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Pesquisa revela modificações da flora
do cerrado causadas pelas mudanças do clima

No primeiro plano, cerradão e, ao fundo, mata ciliar, ambientes do cerrado

A evolução do homem aconteceu nos últimos 2,5 milhões de anos, no chamado período Quaternário. Enquanto muitos animais se extinguiram por essa época, não há registro de que o mesmo tenha acontecido com as plantas. Daí a professora do Departamento de Biologia da Universidade Católica de Goiás (UCG), Maira Barberi, ter se baseado na vegetação para verificar as mudanças que aconteceram no clima do cerrado. "O ambiente responde às alterações climáticas e ao analisá-lo é possível prever inclusive como será o clima no futuro", explica.

A pesquisa de Maira rendeu a tese de doutoramento Mudanças Paleoambientais na Região dos Cerrados do Planalto Central Durante o Quaternário Tardio: o Estudo da Lagoa Bonita-DF, defendida em 2001 na Universidade de São Paulo (USP). A Lagoa Bonita está localizada em Planaltina e foi nela que a professora verificou a evolução paleoambiental, principalmente paleoclimática, de uma área atualmente recoberta por cerrados.

O objetivo da tese é propor a evolução da paisagem e os fatores climáticos que atuaram na vegetação da região nordeste do Distrito Federal, verificando a amplitude dos processos responsáveis pelas mudanças e fornecendo subsídios para novas análises sobre a gênese dos cerrados.

Era glacial e bacias hidrográficas

No decorrer da pesquisa na Lagoa Bonita, que desde 1988 constitui a Estação Ecológica de Águas Emendadas, Maira constatou algumas novidades no conjunto da vegetação. Na última era glacial -iniciada há cerca de 120 mil anos antes do presente -, ocorreram vários avanços e recuos das geleiras em áreas do hemisfério norte e nas altas montanhas. O reflexo destas mudanças no hemisfério sul provocaram alterações climáticas, com períodos em que o clima esteve muito mais frio e úmido que o atual, possibilitando a expansão das matas de galeria, que acompanham os cursos d'água.

"Isso possibilitou um contato maior entre as três grandes bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica, do Paraná e do São Francisco, principalmente na região do Planalto Central onde se situam as nascentes dos córregos e rios pertencentes a estas bacias, advindo daí o nome de Águas Emendadas para a região estudada. Tal ligação fez com que tivéssemos, por volta de 24 mil anos atrás na região do Planalto Central , uma vegetação muito mais exuberante do que hoje, com plantas diferentes, resultantes dessa mistura", constatou a pesquisadora.

Há aproximadamente 18 mil anos, o clima ficou muito mais frio e seco que o atual, causando a retração da vegetação, que em alguns lugares quase desapareceu. Por volta de 11 mil anos atrás, com o final da última glaciação retornam as condições de umidade no clima e a temperatura começou a subir lentamente. Foi a partir daí que começou a predominar a vegetação do cerrado como a conhecemos hoje. A partir de cerca de 8.000 anos antes do presente, com o aumento efetivo da temperatura, voltam a ocorrer no Planalto Central as veredas, paisagem típica encontrada junto a pequenos cursos d'água, geralmente em áreas planas, que têm como principal elemento florístico de porte o buriti.

O fogo anterior

Um dos temas mais controversos no bioma Cerrado, o fogo é mais antigo no cerrado do que se poderia imaginar. Na sua pesquisa na Lagoa Bonita - em uma área delimitada de aproximadamente quatro quilômetros de comprimento e outros três de largura média -, a professora Maira Barberi constatou registros de incêndios em períodos anteriores à ocupação humana, a partir da identificação de partículas de carvão. "As evidências de queimadas não estão necessariamente associadas à ação antrópica, que se torna mais efetiva em áreas de cerrados a partir dos tempos coloniais", explica.

Na sua tese de doutoramento, a pesquisadora da Universidade Católica de Goiás (UCG) fundamentou-se na análise palinológica, que refere-se ao estudo do conjunto de pólen e esporos fósseis dispersados pelo vento e depositados em lagos e turfeiras. Através da identificação e contagem destes microfósseis, que incluem o pólen das plantas superiores, os esporos de Pteridófitas e cistos de algas encontrados em sedimentos, aliado às datações pelo método do Carbono 14, foi possível estabelecer as modificações que ocorreram no conjunto da vegetação no decorrer dos últimos 30.000 anos antes do presente e consequentemente as modificações climáticas.

" A identificação das plantas e do conjunto da vegetação foi possível porque todos os tipos polínicos conservados em sedimentos do Quaternário tardio são suscetíveis de comparação com gêneros modernos, uma vez que não ocorreram extinções de plantas", lembra.

Clima e evolução

Os dados palinológicos fornecem evidências de diversas alterações climáticas, que modificaram o conjunto e a distribuição da vegetação a partir de 26 mil anos atrás, quando se inicia a formação da Lagoa Bonita em Planaltina (DF), e que puderam ser relacionados ao fenômeno das glaciações que afetaram de forma marcante a Terra, durante o Quaternário.

A evolução paleoambiental da região da Lagoa Bonita é marcada por dois intervalos com características distintas quanto ao conteúdo e distribuição da vegetação, separados por uma fase em que vigoraram condições mais secas que no presente. Maira constatou que a cobertura vegetal sofreu importantes alterações qualitativas e quantitativas, em conseqüência de mudanças climáticas. Condições semelhantes às atuais que resultaram na distribuição das diferentes formas de vegetação presentes no Bioma Cerrado, como conhecemos atualmente, são registradas principalmente a partir de 2000 anos antes do presente, nas terras baixas tropicais, como foi comprovado por datações radiocarbônicas.


*Reportagem: Revista da Universidade Católica de Goiás, 2001
*Foto: Paulo J.S.

Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2001)