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Reprodução em cativeiro é alternativa
André Luiz Martins
Os recifes de corais em todo o mundo continuam em constante declínio, sendo que até o ano 2000, 27% de todos os corais estavam definitivamente perdidos, segundo a Rede de Monitoramento Global de Recifes de Coral (GCRMN - Global Coral Reef Monitoring Network). É um declínio causado principalmente pela variação do clima no planeta, dentre outros fatores. Somente em nove meses do fenômeno El Niño e El Niña, foram destruídos nada menos que 16% dos recifais, números alarmantes, mas há ainda a capacidade de regeneração dos corais, o que poderemos considerar que metade poderá se regenerar lentamente, porém os demais estão definitivamente perdidos. Estima-se que 40% irão desaparecer até 2010 e mais 20% em 20 anos.
Mudanças climáticas como esta, furacões, tempestades, dentre outros, alheias à vontade humana, seriam decisivas por si só na continuidade de inúmeras espécies marinhas. Porém há ainda um segundo fator, causador de 11% nas perdas dos recifes - este sim, com uma ação direta do ser humano. A retirada de corais para construções, a pesca com cianeto/dinamite, loteamentos na orla marítima (onde da deposição de sedimentos) e por último, a retira para aquariofilia de corais, amplamente usados hoje nos chamados Mini-Reefs, os famosos aquários marinhos de corais.
Várias ONGs e OGs (organizações não-governamentais e governamentais), tem se dedicado inteiramente ao estudo das causas mais freqüentes de mortes em corais, bem como a conscientização da população e dos governos dos países, onde há incidência de recifes, que só acontecem em uma estreita faixa em todo o globo. Apesar do esforço sobre-humano realizado por estes órgãos, a tragédia por que passam os recifes tende a se alongar por muito tempo ainda.
Novo hobby, nova moeda
A aproximadamente 20 anos iniciou-se em várias partes do mundo uma modalidade bastante atraente, dentro de um hobby conhecido de todos, a aquariofilia. Os aquários marinhos - famosos pelo seu colorido - traziam agora mais do que esqueletos de coral , rijos e sem vida, com um fundo de conchas que escureciam com o tempo, tornavam-se agora "vivos" na sua amplitude. Após anos de pesquisa, muito estudo, muita observação, surge o mini-reef (mini-recife), modalidade que transformaria em muito a aquariofilia marinha. Os aquários, com um princípio bastante simples, de poderosas bombas para circulação, adição de cálcio e demais nutrientes, retirada mecânica de determinados compostos (amônia), forte iluminação e valendo-se de rochas marinha de origem orgânica, davam o
Os Aquários de Rochas Vivas, ou mini-reefs, permitiam que índices de amônia, nitrito e nitrato atingissem valores muito mais baixos e duradouros, e principalmente, mais rápido que os antigos aquários de esqueletos de coral, algo em torno de 1 semana contra os 3 meses pelo processo antigo. A novidade logo se espalhou pelo hobby, tornando-se objeto de desejo e deixou o uso dos esqueletos de coral na obsolecência. Estes eram formados a partir dos "Corais Fogo" (Millepora sp.) , que sofriam constantes retiradas em nossos litorais. Por outro lado, os Mini-reefs permitiam a colocação de animais anteriormente proibitivos nos moldes antigos, por sua exigência e cuidado, mas com as novas técnicas, totalmente viáveis nos atuais: os corais.
O mercado internacional, sempre em busca de um nova fonte de lucros, não demorou a enxergar nos corais uma poderosa fonte, transformando milhares de dólares de locais como as Filipinas, para milhões de dólares em todo o mundo, num mercado que se limitava a peixes e alguns invertebrados (estrelas, camarões, ouriços). a agora um grande nicho de mercado que eram os corais. O mercado norte-americano, ávido de consumo, absorveu imediatamente esta nova modalidade, gerando toda a sorte de equipamentos, alimentos para corais, lâmpadas para corais, suplementos para corais, livros sobre corais, sites sobre corais, fitas de vídeo, testes, refrigeradores (os aquários de corais tem algumas exigências quanto à temperatura), desnatadores poderosos (skimmers) e todos artefatos que se pudesse comercializar, agregando valor ao produto.
Os corais por sua vez, são muito mais fáceis de se capturar que os peixes. Animais césseis, não podem fugir das mãos dos pescadores, e encontrados até então em grandes quantidades, próximo às populações que se valiam em parte da captura de peixes para pesca e ornamentação/ subsistência. Logo, para o mercado internacional foi um achado; para os pescadores uma fonte a mais e para os ambientalistas um pesadelo.
Alguns países, a exemplo da Austrália, colocaram leis severas com relação a retirada desses animais, e vários corais entraram para lista de ameaçados de extinção, cuja comercialização tornou-se proibida, porém não é o bastante. O controle é praticamente impossível, quando se dá val ao contrabando desses animais. O coral é a base do recife, e como dito " o recife de corais está para os peixes, assim como a floresta está para os animais". Tiremos um, afetamos todo um delicado e complexo ecossistema.
Contrabandeados, importados legalmente, trazidos em malas pelos corredores dos aeroportos, chegavam ao Brasil as primeiras peças dos maravilhosos corais, que começaram a criar rapidamente uma revolução na aquariofilia nacional, mas sempre a preços inacessíveis ao consumidor comum, ficando restrito a uma classe financeira mais privilegiada, que corria de loja em loja a procura de novos animais para sua coleção. Pouca, ou nenhuma informação se tinha sobre os animais que chegavam às lojas, e maior era o número de adeptos aos aquários de corais. Nos cinco anos que se seguiram, muito conhecimento foi adquirido na prática, passado de boca-em-boca e com a vinda da internet, as informações foram se acumulando gerando novas técnicas e por fim, tecnologia.
Em Jundiaí, no interior de São Paulo, esta situação não passou desapercebida. Um mercado ascendente e uma eminente proibição do comércio de corais, devido à própria necessidade conservacionista, levou-nos a iniciar há 3 anos o que seria mais tarde conhecido como "Projeto Oceans". A idéia era formar uma reprodução de corais em sistema fechado, em um ambiente totalmente artificial, com peças que já haviam entrado no comércio, com demostrada adaptabilidade ao cativeiro. Para tanto, haveria impecílios de ordem financeira, e o próprio espaço da loja seria fator limitante.
Aquaristas em vários países foram contatados (EUA, Canadá, Alemanha), onde técnicas de reprodução em cativeiro já haviam se iniciado. Após dois anos, a loja possuia uma linha de produtos, suplementos necessários, com espaço e amplo conhecimento na área, deu-se início então a "Oceans".
As primeiras peças foram preparadas em Junho de 1998, onde foi acompanhado seu crescimento de forma sistemática. Fatores como salinidade, pH, cálcio, nitrito, nitrato e amônia eram acompanhados semanalmente, sendo a temperatura tirada três vezes ao dia. Técnicas diferentes eram apliacadas ao mesmo tipo de coral, verificando qual a melhor forma de propagar-se aquela espécie em estudo. Algumas espécies se adaptaram tão bem, que em três meses haviam animais em ponto de comercialização, outros por sua vez, não apresentavam qualquer mudança, vindo eventualmente a perecer sem causa evidente.
Não esmorecendo, e usando a criatividade natural do brasileiro experimentos foram conduzidos e os resultados, frutos da persistência, finalmente apareceram. No final do ano 2000, a Aquarismo Brasileiro possuía dez tanques com 1243 peças de corais, criadas em cativeiro, sem qualquer impacto ambiental e com nova tecnologia. São 17 espécies já em escala comercial, 31 em estudo de viabilidade, somando-se 48 espécies, que, se depender de empreendimentos como este, não sofrerão mais a retirada dos já agonizantes recifes de coral. Já deu-se início também à construção dos primeiros tanques para reprodução de peixes ornamentais marinhos, como por exemplo, os famosos peixes-palhaço (Amphiprion sp.) e bangai (Pterapogon kauderni).
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