A COSTA DA PERPLEXIDADE

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A idéia de descobrimento do Brasil é um conceito racista,
pois nivela os índios a coisas - como o Monte Pascoal

Celene Fonseca

Naus à vista ou Terra à vista? Quem primeiro viu uns aos outros, os portugueses ou os índios? Os dois momentos existiram e não foram certamente simultâneos. O certo é que os índios já estavam na praia quando os portugueses conseguiram divisá-la.Talvez já estivessem ali desde a véspera, a costa era bem povoada e vigiada. Porém, é secundário saber quem teve a primazia do golpe de vista sobre a nova realidade que se apresentava diante de seus olhos; neste caso, a diferença de minutos ou de algumas horas não muda a realidade.

Fundamental é ver o acontecimento na sua forma mais completa, conhecer o outro lado da História. Tanto mais quando se está em presença de visões antagônicas, cristalizadas hoje na fratura sociorracial do país. Ou seja, quando se sabe que os "vencidos" de ontem são os excluídos de hoje e que essa maioria, minorizada, não tem direito a voz.

A perplexidade permeia a história escrita do Brasil desde o início. Essa é a palavra que melhor resume a sensação experimentada pelos índios quando os portugueses aqui chegaram: aquela costa foi tomada pela perplexidade. Quem houvera visto antes homens tão diferentes? Tão peludos, tão narigudos, pálidos, tão cobertos de vestimentas, alguns com adereços, homens sem mulheres, falando uma língua ininteligível, pilotando "casas flutuantes"... Quem são eles? De onde vieram? Onde estão suas mulheres? Escondidas no ventre de suas enormes "canoas"?!

Essas foram algumas das perguntas que os índios provavelmente fizeram (a unidade básica da humanidade e as fontes históricas e etnográficas nos permitem afirmar isto). Durante toda a semana o clima foi eletrizante: os índios se aproximavam e 'se esquivavam', como disse Caminha. Era o espaço da novidade por excelência: a ausência de normas comuns limitava a comunicação, dando lugar a "paradas militares" e a uma certa agitação, como se todos quisessem "se mostrar", "se experimentar", buscando superar o estranhamento do Outro; o perigo, latente, foi intermediado pelo febril comércio de trocas (prefiguração do mercantilismo).

Logo, a perplexidade e seus subprodutos - a curiosidade e a desconfiança - marcaram a semana de 1500. Desconfiança recíproca: por mais que se queira distorcer a realidade, índios e portugueses não fugiram à regra que diz que "pessoas ou grupos desconhecidos não se jogam nos braços uns dos outros assim que se vêem pela primeira vez." Não houve, portanto, o idílico "encontro".

Escravidão e violação

A onda de perplexidade deve ter varrido o litoral em todas as direções, mas não foi capaz de cobrir todo ele de um só golpe. O mesmo espanto possivelmente se repetiu em pontos diferentes da costa mesmo antes de abril de 1500, tendo em vista que a terra foi visitada por outros navegadores, antes de Cabral. Outras perplexidades vieram logo se juntar à inicial. De imediato, a escravidão: de si e dos homens negros trazidos à força do outro lado do mar; o sequestro e estupro das mulheres e a agregação de novos seres à massa escrava (os mestiços de mil faces, às vezes três continentes estampados num só rosto!).

Cedo, a admiração e as expectativas de mudança - sobretudo em vista das eficazes ferramentas do Estrangeiro, dos animais e plantas que eles trouxeram, e da Escrita - cederam lugar ao estupor e à consternação. Mais do que a superioridade tecnológica e organizacional, era o desconhecimento da fonte do poder do inimigo que incomodava os índios: aquele distante mundo d'além mar era incomensurável. E os brancos não paravam de chegar: pareciam infinitos!

Com a conquista, um grande cataclismo se abateu sobre os homens e a natureza. O mundo não era mais o mesmo. Haviam retirado o chão das culturas. Não apenas seu substrato material - a natureza revolvida e depredada -, como a base mais propriamente cultural. As mentes foram quase que literalmente cercadas: as mortes e a opressão constantes, as lancinantes separações, a perda da língua, a coação espiritual representada pela evangelização forçada e onipresente, os 'demônios' e as 'penas do inferno' findaram por instalar um clima que semelhava ao terror. Deslocados no mundo, despossuídos de tudo (até, em parte, de si), os que não conseguiram fugir ao invasor mergulharam num misto de resignação e resistência mudas. Paralisados pelo desgosto, negativizados pelo medo, fez-se o silêncio. (cujo eco chega até nós através da humildade caipira.)

Apesar da aparente placidez todos estavam à espreita. O importante era durar, se fazer legião. Remeteram para o futuro a reintegração da posse de si. Foram quinhentos anos de (matutada) paciência, entremeada de revoltas, quando a ocasião se apresentava. O V Centenário de História do Brasil é uma dessas oportunidades. Habituado ao menosprezo pelo povo, o governo se traiu.

Ao pretender celebrar a lusitanidade, e não a brasilidade, ele agiu abertamente como secular representante dos colonizadores e de seus herdeiros, colocando em jogo a própria razão de ser do país: afinal, faz sentido um país que se toma por um outro? Para caracterizar a impostura, chegou-se a criar um "museu aberto", cuja definição técnica, é, no contexto, risível. São os paroxismos do Brasil arcaico, fim de reino.

A ruptura não se fez tardar. E ela gerou uma nova perplexidade capaz de explicar a primeira. O ataque se portou sobre a raiz e emblema do lusocentrismo. Constata-se que mesmo do ponto de vista europeu não houve o descobrimento português: Colombo precedeu Cabral em 1492 e em 1498, quando localizou o continente americano; qualquer outra "descoberta" ao longo da costa desse continente está evidentemente subordinada à descoberta espanhola (note-se que os EUA não têm descobridor e que o Brasil foi, por assim dizer, dividido - em Tordesilhas - antes de ser 'achado').

Preconceito fica nu

Sem sustentação empírica, o "descobrimento" ficou nú: é um conceito racista, pois coloca os índios no mesmo plano que os objetos, a fauna, a flora e os acidentes geográficos - o Monte Pascoal, por exemplo; ou seja, coisifica e desumaniza os índios ("eles não contam") e, por extensão, os africanos e seus descendentes.

O povo brasileiro descobre, perplexo, que 500 anos de sua história estão assentados sobre uma farsa! Quem melhor resume isso é o Centro de Cultura Negra do Maranhão: 'A História do Brasil começa com um descobrimento que não houve', sentencia (na cartilha divulgada no 13/05/99). No melhor estilo do espírito quilombola, de uma só tacada são também resumidos 500 anos de desgoverno: afinal, como dar rumo a um país que traz embutido no seu evento fundador a exclusão da maioria da população? Como fazer progredir um país cuja História tem por base uma "irracionalidade"?

Ao se transformar em conhecimento a perplexidade de hoje cassa a de ontem. O círculo se fecha. Os operadores lógico-simbólicos do sistema de exclusão são desvendados. O povo está no coração do sistema. Mas o momento é ainda de muita perplexidade. Ela pode ser vista, inclusive, no deslumbramento e desvario que acometem as pessoas que visitam a região de Porto Seguro/Cabrália. Tudo é tchan e frenesi na costa de todos os excessos. Como se o espaço da perplexidade primordial suscitasse a ritualização da mesma. Como se a anomia reinante em 1500 permitisse todas as transgressões do presente.

De fato, como nos locais das antigas batalhas, algo de extraordinário aconteceu ali; mas é preciso ultrapassar o culto ao "caos original" e fazer a síntese. Só assim, no novo milênio, o Brasil deixará de ser a eterna nau desgovernada à cata de um porto seguro. Só assim o Brasil tomará posse de si mesmo, sairá da perplexidade para entrar na História.


*ALDENEIVA CELENE DE ALMEIDA FONSECA é antropóloga radicada em Salvador
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2000)