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Paulo José
Podemos dizer que os homens de hoje realizaram grandes sonhos dos homens do passado. Desejos, mágicas e lendas materializaram-se. Agora voamos, não com as asas dos pássaros ou as de Ícaro, nem de vassoura ou tapete e não ainda nas carruagens de fogo de Elias, voamos em aviões, balões, naves. A telepatia se realizou no telefone celular, onde e hora em que você e o outro estiverem – basta estar disponível. O espelho da rainha transfigurou-se na internet, com notícias e fofocas do reino e “portais” de busca e relacionamento nos quais posso perguntar: “site, site meu, existe alguém mais bonito do que eu?”
O correio eletrônico – o já brasileiramente adaptado imêi – tornou-se nosso mensageiro exclusivo. A televisão não é mais que o nosso circo particular, no qual palhaços, bobos e outros profissionais trabalham para nos entreter como reis. O controle remoto funciona como uma varinha de condão, que obedece ordens e transforma coisas à distância. A nossa carruagem de luxo transformou-se em automóvel - e não é que conseguimos colocar os cavalos dentro dele, num compartimento chamado “motor”?! Isso não é mágica?
E, se antes, só a maçã era envenenada, hoje o alface, o morango, o ar e as águas também são. Diversificamos!
Essencialmente, a soma de desejo, necessidade, ciência e tecnologia ao longo dos tempos é a responsável por tantas realizações. Não é simplesmente o resultado do agora. Ainda que tantas benesses e confortos ainda não cheguem a toda humanidade, muitos das novas gerações não sabem nem saberão o que é viver sem energia elétrica, televisão, computador , água encanada, geladeira, fogão a gás...Sem experiência de contraste, a impressão é que sempre foi assim. Mas, eternos insatisfeitos, parece que não estamos sabendo usar bem tanta tecnologia.
Se os problemas essenciais – do ponto de vista espiritual e psicológico - continuam os mesmos, esse admirável mundo novo tem gerado outros, que sequer podíamos imaginar. Descobrimos que temos uma coisa que não temos: o tempo. Se o usufruímos ou não, ele passa da mesma forma. E o que nossa sociedade tem feito é gastá-lo ao máximo ou, em outras palavras, viver aceleradamente. Aqui tecnologia e consumismo formam uma parceria que tem ditado os rumos, os fazeres e os gostos dos homens, muitas vezes contrariando o próprio livre arbítrio.
O desejo realizado é o do outro, não o nosso. No máximo, nos é dado a opção de escolha. Para o historiador americano Christopher Lasch, “liberdade de escolha significa deixar suas opções em aberto. A idéia de que você pode ser tudo o que quiser, embora preserve alguma coisa da antiga idéia da carreira aberta aos talentos, passou a significar a possibilidade de as identidades serem adotadas ou descartadas como se troca de roupa”. Especialistas e críticos, através de livros, programas de rádio e tv, imprensa e publicidade, vão nos dizer quais são as melhores adoções e compras que podemos fazer para sustentar esse estilo camaleônico. O problema é que a avaliação e a verdade de hoje não valem amanhã. É como aquele sujeito espantado com a velocidade das mudanças no mundo, mas resignado, que rezava: “Senhor, dai-me agora a opinião de hoje e perdoai a opinião que eu tinha ontem”.
Na era da ansiedade, as certezas esvaíram-se. E o homem consumista e materialista se esquece é um homem espiritual e não consegue saber o que realmente lhe falta. Sem respostas, o exagero tem sido a prática. Um exemplo claro de descontrole veio com a disseminação de máquinas fotográficas digitais e celulares que fotografam, com os quais perdemos o limite. Se antes, a cada jornada fazíamos no máximo 36 fotos, que era a capacidade do filme, agora não tem fim. Mas precisamos fotografar tudo o tempo todo? Onde vamos colocar tanta imagem? Será que as veremos de novo um dia, quando a quantidade chegar aos milhares? Do mesmo modo, com os práticos MP3, MP4, Ipod etc podemos levar uma discoteca inteira no bolso. Porém, nossa vida precisa de trilha sonora permanente? Temos que ouvir música o tempo todo? Não podemos ficar sem por algumas horas?! Parece que, mais do antes, estamos praticando o ditado “quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”.
Em algumas áreas como comportamento, moda e cultura, as coisas vêm e vão ao sabor das estações e dos eventos. Agora isso, agora aquilo; isso pode, isso não. Agora combina, agora não. “A estética da mudança exige que cada obra seja nova e diferente daquelas que a precedem; por sua vez, a novidade implica a negação da tradição imediata. A tradição se converte numa sucessão de rupturas”, diz o escritor Octavio Paz.
Para a teoria consumista, os nossos sonhos e desejos só devem ser realizáveis momentaneamente porque o consumo só existe autoperpetuando-se e isso requisita uma satisfação a ser sempre renovada – ou uma insatisfação permanente. E, além da geração de uma personalidade ansiosa e angustiada, temos outro efeito colateral: passamos a viver em uma “sociedade endividada” – dívidas feitas para a aquisição de supérfluos e novidades (o celular que você comprou na semana passada já é obsoleto; o computador, então...). Nas palavras do escritor goiano Wilson Cavalcanti Nogueira, “não é mais a figura delituosa do passado, o abuso de crédito. É hoje coragem o que antes foi irresponsabilidade”.
A boa nova é que há salvação. Não é obrigatório viver assim, é uma opção. São inúmeras as pessoas que não são escravas da tecnologia nem da moda nem dos shoppings e têm uma riqueza incomparável: são donas do seu próprio tempo. Com isso, conseguem a proeza de dizer um simples e sincero ‘bom dia’, feito que é capaz de transformar o dia do outro. Esse pequeno gesto divide o que funciona e transforma daquilo que só funciona.
Havia na beira da estrada um ótimo e bem freqüentado restaurante. Porém, com o passar do tempo, já bem de situação, o dono foi relaxando. E, na frente do estabelecimento, lixo, moscas e capim foram multiplicando. Só quando os clientes desaparecem e a falência chega é que o dono toma uma providência. Então, coloca à porta um enorme cartaz: “Entre assim mesmo”.
Providências como essa são tomadas diariamente em todos os cantos e têm o poder de iludir, principalmente quem as toma. ‘Estamos fazendo alguma coisa’. O que deve ser feito, é claro, são outras ações, mas o não discernimento de informações e percepções precipita o fracasso, senão o fim.
Se errar é humano e persistir no erro é burrice, nossa sociedade tem sido cada vez mais burra e menos humana. O consumidor compulsivo, o motorista irresponsável, a empresa que depreda e polui e o político desonesto e o ladrão comum que roubam e saqueam o são e o fazem não por falta de informação e esclarecimento. Para além do mau-caratismo, falta discernimento e discernimento é ver além, é uma aceitação porque precisamos querer. Discernimento é renúncia, pois exige o abandono de uma ambição pessoal e a adoção de uma solução coletiva, plural, social. Não eu, nós. E isso dói.
Por isso, na cultura brasileira atual, para cada grande problema, existe uma pequena solução. Melhorar o transporte coletivo, por exemplo, não vai fazer as pessoas deixarem o carro em casa e irem de ônibus. Vã ilusão de uma coletividade que não temos. O automóvel é hoje um item pessoal, como a carteira, o relógio e a escova de dentes. Cada um tem ou deveria ter o seu. É status. Lembra-se dessa palavra?
O resultado disso, porém, não é o bem-estar previsto e sim um estranhamento. Estamos dando volta em torno de nós mesmos. Como sociedade temos a obrigação de sermos “nós”, mas estamos sendo “eu”.
Por isso, temos de abandonar a idéia de transformar o mundo e adotar algo mais difícil: transformar a nós mesmos. Como uma conversão religiosa e suas renúncias, exigências e libertações, a decisão precisa ser pessoal e tomada o quanto antes. Do ato de economizar ao invés de gastar, da decisão de praticar um exercício, fazer um curso ou ler um livro, de um pedido de desculpas a uma declaração de amor, tudo isso muda o mundo. E o amadurece, ao contrário do consumismo desenfreado, que mantêm adultos em plena infância. É como aquela pedra atirada na água, que faz contínuos círculos em torno de si, mas primeiro transforma a si, depois, apta, participa da mudança do mundo ao redor (aplique isso em sua vida e fique tranqüilo: se der certo, só você vai saber; se der errado, você vai saber pela imprensa).
Paulo José é editor da revista Altiplano
Ilustração: Paulo J.S.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Setembro/2008
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