longo e doloroso processo de contato com a sociedade
nacional. Esse processo de contato nos revela explicitamente os nossos defeitos sociais. E enquanto o planeta volta seus olhos para o 3o Encontro Mundial contra o Racismo na África, patrocinado pela ONU, nós goianos ainda temos uma dificuldade enorme de lidar como o nosso etnocentrismo, a favor de um "desenvolvimento social e turístico" e de aceitar o lugar do "outro", o dos indígenas de Aruanã, por exemplo, como membros importantes de nossa verdadeira identidade nacional. O Bandeirante, o Anhanguera, ainda teima em domesticar os indígenas de Goiás ! E não são apenas os mortos Karajá que são jogados no Araguaia, mas a dignidade e a história, que mesmo negando, é de todos nós. Manuel Ferreira Lima Filho é doutor em Antropologia pela UnB, Visiting Scholar da Harvard University, Diretor do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da UCG e membro da Comissão de Assuntos Indígenas da Associação Brasileira de Antropologia Foto-ilustração: Paulo J.S. Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2003) |