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Pequena história de uma invasão européia e o holocausto dos Tupiniquins

DE abril de 1500, quando os portugueses se estabeleceram em definitivo na Terra Brasilis, até os dias de hoje, quando as autoridades comemoram cinco séculos dessa data, milhões de índios brasileiros foram mortos diretamente ou indiretamente pela presença e as atividades derivadas dessa invasão européia.
À ÉPOCA, os levantamentos indicavam a existência de 1,4 mil tribos, que somavam 5 milhões de indivíduos e falavam línguas de 40 troncos, divididos em 94 famílias lingüísticas - o que dá uma idéia da formidável diversidade, que expressava tanto um continente territorial quanto cultural.
Hoje eles são pouco mais de 300 mil e apenas uma de cada dez tribos que chegaram a ser conhecidas sobreviveu. O QUE aconteceu? Aquilo que somente na metade deste século, durante a 2ª Guerra Mundial, passaria a chocar os europeus: os campos de concentraçãos e suas limpezas étnicas.
Como judeus em mãos nazistas, os indígenas brasileiros em mãos portuguesas e de bandeirantes paulistas - as cópias nativas da ideologia mercantilista ibérica - também perderam tudo: as terras, a família, a cultura, a vida.
ESSES povos trucidados foram e são o resultado de dezenas de gerações de descendentes dos primeiros homens que chegaram ao Brasil, há pelo menos 10 mil anos, construindo, ao longo do tempo, diversas e fantásticas nações indígenas - caracterizadas pela pluralidade, a organização social, a estética, o domínio da medicina e exemplares modelos de espiritualidade, relacionamento com a natureza, sustentabilidade, arte e cultura.
De tudo isso, quase nada restou. POR esse motivo não há como não falar que a chegada dos europeus foi o início do fim de um mundo fantástico, singular e auto-suficiente. O encontro definitivo entre esses dois mundos era, sem dúvida, uma questão de pouco tempo. O Brasil - que se chama assim como referência de terra prometida, segundo algumas lendas mágicas e cristãs da Europa, e não devido ao pau-brasil - , já era conhecido e freqüentado pelos europeus há séculos, conforme atestam mapas e documentos. O QUE os portugueses fizeram foram apressar a "descoberta oficial" porque, se demorassem um pouco mais, perderiam a primazia. Nesses mesmos 1500, afinal, espanhóis, holandeses e franceses também freqüentavam por aqui. Com a fixação, os colonizadores lusitanos começaram a implantar um modelo destruidor. À agressão ao índio somou-se o absurdo da escravidão africana. Portanto, falar de 500 anos do Brasil não é falar da esquadra de Cabral, mas do indígena e do negro, construtores essenciais do 'Brasil brasileiro', que, propositalmente, foram excluídos da história e colocados na condição coadjuvantes. Mesmo tendo pagado por isso o preço de suas vidas.
Números Sobreviventes
*MAIS Com 54 nações que somam 90 mil indivíduos, o Amazonas é o Estado mais indígena do Brasil.
*MENOS Goiás, que entrou para história por causa da imensa quantidade de índios que viviam em seu território, é hoje, ironicamente, o Estado que menos tem indígenas em aldeia. São 142, segundo a Funai, entre Karajá, Tapuya e Avá-Canoeiro. Pior que isso só Piauí e Rio Grande do Norte, onde não sobrou um.
*MAIS OU MENOS Apesar de os paulistas terem sido um dos principais responsáveis pelos massacres e extinções dos povos indígenas do Centro-Oeste do Brasil, o Estado de São Paulo ainda tem quatro tribos com 1,8 mil indivíduos.
Foto de Jesco von Puttkamer
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2000)
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