A AGRICULTURA |
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A última reserva de terra do planeta
Itaboraí Velasco Nascimento "A região do cerrado é uma das maiores e últimas reservas de terra do mundo capaz de suportar imediatamente a produção de cereais e a formação de pastagens" (Mantovani & Pereira, 1998). O acelerado processo de ocupação do cerrado, com intenso desmatamento tem gerado grandes problemas no que concerne à perda de solo por erosão e perda de espécies animais e vegetais, diminuindo consideravelmente a diversidade e quantidade em seu banco genético. A mudança da Capital Federal para o planalto central brasileiro na década de 1960 impôs grandes investimentos em infraestrutura, principalmente rodoviária, carreando um imenso contingente populacional para uma região que era, até à época, um grande vazio demográfico. As práticas degradatórias de solo praticadas pelos habitantes do sul do país (de onde veio o maior contingente para a ocupação do cerrado) foram trazidas sem adequações para este novo espaço. O cerrado, que produzia grãos em quantitativos irrelevantes, quando comparados à produção nacional, passou a integrar tabelas e quadros estatísticos da produção nacional, com destaque. Novos cultivares surgiram, ocupando extensas áreas no cerrado, a exemplo do cultivo de soja, que para sua implantação com produtividade a nível comercial exige, além de correção da acidez do solo e defensivos agrícolas (agrotóxicos), a retirada de toda a cobertura autóctone. Podemos situar a ocupação produtiva no cerrado segundo 3 zonas (Mantovani & Pereira, 1998): Zona I - área de agropecuária comercial moderna e relativamente consolidada, que abrange na totalidade ou em parcelas, 5 Estados brasileiros: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais; Zona II - agricultura periférica em expansão, áreas de expansão recente da fronteira agropecuária, que ainda apresentam baixa intensidade de ocupação e reduzido índice de aplicação tecnológica; Zona III - agropecuária incipiente, zona de agricultura pouco des-envolvida e que até 1985 ainda apresentava grande proporção de seu território ainda não incorporado a estabelecimentos agropecuários. Além de rebanhos bovinos, principalmente gado de corte, o cerrado constitui-se hoje, grande produtor de soja, milho, arroz, feijão , café e mandioca. Considerando os dados divulgados por Mantovani & Pereira (1998), numa projeção para o ano 2.000, levando em conta apenas a abertura de terras para agropecuária, cerca de 45,5% da superfície geo/-gráfica do cerrado já estaria sendo utilizado. Há, entretanto, outro agravante para o desmatamento do cerrado: a produção de carvão. Como o cerrado não constou da elaboração da Constituição Brasileira em 1988, no que concerne a áreas prioritárias para preservação, em propriedades particulares, sua utilização prevê o decapeamento de 80% da propriedade, deixando-se uma reserva legal vegetada de 20%, que não precisa ser especificamente de vegetação nativa. Com isto, a carvoaria tem-se aproveitado retirando, mesmo em áreas ainda não utilizadas para a agropecuária, toda madeira passível de ser transformada em carvão, de maneira intensiva e indiscriminada. Em suma, a expansão horizontal intensa e rápida traz, para o cerrado, expressivos danos à sua biodiversidade, entendendo-se aqui o termo biodiversidade em três níveis: genética, de espécies e de ecossistemas. Entende-se como diversidade genética a informação contida nos genes dos organismos vivos de uma determinada região. Com relação à diversidade de espécies, temos hoje catalogadas, 1,7 milhões de espécies de organismos viventes no cerrado, entretanto, como ainda há grandes áreas não estudadas no bioma, calcula-se que estas podem atingir cerca de 12,5 milhões (Ribeiro, Silva & Batmanian, 1985, e World Conservation Monitoring Centre, 1992, citado por Mantovani & Pereira, 1998). Quanto à diversidade de ecossistemas, entende-se a variabilidade de habitats, comunidades biológicas e processos ecológicos intrínsecos a cada ecossistema. No oeste do estado da Bahia, área tendente ao semi-árido, o avanço da cultura de soja nos últimos sete a dez anos, tem retirado toda a cobertura vegetal preexistente. Sendo área com predomínio de areias quartzosas, com rios senis e praticamente sem afluentes, os processos erosivos em superfície tendem a provocar um rejuvenescimento destes cursos d'água, o que, certamente causará profundas alterações no ecossistema. "Apesar de serem semelhantes aos latossolos em acidez e baixa fertilidade, o comportamento desses solos deve ser diferente quanto à química do solo. A maior parte de pesquisa agropecuária da região é conduzida em latossolos. Ao mesmo tempo, a vegetação nativa em áre-as de areia quartzosa está sendo destruída. Se não desenvolvermos uma estratégia eficaz para proteger e aproveitar racionalmente esses solos, logo teremos 30 milhões de hectares de deserto no planalto central brasileiro" (Haridasan, 1996). O cerrado, como já o dissemos, caracteriza-se principalmente pela diversidade de suas paisagens, onde cada uma mantém determinado nível de relações ecológicas que a distingue das demais, seja a nível de ciclagem de nutrientes, produção de biomassa, ou mesmo balanço hídrico e energético. Nesta perspectiva, o avanço intenso da fronteira agropecuária vem causando danos catastróficos à biodiversidade do cerrado, em que se pese a significância da produção e produtividade da região no balanço econômico/financeiro do país. Isto patenteia simplesmente a necessidade de maiores estudos que propiciem o melhor conhecimento do bioma cerrado, fazendo-se equilibrar produção e preservação, dentro de parâmetros de sustentabilidade e autosustentabilidade de ecossistemas. VEJA TAMBÉM *Foto de Paulo J.S. Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2001) |