IGREJAS NA FORMAÇÃO |
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Pesquisa mostra influência da arquitetura
O estudo das igrejas setecentistas da antiga Vila Boa de Goiás, está associado à sua formação urbana, e remete o observador a três momentos específicos de sua história: o arraial de Santana, a fundação da vila e as intervenções de José de Almeida e Luís da Cunha Menezes. A análise aprofundada dessas peculiaridades compõe a dissertação de mestrado Arquitetura Religiosa de Vila Boa de Goiás no Século 18, elaborada pela professora Deusa Maria Rodrigues Boaventura, da Universidade Católica de Goiás, e apresentada na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo.
A pesquisa de Deusa, além de interessar a qualquer goiano pela temática em si, foi redigida em uma linguagem acessível, que torna a sua leitura, além de enriquecedora, um prazer. Ela demonstra que cada um dos momentos citados acima foi marcado por diferentes práticas urbanísticas, desenvolvidas no contexto das experiências da Expansão Ultramarina, que cedeu ao edifício religioso uma posição relevante na organização do espaço urbano.
Nesse contexto, tanto a construção de igrejas como o seu processo construtivo foram regulados por um complexo jogo social, relacionado a práticas de caráter hierárquico e segregacionista. Deusa ainda demonstra que os grupos profissionais, em diferentes momentos, atuaram por arrematação de serviços, o que implicou em notórias descontinuidades estilísticas, só atenuadas pelo respeito à ordem espacial litúrgica. O vínculo com a Expansão Ultramarina ainda dialogou com a arquitetura praticada na metrópole - Portugal - e nas capitanias adjacentes, onde se encontravam tipos retangulares e octogonais.
Historiografia
Embora o barroco brasileiro venha sendo estudado há algum tempo, a arquitetura setecentista da antiga capitania de Goiás tem recebido pouca atenção da historiografia artística nacional. Deusa acredita que uma explicação provável para esse fato é a associação à idéia de marginalidade e decadência que os visitantes estrangeiros, como Auguste de Saint-Hilaire e outros, tiveram do lugar. "Eles a descreveram tomando como modelo comparativo a suas cidades de origem", observa.
A revalorização da arte colonial começa a partir da década de 1920, impulsionada por intelectuais e artistas do Movimento Modernista. A pesquisadora da UCG aponta que, por essa época, começa-se a explicar as formas artísticas segundo os condicionantes tecnológicos e geográficos.
"O estudo das igrejas setecentistas de Goiás vincula-se à compreensão de sua história urbana. Os edifícios religiosos foram cruciais na formação, orientação e configuração dos espaços urbanos do Brasil colonial", pondera a diretora do Departamento de Arquitetura. As igrejas, portanto, marcaram significativamente a paisagem física e, simbolicamente, destacaram-se como foco de referência urbana.
A organização social da antiga Vila Boa O arraial de Santana iniciou-se em julho de 1726, com a chegada da bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva às margens do rio Vermelho. Mais tarde, a então Vila Boa foi alçada à condição de capital da capitania de Goiás, em 1739, três anos após ser desmembrada da capitania de São Paulo. A dissertação Arquitetura Religiosa de Vila Boa de Goiás no Século 18, também analisa as formas de organização social do trabalho dos artesãos coloniais, contribuindo para a compreensão das edificações da época. A professora Deusa observa que, em Vila Boa, no que diz respeito à lógica da construção dos edifícios religiosos, a negligência dessas relações de trabalho fez desconsiderar normas, procedimentos e controle das atividades dos artesãos e das obras que influíram na arquitetura das igrejas. Foram envolvidos vários grupos de profissionais, que fizeram intervenções pontuais nas decisões, execuções e modificações dos planos. A pesquisadora demonstra que foi o que ocorreu, por exemplo, com a Matriz de Santana. Felizmente, a presença de desenhos previamente elaborados assegurou a sua unidade. O arraial de Santana estruturou-se pela mais tradicional forma de fundar cidades, com a igreja assumindo papel preponderante na organização urbana, articulando e ordenando os espaços hierarquicamente, conforme a estrutura social da época. A formação do Largo da Matriz correspondeu à fase inicial dessa prática: consagrado pela igreja-mãe e circundado pelas habitações mais ilustres. Foi o local mais dinâmico do povoado, onde se confundiam as fronteiras do sagrado e do profano. Subordinado a esse local, o Largo do Rosário. Com sua Igreja dos Pretos, abrigou em suas proximidades a população parda e forra. Deusa explica que, com a fundação de Vila Boa, procurou-se inaugurar uma nova lógica, na qual a praça, definida previamente pelos arruadores, compareceu como elemento estruturador, para abrigar edifícios representativos do poder eclesiástico e estatal. "Essas alterações iniciam um novo espaço, rival do antigo povoado. Nessa nova ordem, as igrejas passam a disputar as melhores localidades relacionadas à vila como um todo", analisa. A pesquisadora da UCG conclui que essas resistências, distorções e desvios do plano de fundação, foram os principais alvos de reformas posteriores. As legislações e organizações sociais também influíram diretamente na edificação e disposição das igrejas, estruturadas por irmandades e confrarias.
Veja também: *Reportagem: Revista da Universidade Católica de Goiás, 2001 *Foto: Patrimônio Histórico de Goiás (Ana Maria Borges e Luiz Palacin), Fundação Pró-Memória, 1987 Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2003) |