A VIDA NÃO SE
RESUME A ELEIÇÕES

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Mas a política parece que sim


Por Augusto César de Almeida*

O período eleitoral é um momento de agitações sociais. Os indivíduos são conclamados a intervir no processo político. As pessoas se identificam com números, siglas e símbolos. É hora de se posicionar.

Tal situação leva os indivíduos a discórdia e ao conflito. Por mais que isso pareça desconfortável, "é no conflito que a política se realiza", como bendizem alguns teóricos da política.

Para algumas pessoas a tensão social, causada pelo posicionamento político de cada um frente a disputa eleitoral, não causa grandes transtornos em seu posicionamento e nem na sua vida cotidiana. Outros, porém, se envolvem no apoio e na defesa de determinada candidatura, buscando convencer os demais das qualidades e das vantagens de "seu" candidato, bem como dos defeitos e fragilidade dos demais.

À medida que mais pessoas se expõem ao espaço público, na mídia, fatos grotescos são percebidos pelo público e são ilustrativo da situação. Exemplo:

Certo canal de televisão mostrou um treinamento feito pela Justiça Eleitoral, ensinando populações rurais a votar com a urna eletrônica. Ao terminar de lidar com a máquina, um senhor de aparência simples foi entrevistado pela repórter, que lhe perguntou sobre a dificuldade de operar a urna. O senhor respondeu: "apertar o botão é fácil. Difícil é escolher o candidato."

Um candidato a prefeito, ao criticar os adversários pelo uso de dinheiro em grandes comícios e campanhas de agitação, usou com exagero de seu saber popular: "... isso é igual carro de boi no asfalto, só faz barulho... ".

Mas, realmente, esse momento de efervescência sócio-cultural é efêmero e acaba pouco depois da vitória do candidato eleito. A satisfação ou não do público, em relação ao governo do eleito, se dá em função da sua habilidade em reacomodar os interesses em conflito e os anseios da população. A superação do estado de conflito é um empecilho ao desenvolvimento da prática da cidadania. Assim a política acaba se resumindo em festivais.


*Augusto César de Almeida é sociólogo e teatrólogo
Ilustração: P. José
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2002)