OS SEGREDOS DO BAÚ DO
SENHOR ZUZA DO TATU DE CIMA

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Uma arca conta histórias do sertão

"Pergunto se o Sr. Paulo quer casar com a minha filha Jovilina. Se quizer, dê resposta ao portador". É o que diz uma das cartas encontradas no baú do Senhor Zuza do Tatu de Cima. Com ela, outras cartas, cartões, jornais, uma foto, escrituras e documentos que contam histórias públicas e privadas do sertão brasileiro.

O baú é mais: dentro há uma caixa com 322 moedas e 352 cédulas que relatam a memória da inflação e das crises econômicas brasileiras por meio de moedas chamadas réis do Império, cruzeiros e cruzados novos. Também há uma outra caixa, mais comprida, com 14 objetos como uma binga de osso de chifre e crucifixos de madeira. Há ainda uma outra caixinha com 17 objetos, entre eles três pacotinhos de palma benta de Domingo de Ramos, usado para benzer e afastar tempestades.

A descrição histórica e sociológica dessa arca foi feita pelo Instituto do Trópico Subúmido da Universidade Católica de Goiás, que a publicou com o título de Os Segredos do Baú do Sr. Zuza do Tatu Cima. Organizado pelo professor Horieste Gomes, a edição conta a história do baú, uma instituição oriental e ocidental desde a antigüidade, que é, ao mesmo tempo e dependendo a quem ele pertença, símbolo de riqueza e status, cofre de valores, espécie de guarda-roupa portátil ou mobiliário de casa.

É com os portugueses que eles chegam ao Brasil e logo se espalham por todo o país. Um desses baús vai parar nas maõs do Senhor José Moreira Neves, o seu Zuza, morador de Tatu de Cima, povoado às margens do Rio Arrojado, no município de Correntina, na Bahia.

Zuza é neto de Severiano Moreira da Silva, que é padrinho do Senhor Paulo Martins da Silva, aquele que foi pedido em casamento no início desse texto e possivelmente o proprietário do baú. Paulo, infere a publicação, deve ter sido um líder carismático do Tatu, era respeitado, possuia uma casa comercial e recebeu correspondências de 1914 a 1935.

De acordo com o texto, "a conclusão que podemos tirar da história do baú do Senhor Zuza é a de que o expediente adotado pelo Sr. Paulo, no que diz respeito ao 'zelo do patrimônio material e espiritual familiar', representou para a época o comportamento lógico e normal praticado pelos habitantes do meio urbano-rural do interior brasileiro".

Por outro lado, existe a constatação de que preservar, guardar e manter vigília sobre o entesouramento era a melhor opção e medida de segurança, revelando uma visão pragmática da realidade e um descrédito total em uma instituição ainda desconhecida e incipiente no Brasil: o banco.

Era uma época com questões e problemas muito diferentes dos atuais, conforme mostra outra carta enviada ao Sr. Paulo: "Comunicando-lhe que tem precisão de ir aos gerais para ver uma vacas, mas que está sem cavalo, solicita aluguel de um cavalo para este fim".


*Fotos: Fernanda Elisa (ITS/UCG)
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2003)