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Como cair da cama
e ser notado

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Paulo José

Todos os anos, em todos os lugares, milhares de pessoas caem da cama e a maioria passa despercebida. Uma parte, porém, fica registrada. No Brasil, em 2007, ano com dados mais recentes, foram 653 casos, sendo 315 homens e 338 mulheres. Sabe-se disso porque essas pessoas requisitaram atendimento médico e uma rede de captação do sistema de saúde, em todo o País, registrou. Assim, somando informações dessa natureza, os seus responsáveis construíram um grande painel, cuja proposta está sendo atualmente a de orientar políticas públicas na área da saúde, particularmente no atendimento, na prevenção e na promoção da cultura da paz e na criação de “ambientes saudáveis, seguros e sustentáveis”.

Cair da cama pode ser evento comum, mas é sua tradução que vai mudar tudo. Dados como esse estão no livro-relatório Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), publicado no início do ano pelo Ministério da Saúde. Segundo os autores, “os dados despertam novos olhares sobre o problema do atendimento às vítimas” e permitem “captar eventos menos graves, mas cujo conhecimento é fundamental para o planejamento”.

É um documento que nos mostra o que as pessoas estão fazendo dentro de suas casas e nas ruas, exibe estatísticas de grandes e microtendências e faz uma espécie de retrato do mundo interior, aquele que confirma ou escapa ao óbvio. Como diz o nome, o Viva é vivo e outros relatórios, cujas informações estão sendo colhidas, virão. Mas, de acordo com este primeiro inquérito, trata-se de “uma das principais iniciativas para o enfrentamento das causas externas de violência e acidente no contexto do Sistema Único de Saúde do Brasil”.

Os dados do relatório referem-se a 2006 e 2007 e foram coletados em todo o País, sendo em Goiás, especificamente no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). A coordenação do trabalho é de quatro profissionais, sendo dois médicos goianos: Otaliba Libânio de Morais Neto e Marta Maria Alves da Silva.

Eles explicam: “o impacto de causas externas (violências e acidentes) na qualidade de vida e nas condições de saúde da população representa um grande problema a ser enfrentado em todo mundo, podendo ser apreendido sob diversos enfoques e processos. Atinge um número muito maior de pessoas do que aquelas que se encontram diretamente envolvidas, e seus efeitos ultrapassam o sofrimento individual e coletivo, incidindo na cultura e no modo de viver das pessoas”.

Os números indicam que, dentre os pacientes vítimas de violências ou acidentes, predominaram pessoas do sexo masculino, adolescentes, jovens e adultos jovens, pessoas de pele parda e com baixa escolaridade. Nos atendimentos, 90% são vítimas de acidentes e 10% de violências.

No caso de violências, quando a vítima é homem, a maioria dos agressores é desconhecida e quando a vítima é mulher, os autores são do meio de convívio ou os próprios familiares, principalmente o cônjuge. E a desproporção é enorme: os registros indicam que 1.309 mulheres e 54 homens foram agredidos pelo parceiro. E fique atento: o “ex” volta. Volta para agredir e, se for do sexo masculino, mais ainda. No período pesquisado, 469 mulheres e 15 homens foram vítimas do “ex”.

Nos acidentes, as quedas são 36% dos casos, acidentes de transporte, 26%; e corte, 7,7%. Além de cair da cama (3,4%), as pessoas caem do mesmo nível (54,7%), de escada ou degrau (12,8%), de árvores (3%), no buraco (3%) e do telhado (2,7%). Em números, as mulheres caem mais da cama que os homens, mas os homens caem mais em buracos que elas e, do telhado, quase seis vezes mais. Cultura ou natureza?

Duas rodas é um perigo. Nos acidentes de transporte, 48% estavam de motocicleta e 21,7% de bicicleta, enquanto 12,6% estavam de automóvel e 12% a pé. Entre as crianças, predominaram os acidentes envolvendo bicicleta.

Os acidentes, no geral, acontecem na residência (37,2%) e na via pública (35,8%). Dos atendidos, 77,6% têm alta; 11,1%, encaminhamento ambulatorial; 9% são internados e – acredite – 0,7% foge. Em 2007 foram 354 fujões, sendo 248 homens e 106 mulheres.

E, parece, as coisas têm hora para acontecer, pois as ocorrências registram picos. Os acidentes têm pico às 10 horas, o menor nível às 13 horas e voltam a ter outro pico às 17 horas. As violências têm pico às 20 horas e menor nível às 6 horas. Assim, com informações como essas, o relatório mostra, por outro viés, como a nossa sociedade tem funcionado e no que não tem funcionado.

Por tudo isso e tanta diversidade, mesmo focado, o Sistema Viva é uma dessas boas realizações que serve a outros profissionais e a várias áreas do conhecimento, porque, para além da saúde, mostrando o que se sabia e também o que não se imaginava, dá muitas respostas e provoca muitas perguntas.


Paulo José é jornalista e editor da Altiplano
Ilustração de Paulo J.S.

Publicado por
Altiplano.com.br
Goiânia, Goiás, Brasil - Julho/2010