YÊDA NÃO MORA MAIS AQUI
A última viagem da escritora que
misturava alfenins, mitologias e astronaves

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"Venham consolar-me", diz o poema yêdico. Venham, porque Yêda foi. Foi montada na sua astronave, adquirida aos tempos do peixenauta que mergulhava na poesia plena. Foi oscarlinamente. O rastro ficou, como poeira cósmica dos cometas mil que rodam bolsinha pelo sistema solar.

Ao morrer, em São Paulo, em maio de 2003, a poeta Yêda Oscarlina Schmaltz, mobilizou os amantes da literatura. Pernambucana de nascimento e goiana de ofício e criação, legou, conforme o professor Aleilton Fonseca já havia escrito antes de sua morte, uma obra que "tangencia temas e sentidos da mitologia clássica, outra hora incorpora elementos da cultura goiana, sempre em busca de imagens e efeitos líricos que surpreendem pela simplicidade com que traduzem significados profundos". Ela confirma:

Ser poeta
Ter sol, malícia,
solenidade e insolência.
Calo no dedo médio
são os ossos que me embrulham
neste ofício intenso que me esbulha.
Carregar um nome comigo,
esta letra vazia, carregar
esta palavra tão pesada,
que te ilustra
como a última palavra
não escrita
Ter fúria
e o avesso desnudado,
anotando somente o necessário
e a muito custo mesmo
re/velá-lo.

Atuante, integrou o 2º Festival Palavreiros, no Día Mundial de la Poesía, 21 de março de 2003, um dos últimos eventos de que participou. Com o lema "Por la unión de los pueblos a través de la poesía", ela e Anna Paes representaram o Estado de Goiás, no evento virtual que reuniu 320 poetas de 23 países. Ofereceu três poemas, um deles Viagem Marítima, do livro Peixenauta:

Vou navegando
na minha dourada barca
e há algo podre
no reino da Dinamarca.

Pé, pé, pé,
caranguejo, peixe é?
Vou navegando
no meu batel,
só vejo coisas via Embratel.

NA PALM,
palma, palma
da minha mão
está o eme de morte,
está a bomba, sou forte.

Vejo vida, mortename,
tristes imagens de sal:
via, vi-te, volte, ame,
pelo Jornal Nacional.

Caranguejo não é peixe,
o que é que ele é?

Me lavo: sangue e sabão.
Essa terra tem um nome,
não é bem o mortename,
diz-se: ALI É NAÇÃO.

A escolha de um poema de O Peixenauta, como um flashback, é porque esse livro, de 1975, vai além da poesia, é também uma reunião de amigos, artistas e jovens. Leva consigo uma minigaleria de arte, Yêda ainda é Iêda e, apesar de alguns poréns, a vida é uma festa. Ela testemunha: "Sou maior que o mundo porque ele cabe inteiro nos meus olhos".

"Usando uma figura da matemática, Yêda Schmaltz representou uma interseção do conjunto modernidade dentro do conservador", afirma a escritora Leda Xavier de Almeida, da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, em artigo no jornal Opção, de Goiânia. Para ela, Yeda tinha força impetuosa e sangue novo e veio incrementar "uma face nova no cenário da literatura em Goiás".

Essa ilustre criadora de mundos apareceu na cena na década de 1960, com o GEN, Grupo de Escritores Novos, formado por gente como Miguel Jorge, Heleno Godoy e Emílio Vieira e que constitui um aquarium divortium da história literária goiana. Yêda deixou publicado os seguintes livros: Caminhos de Mim (1964), Tempo de Semear (1969), Secreta Ária (1975), O Peixenauta (1975), A Alquimia de Nós (1979), Miserere (1980), Os Procedimentos da Arte (1983), Anima Mea (1984), Baco e Anas Brasileiras (1985), Atalanta (1987), A Ti Athis (1988), A Forma do Coração (1990), Ecos (1996), Prometeu Americano (1996), Rayon (1997), Chuva de Ouro (2000), Vrum (2000), Urucum e Alfenim (2001).


Texto: Paulo José
Foto: Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás

Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2003)