O FOGO NO CERRADO

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Um tema polêmico e controvertido

Itaboraí Velasco Nascimento

Um dos temas mais controversos no bioma cerrado é o fogo. Sua ocorrência se dá por causas naturais ou não e seus efeitos têm sido motivo de debates, principalmente a partir da década de 1970 (quando Mario Ferri organizou o primeiro Simpósio Brasileiro no cerrado repetindo-o por sete vezes) quanto a benefícios e/ou malefícios por ele causados.

Até tempos bastante recentes, qualquer referência a queimadas provocadas por fatores naturais era vista com desconfiança pelos órgãos ambientais e florestais do país.

O Instituto do Trópico Subúmido - ITS desde a sua fundação advoga o aprofundamento dos estudos sobre os efeitos ecológicos do fogo na fisionomia do bioma cerrado. Tal postura não é tomada levianamente, posto que vários estudos apontam para o fogo como elemento fundamental à estruturação de algumas paisagens do cerrado. Seus efeitos podem ser observados por quem freqüente o bioma, seja pela rápida rebrota após o fogo - atraindo um variado contingente de herbívoros em busca de forragem nova - ou pela germinação de sementes que necessitam deste choque térmico para quebra de sua dormência vegetativa.

No último quartel deste século XX, estudos de Schnell, Ferri, Budowski, Walter e outros, comprovaram à exaustão a ocorrência de queimadas provocadas por fatores naturais, tais como: vulcanismo, descargas elétricas, combustão expontânea, atrito entre rochas etc. Vestígios de carvão vegetal em camadas de sedimentos terciários e mais antigos são normalmente encontrados em pesquisas geológicas na região do cerrado.

Na história evolutiva do homem, este utiliza o fogo desde as mais remotas eras. "O Sinanthropus pekinensis foi o primeiro antropóide a usar ou controlar o fogo em pleno médio Pleistoceno, isto é, há quase 500.000 anos atrás" (segundo Stewart, 1956, citado por Coutinho, 1980).

A história do homem no cerrado não chega a tanto tempo, mas pode-se afirmar com segurança "...que entre 18.000 e 16.000 anos atrás, um contingente populacional cruzou o istmo do Panamá e veio de forma mais densa e efetiva povoar a América do Sul. Essas populações no início se acomodaram em nichos específicos do noroeste da América do Sul, onde puderam desenvolver uma cultura cuja economia se baseava na caça especializada de megafauna" (Barbosa, 1996).

Atravessando os Andes, estes homens ocuparam primeiro a Amazônia e, posteriormente, acompanhando as migrações faunísticas destes períodos vêm ocupar o planalto central onde, em virtude da variedade de fauna e flora, organizam-se culturalmente segundo usos e costumes variados.

Ainda segundo Barbosa (1996) "...alguns dos mais importantes processos culturais americanos nasceram no cerrado, como a formação do tronco lingüístico Macro-Jê, a domesticação e disseminação de certos tubérculos e outros vegetais e o desenvolvimento de tecnologia de caça, pesca e processamento de recursos vegetais nativos e cultígenos".

Esta população de caçadores/coletores e - posteriormente - cultivadores, utilizou o fogo em seus sistemas de caça e preparo de cultivares, segundo atestam as pesquisas arqueológicas na região dos cerrados, com testemunhos definidos em vários níveis de escavações.

Em síntese, os indígenas utilizavam - e ainda utilizam - o fogo em vários de seus procedimentos. Na atualidade, o fogo no cerrado tem na maioria das vezes, origem agronômica.

Muitas vezes o fumante tem sido responsabilizado pelo fogo no cerrado, mormente quando a área é cortada por rodovias, porém, uma curiosa investigação realizada por Vareschi (1962, citado por Coutinho, 1980) mostra que na região dos "llanos" venezuelanos a temperatura necessária para iniciar a combustão da palha seca de diversas gramíneas comuns àquela vegetação necessita estar entre 130 e 160oC, sendo que a brasa do cigarro apenas consegue chegar a temperaturas entre 50o e 120oC, o que torna bastante difícil a origem de um incêndio com esta causa.

Na verdade, no cerrado, a estruturação fundiária baseada em grandes propriedades abriu espaço ao desmatamento, sendo que a prá-tica da queimada, por não representar custos, tem sido a mais usada. Sem fiscalização eficiente, o fogo descontrolado atinge outros complexos vegetacionais, propagando-se por vários hectares.

Trabalhos divulgados por vários pesquisadores do cerrado, mostram que em diversas situações e em biótopos específicos dentro do bioma cerrado, o fogo é uma das variáveis ocorrentes que fazem com que as características específicas daquele biótopo se mantenham.

Não se pode, entretanto, equalizar os efeitos do fogo no cerrado, pela diversidade de parâmetros envolvidos, em virtude da diversidade de paisagens (que acreditamos poder chamar de regiões ecológicas) que o compõe.

Sabemos bem dos danos causados pelo fogo nos horizontes mais superficiais do solo em termos de interferências catastróficas nos processos de trocas químicas e biológicas. Estes efeitos, no cerrado, podem ser quantificados de formas diversas em cada biocenose identificada no bioma cerrado.

Já observamos, em termos de adaptabilidade de fauna, em campos com ocorrência de palmeiras Indaiá (Attalea exigua) e bromélias, onde a entomofauna se protege do fogo nos espaços úmidos do pecíolo das folhas.

A fauna de mamíferos, normalmente não chega a ser afetada, de vez que a velocidade do fogo e a altura das chamas permite, a maioria das vezes, a travessia para áreas já queimadas ou a fuga para lugares mais protegidos, sendo atingidos apenas aqueles menos capacitados dentro do processo de seleção natural.

Para a avifauna, algumas espécies, como os anus (Crotophaga ani), os carcarás (Polyborus plancus) e as seriemas (Cariama cristata), acompanham a queimada, alimentando-se de insetos e répteis atingidos pelo fogo.

Se, linearmente estruturarmos o cerrado na seqüência de porte (altura) de seus conjuntos vegetacionais, acreditamos poder sugerir uma linha de raciocínio para medir os efeitos do fogo sobre ele.

O cerrado "strictu senso" e o campo sujo, como já referido anteriormente, são estruturas formadas a dois "scrubs" e o aspecto retorcido de suas árvores e arbustos, segundo Ramos (1990), se deve à ocorrência do fogo, fazendo com que suas gemas de rebrota ocorram lateralmente, após queimadas as gemas terminais dos ramos.

Nesta mesma linha podemos também afirmar que pela falta de um horizonte húmico, as trocas químicas e biológicas se fazem a grandes profundidades no solo destes biótopos, não sendo afetadas grandemente pelo calor gerado em superfície, de vez que a falta de biomassa provoca alterações de temperatura não maiores que 1°C em camada que oscila entre 1 e 1,5 centímetros a partir da superfície do solo. Como este fogo ocorre apenas no estrato gramíneo/herbáceo, seu tempo de queima é extremamente curto, mesmo que as labaredas atinjam proporções maiores. O aspecto coriáceo das folhas não permite queima fácil destas e a cobertura de grossa camada de cortiça nos troncos protegem do calor do fogo o seu lenho.

O transporte de nutrientes pelas cinzas é feito principalmente pelo vento, não atingindo grandes distâncias (Coutinho, 1990), o que vale dizer que considerada a área ocupada pelo cerrado, as trocas são endógenas, ocorrendo dentro do próprio bioma.

Nas outras paisagens do bioma cerrado os parâmetros mudam. O campo limpo estrutura-se sobre o mesmo tipo de solo que o campo sujo e o cerrado "strictu senso", entretanto não há uma transição visível entre este e as veredas, onde os solos já são intensamente hidromorfizados, com aumento de matéria orgânica em decomposição em seus horizon-tes superficiais, provocando alterações mais sensíveis, em termos de trocas químicas e biológicas.

Também a ocorrência de palmáceas do gênero Mauritia aumenta a biomassa, dando ao fogo uma maior permanência e , consequentemente, a geração de maiores graus de calor sobre o solo.

Nas paisagens de maior porte, como o cerradão e matas ripárias, o acúmulo de matéria orgânica originando horizontes húmicos e biomassa são suficientes para gerar efeitos catastróficos como em qualquer formação florestada.

No Brasil, tradicionalmente utiliza-se o fogo na preparação do solo e renovação de pastagens, muitas vezes incendiando áreas de grande extensão.

Nos últimos anos campanhas têm sido feitas, no sentido de eliminar esta prática, até porque a pobreza nutricional dos solos do cerrado necessita de correções para seu uso agronômico, fazendo com que as perdas pelo fogo torne necessário espaçamentos menores na correção dos solos, com conseqüente encarecimento da produção agropastoril.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), divulgou há pouco, tabelas propondo alternativas ao uso do fogo, que transcrevemos a seguir. (Clique aqui para vê-las)

CONCLUSÃO

Segundo Kunholtz-Lordat e Lemée (citado por Coutinho, 1980), pode-se distinguir três grupos básicos de incêndios: a) pré-culturais, de origem remota na história e pré-história; b) culturais, utilizados para limpeza de plantações, fins agrícolas e silviculturais; e c) pastoris, de uso somente nos trópicos, servindo para criação e manutenção de pastagens.

Se o cerrado, como sugerem alguns cientistas, é um "clímax do fogo", sua ocorrência não deveria criar maiores preocupações, se considerada apenas sua paisagem "stricto sensu". Entretanto, mesmo considerado como agente ecológico, pelos aspectos comprovados de renovação da vegetação por rebrota (conforme César, 1980, que mostra que áreas de campo cerrado sujeitas a queimadas periódicas são mais ricas em espécies do que áreas onde o fogo é suprimido por longo período de tem-po), pela germinação de sementes por quebra de dormência (conforme Coutinho, 1976 e 1982, quando aponta que o aumento de temperatura pode favorecer a germinação de algumas espécies do cerrado) e pela manutenção da característica de tortuosidade de seus galhos (Ramos, 1990, credita ao fogo o aumento da tortuosidade e engalhamento, característica marcante nas fisionomias do cerrado), ainda carece de maiores informações a periodicidade ideal para a ocorrência de fogo no bioma.

Assim sendo, os processos de degradação do cerrado, mais que à ocorrência de fogo, deve-se à interferência antrópica no bioma através de desmatamento, utilização de biocidas, abertura de estradas, construção de cidades e expansão urbana, etc.

Em que pesem os aspectos sociais destes processo: como a melhoria da qualidade de vida e a produção e produtividade agropecuária, o cerrado está perdendo com tais procedimentos suas características paisagísticas e, mais que isto, está perdendo seu potencial madeireiro, oleaginoso, corticeiro, alimentar e, principalmente, medicamentoso pela falta de conhecimento e de normas específicas para sua utilização.

VEJA TAMBÉM
::Parte 1 - O Fogo como Agente Ecológico
::Parte 2 - Agricultura no Cerrado


*Foto de João Fernandes
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2001)