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Seria o cerrado uma vegetação "clímax do fogo"?

Mosaico com veredas, campo limpo e matas

Itaboraí Velasco Nascimento

Ocupando uma área de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, o cerrado é o segundo maior complexo vegetacional da América do Sul.

Considerando-se pela ótica biogeográfica, o cerrado é considerado um Bioma complexo e diversificado em seus diversos fácies.

Segundo Mares (1986), o cerrado comporta a maior diversidade do continente em termos de espécies endêmicas. Sendo considerada como a maior área savânica do mundo, o Brasil tem desenvolvido poucos trabalhos científicos de sistematização dessa flora.

Planta de campo sujoNo aspecto preservação, possuímos cerca de 2% da área constituindo Parques Nacionais e Reservas. Alguns parques nacionais de preservação do cerrado possuem área representativa, como: o Parque Nacional das Emas, no Estado de Goiás, com 132.000 hectares (ha), preservando principalmente paisagens de cerrado "strictu senso" e campos; o Parque Nacional de Chapada dos Veadeiros, também no Estado de Goiás, com 60.000ha, preservando significativa parcela da paisagem de campos rupestres; o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no Estado de Minas Gerais, com 84.000ha, guardando uma boa amostra de áreas alagadiças e veredas, e o Parque Nacional do Araguaia, com 563.000ha, localizado na porção norte da Ilha do Bananal, no Estado do Tocantins, preservando um ecotono bastante singular cerrado/floresta amazônica.

Entretanto levando-se em conta a diversidade de paisagens do bioma, principalmente em sua área "core", mostra-se quase irrelevante tal percentual.

No âmbito estadual poucos parques têm sido criados, geralmente de pequenas dimensões, preservando biótopos muito particulares.

Cerrado e o tronco retorcido: marca registrada Todos estes parques, sejam nacionais ou estaduais, têm sido criados por lei e delimitados no espaço físico, sem ter um eficiente aparato técnico/administrativo e de equipamentos que fiscalize e conserve seu espaço ou incentive o desenvolvimento de estudos sistemáticos visando conhecer para preservar sua ecologia.

O WWF-Brasil, recentemente publicou um trabalho excelente sobre a diversidade da cobertura vegetacional brasileira, privilegiando o conceito de regiões ecológicas mas, infelizmente não beneficiou a diversidade do cerrado, definindo-o praticamente como uma única região, assim como se este apresentasse uma única paisagem contínua, com características definidas a partir de um único aspecto, sem considerar na variedade de suas paisagens, o porte e a diversidade dos vários arranjos de suas componentes ambientais e ecológicas. (Veja mapas)

Aspecto geral de campo sujo e cerradãoDentre as várias paisagens do cerrado, algumas são biócoros e biótopos de grande importância, tais como:
· Veredas = paisagem típica junto a pequenos cursos d'água, geralmente em áreas planas, com solo hidromórfico/arenoso, tendo como principal elemento florístico de porte, o buriti (Mauritia vinifera) e, em regiões mais a leste do bioma, a buritirana (Mauritia sp.), acompanhando o curso d'água e gramíneas se espraiando por toda a planície de inundação;

· Campo Limpo e Campo Sujo= geralmente em áreas aplainadas, com solos pobres, cascalhentos, composta fundamentalmente por um extrato herbáceo/gramíneo, despontando, eventualmente, arbustos esparsos com cerca de 1 a 2 metros de altura;

· Cerrado "stricto sensu"= vegetação estruturada em apenas dois estratos ou "scrubs": um nível arbóreo/arbustivo, com árvores esparsas e retorcidas, que atingem altura média de 7 - 10 metros, e um estrato herbáceo/gramíneo. É a paisagem mais difundida do cerrado - e que muitos consideram como paisagem única -, é a que ocupa maior área dentro do bioma e, por isto, é aquela que se considera como a mais característica.

· Cerradão = estruturado em manchas de solo mais rico, man-tém, via de regra, composição fitossociológica semelhante à do cerrado "strictu senso", mais adensada e de maior porte, com estrato arbóreo atingindo acima de 10 metros;

·· Mata de Galeria = acompanham os cursos d'água e têm composição e alturas de dossel diversificados. Chamadas também de Matas Ciliares ou Florestas Ripárias. Na faixa onde se estruturam possuem e mantêm maior umidade no solo que nos terrenos circundantes. Têm grande importância na manutenção de nascentes e proteção de mananciais, funcionando como tampão e/ou filtros a escoamentos superficiais que poderiam carrear resíduos.

Como se vê, diversamente da visão difundida, o cerrado é um extenso "patchwork" que mantém na sua unidade, grande diversidade de trama.

Localmente, outras paisagens podem ser observadas, condicionadas pelo relevo, pelo balanço hídrico, pela composição do solo etc.

Sua fauna, geralmente, não está contida em quaisquer destas compartimentações, transitando em todo o bioma, através dos chamados corredores de migração.

Da mesma forma, os primitivos habitantes da região dos cerrados souberam retirar do meio o seu sustento, utilizando-se de todo o potencial desta diversidade.

Detalhe de árvore de cerrado stricto sensuMuito se tem cogitado sobre a origem do cerrado. Sua vegetação, por apresentar características de vegetação xeromorfa, no início do século fez com que cientistas acreditassem que sua gênese fosse determinada pela estacionalidade climática, motivada pela longa estação seca. Entretanto, estudos desenvolvidos já na década de 1940 compro-varam abundância de água disponível no subsolo, poucos metros abaixo da superfície, mesmo na estação seca (Mantovani & Pereira, 1998).

Estudos posteriores demonstram que, em virtude do lento processo de percolação nos solos do cerrado, seus lençóis freáticos adquirem sua máxima carga justamente quando do máximo da seca em superfície, o que dá à região reservas de água (superfície e subsolo) durante os 365 dias do ano.

Grande parte das espécies vegetais do cerrado possuem raízes pivotantes profundas, permitindo que frutifiquem e se reproduzam mesmo durante a seca. Além disso, sabe-se hoje que grande variedade da vegetação do cerrado possui xilopódios - órgãos lenhosos subterrâneos que protegem as plantas contra o fogo - cuja descoberta levou alguns cientistas a concluir que a vegetação do cerrado seria uma vegetação "clímax do fogo" (Coutinho, 1978).

No final dos anos 50, uma nova hipótese, a do oligotrofismo distrófico (Arens, 1956), associa a baixa fertilidade dos solos e o excesso de alumínio às suas características de nanismo e tortuosidade. Mas mesmo considerando que o alumínio aumenta a deficiência nutricional dos solos, hipóteses do oligotrofismo distrófico nunca foram testadas experimentalmente no país.

Hoje, aceita-se a combinação da estacionalidade climática, da deficiência nutricional dos solos e a ocorrência do fogo como os principais responsáveis pelas características da vegetação do cerrado. Sua variação espácio/temporal seria então a principal responsável pela diferenciação de suas paisagens.

Mata ciliarO cerrado brasileiro está estruturado nos chapadões centrais do Brasil, com altitudes que oscilam entre 500 e 1.600 metros acima do nível do mar, com miríades de nascentes que formam cursos d'água distribuindo-os para quase todas as grandes bacias do país.

A existência destas nascentes podem ser sumariamente explicadas pela geologia regional, estruturada em grande parte por complexos sedimentares areníticos que, através de falhas, fraturas e diaclases funcionam como aqüíferos, mantendo, em vários níveis, reservas em lençóis subterrâneos. Normalmente, o primeiro destes lençóis está situado em toda a região dos cerrados a uma profundidade que varia de 15 a 20 metros que, por ser perene, mantém o aporte de água.

Detalhe de casca grossa de árvore do cerradoHá que esclarecer-se que climatologicamente a região dos cerra-dos está classificada, segundo Köppen, como Aw - savana, com médias pluviométricas anuais de 1.400 a 1.700mm, temperaturas médias anuais máximas de 25°C e mínimas de 18°C, com duas estações: uma chuvosa e uma seca, podendo esta última durar de 6 a 8 meses.

VEJA TAMBÉM
::Parte 2 - Agropecuária no Cerrado
::Parte 3 - O Fogo no Cerrado


*ITABORAÍ VELASCO NASCIMENTO é pesquisador do Instituto do Trópico Subúmido da Universidade Católica de Goiás
*Fotos de Paulo J.S.

Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2001)