CAIU NA REDE É PEIXE

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Promovendo amizades e casamentos, o chat
tornou-se o Santo Antônio dos balzaquianos

O autor deste artigo, Brasil Françoso, é professor de matemática em Goiânia e casou-se no início de 2001 com uma médica de São Paulo, que conheceu em salas de papo da Internet

A vida contemporânea moderna, diziam os profetas apocalípticos de plantão, iria nos impor um isolamento crescente e nos deixar cada dia mais solitários, reféns de um mundo altista auto-suficiente onde a presença do "outro" seria sublimada pelas demandas e correrias do mundo tecnológico.
Esse mesmo mundo tecnológico se nos apresenta hoje por um viés que abate tal profecia. A rede (Internet) tem propiciado o encontro presencial e os pleitos sociais afloram de forma espantosa e vertiginosa compondo uma confraria que não tem paralelo na história. As salas de bate papo (chats), tem evidenciado essas demandas relacionais, desabrochadas em função do estímulo de tal tecnologia de comunicação. Ferramenta de um primeiro, e às vezes único, contato entre pessoas ansiosas e solitárias, os chats desencadeiam uma teia de relações que promete revolucionar os segmentos sociais cristalizados pelas formas convencionais de encontro entre as pessoas.
Um olhar de marciano sobre o fenômeno, uma visita desinteressada às salas de bate papo nos descortina uma constatação de que as pessoas de meia idade (30 anos a 50 anos) são as que mais lotam, quase que as 24 horas do dia, os chats. Trocando diálogos particulares no porão (reservado) ou se expondo em animadas conversas no aberto para todo o grupo presente, essas pessoas passam cerca de 6 horas diárias debruçadas sobre o teclado em conversações breves e meteóricas sobre assuntos os mais variados, estabelecendo contatos disfarçados de impessoal pela ausência real do outro com quem se fala. A regularidade com que fazem isso conclui por estabelecer vínculos entre essas pessoa que, ato contínuo, tornam o virtual em real, em uma quase alusão criacional divina, e se reúnem para animados momentos festivos, encontros amorosos, suporte em dificuldades, ajuda mútua, em síntese: a relação presencial. A significativa presença nesse mundo das pessoas de meia idade nos leva a constatação de que os "balzaquianos" se ressentem com maior intensidade de novos grupos de amigos e amores que os adolescentes.
De fato, algumas pessoas chegam a dizer que se não fosse a Net não teriam resistido à solidão e a monotonia de determinadas circunstâncias de suas vidas. A artista plástica Irma Leão, que se separou do marido aos 43 anos de idade depois de 27 anos de casamento, confessa que a Net salvou seu cotidiano do sobressalto que sua separação significou em um momento da sua história.
" - Conheci pessoas do país inteiro. Já viajei para encontros em boa parte do nordeste, sul e sudeste do Brasil. Formei com isso um grupo seletos de amigos com quem converso quase que diariamente."
Nos chats, a rotina de abordagem que se processa entre as pessoas da sala é algo digno de nota. As pessoas entram na sala de bate papo atendendo por um apelido que escolhem ao entrar. Geralmente esses apelidos (nicks) são a ancora da abordagem, que ainda segue na maioria dos casos o ritual já consagrado do homem (cueca) como a parte responsável por tomar a iniciativa. É claro que a Net também rompe com esse lugar comum com mais freqüência que os encontros tradicionais em bares, festas ou ambientes sociais, e o nick funciona como um farol das intenções de quem o adotou : "Homem 35 procura", "Mulher carente" , "Sexo virtual (H)", "Amizade sincera" , etc.
O que se consegue notar, não só em função dos apelidos mas também ao observar os diálogos, é que existe uma forte intenção libidinosa, às vezes discreta ou outras vezes explícitas, nos contatos que se estabelecem. As tiradas e frases embebidas dessa libido são uma freqüente presença na maioria absoluta dos contatos travados, e o transcorrer da conversa filtra essas intenções e as cristalizam e escancaram.
Pessoas mais pudicas, a princípio, passam a ver com naturalidade essas "cantadas" de que insistentemente são alvo e incorporam nos seus discursos a reação positiva e de assentimento ao flerte, até porque também os pudicos, ainda que inconfessos, desejam o flerte e a conquista. Aí todo arsenal que possa estar disponível é usado sem qualquer escrúpulo desde que objetivos de conquista e sedução sejam atingidos no mais breve intervalo de tempo. Já se fala em incorporar essa modalidade no Guiness : recorde do menor tempo para convencer o até a pouco estranho(a) a um encontro, cinema, barzinho ou mesmo motel.
O momento do encontro pessoal, presencial, é muitas vezes cercado de uma certa tensão. É distinto o comportamento das pessoas em contatos reais e fica sempre o medo da decepção estética que possa advir desses encontros, numa alusão ao clássico Cyrano de Bergerac em que o tamanho do nariz possa causar estranheza e asco na nova conquista que se empreende. Quantificar tal fato , as decepções estéticas, se mostra tarefa árdua pois não se admite que dada conquista foi frustrada e uma certa ilusão de Dom Juam deve sempre orientar a imagem do galanteador. De qualquer maneira o eixo da conquista se desloca num primeiro momento da fluição estética dos olhos para a admiração intelectual do texto inteligente, articulado e contextualizado.
Ainda que problemas dessa ordem possam atrapalhar a convivência real das pessoas imersas nesse mundo, não raros happy ends no mais batido estilo holiudiano têm pipocado nas novas relações estabelecidas. O número de casamentos que têm as salas de bate-papo como origem tem crescido e as estatísticas já apontam esse desencadeador de novas células sociais como uma das causas mais freqüentes de matrimônio de pessoas que em condições normais jamais se conheceriam. O fato é que a Net tem contribuído decisivamente para o encontro das pessoas e isso saudamos como de grande valor positivo para a crise relacional que se abate sobre as sociedades modernas.



*Foto-ilustração: Paulo J.S.

Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2001)