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Comunidade do Nordeste de Goiás recebe estudo com ‘Identidade
Visual e Manual de Uso’. Acima, estampado inspirado no Cerrado
Uma das maiores comunidades de remanescentes de quilombolas do Brasil, os Kalunga, na região Norte de Goiás, acaba de ganhar a sua ‘Identidade Visual e Manual de Uso’. O trabalho desenvolvido pelo designer goianiense Fernando Noleto traz a marca Kalunga que pode ser explorada na confecção de produtos fabricados na comunidade. A logomarca apresenta um rosto de uma pessoa da raça negra como destaque principal, formando a letra K, de Kalunga.
O estudo, realizado pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas (Sebrae Goiás), foi entregue para a comunidade em Cavalcante (GO), município a 526km de Goiânia, às mãos de Sirilo dos Santos Rosa, 56 anos, presidente da Associação Quilombo Kalunga, que integra os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. “Essa marca nos define como os Kalunga verdadeiros no Estado”, analisa Sirilo.
Apresentado por Tânia Aparecida da Silva, gerente regional Centro-Nordeste do Sebrae goiano, o trabalho mostra, ainda, a ‘Indumentária da Dança Sussa’, celebração que representa a cultura Kalunga. “Os Kalunga promoviam a Sussa vestidos de camisetas variadas, descaracterizados”, explicou Tânia. Agora, a gerente afirma que o Cerrado será ícone paras as vestimentas da dança, com suas flores catalogadas pelo designer Noleto, que serão agregados em tecidos de chita.
Tânia lembra que o estudo, com investimento arcado pelo Sebrae, beneficiará aproximados oito mil Kalunga, população estimada por Sirilo nas três comunidades. O presidente espera que a produção Kalunga possa ganhar visibilidade. “Vamos identificar tudo o que fabricamos, seja por meio do trabalho na terra ou cultural”, observa. Sirilo ressalta que os Kalunga produzem alimentos (doces, frangos, suínos e rapadura), cachaça e hortifruti, estimulados por 13 hortas da Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais).
Como produto cultural, o presidente quer valorizar a Dança Sussa, as folias, novenas, a ‘Caçada da Rainha de Cavalcante’ e a ‘Romaria do Vão do Moleque’. No ecoturismo, Sirilo explica que o setor já é fonte de renda para o Kalunga. “Nossos guias turísticos treinados pelo Sebrae Goiás recebem pelo seu trabalho. Cobramos taxa de entrada nas comunidades a R$ 10,00 por pessoa e temos restaurante na comunidade do Engenho II, onde se chega de carro”, anuncia.
O designer Fernando Noleto lembra que passou três dias visitando as comunidades, junto de consultores do Sebrae Goiás, há cerca de um ano. O designer explica que a pesquisa de campo teve o objetivo de conhecer a história local e sua gente, para a confecção da Identidade Visual e Manual de Uso.
Noleto afirma que catalogou aproximados 20 espécies de flores do Cerrado que devem servir para o feito de ‘chitão’ próprio para a indumentária da Dança Sussa. Para a logomarca, o designer observa que aplicar o perfil de uma pessoa Kalunga como símbolo foi assertivo. “Os povos devem transferir aos produtos as suas identidades, agregando valores históricos e culturais”, observa.
RECONHECIMENTO
O prefeito de Cavalcante, Josias Magalhães, (PTN), enalteceu o papel do Sebrae goiano no desenvolvimento das comunidades. “Antes de ser prefeito eu criticava o Sebrae no Estado, que falava em curso ali, curso aqui, menos em Cavalcante, mas, agora, sinto-me honrado pelo esforço da entidade em promover a tradição e o progresso dos Kalunga”. Josias afirmou que tem dois secretários municipais oriundos da comunidade. “Minha mulher também é Kalunga”, lembrou.
Um dos 76 prefeitos goianos a implantar a Lei Geral Municipal, Josias atenta que o desenvolvimento turístico de Cavalcante depende muito do acesso ainda, pois a falta de estradas prejudica o setor. “Estamos investindo nisso, como também devemos construir a Casa da Cultura na cidade, em convênio de R$ 400 mil com o Ministério da Cultura (MinC), além da Casa do Artesão, com projeto em andamento”, revela o prefeito.
ONDE O CERRADO VIVE
O município de Cavalcante (10.398 habitantes/IBGE 2009) construiu grande parte da história do nordeste goiano. Ele abrange 65% da área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, reconhecida pela Unesco/ONU como Sítio do Patrimônio Natural Mundial, além do título de Reserva da Biosfera do Cerrado Goyaz.
Constitui-se como a principal porção preservada de Cerrado de Altitude do País, bem como uma das áreas de maior biodiversidade localizada ao longo do vale do Rio Paranã, Bacia do Rio Tocantins. Todo esse aparato natural é somado com a cultura, abrigando o povo Kalunga.
TERRA ENCANTADA
Os Kalunga vivem há mais de 200 anos numa região inóspita, mas de rara beleza natural. Com área de 253 mil hectares (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária/Incra), 97% ainda intocada, na fronteira de Goiás com o Tocantins e a Bahia, entre os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás, o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga abriga cerca de 4.000 habitantes (60% deles com menos de 20 anos) e 1.000 moradias, muitas delas ainda erguidas com tijolo adobe e forradas com palhas de coqueiro pindoba. Divididos em 28 pequenas comunidades, delimitadas pelos vãos dos rios, eles levam um ritmo de vida estacionado no tempo, praticando a agricultura de subsistência.
O percurso entre as comunidades é feito tradicionalmente de mula, devido à falta de estradas e ao revelo montanhoso. Os poucos registros históricos dão conta de que os primeiros habitantes da região foram negros fugitivos dos quilombos dos tempos da escravatura. O local foi escolhido pelo fato de ser distante e de ter o seu acesso dificultado pela grande quantidade de morros e serras íngrimes. O significado da palavra Kalunga tem várias vertentes, como coisa pequena, a morte e o oceano. Na África, de onde vieram os escravos para o Brasil, Kalunga é uma palavra ligada à crença religiosa. Somente no ano de 1980 a identidade étnica dos Kalunga começou a ser pesquisada. Até então, todos eram analfabetos.
À espera da regularização Dentro do Sítio Histórico existem mais de 90 fazendas, muitas delas em área de ocupação ilegal (sem título de posse) ou em terras devolutas do governo do Estado de Goiás. Em 1996, o Governo de Goiás reconheceu a área como patrimônio cultural e sítio de valor histórico (LC 19, 5/01/96). Em 2000, o Governo Federal imitiu o Título de Reconhecimento e Domínio da área de 253 mil hectares em favor do estado de Goiás.
Em março de 2004, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o território. Assinado em 2006, um termo de cooperação entre o Incra e a AgênciaRural do governo goiano definiu objetivos a identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação, regularização e titulação das terras em favor dos Kalunga. O documento prevê recursos de R$ 16 milhões do Incra para a desapropriação de terras, pagamento de benfeitorias e despesas de custeio técnico.
Fonte: ASN Sebrae Goiás. Reportagem de José Antônio Cardoso
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Novembro/2010
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