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Wilson Carlos Jardim Vieira Júnior,
Andrey Rosenthal Schlee e
Lenora de Castro Barbo*
A conquista de territórios e o desenvolvimento
da cartografia estão diretamente relacionados e, do
ponto de vista histórico, foram interdependentes.
Ambos encontram-se na gênese do Estado Moderno.
Cedo, os monarcas portugueses perceberam a
importância estratégica da correta informação e da
detalhada representação das condições geográficas do
território aceito como de seu domínio e, também,
daquele alvo de sua ambição política e econômica.
Ou
seja, o necessário conhecimento sobre o “espaço
demarcado de exercício de poder, o qual pode estar
integralmente sob seu efetivo controle ou conter partes
que constituem objeto de seu apetite territorial”
(Moraes, 2005). Foi com esse objetivo que, por volta
de 1417, o infante D. Henrique (1394-1460) criou em
Sagres, Portugal, e em Lagos, Nigéria, centros de
coleta de informação a respeito do conhecimento
náutico e cartográfico.
Para tanto, passou-se a exigir
dos responsáveis por viagens marítimas (e terrestres) o
devido registro dos percursos adotados e a atualização
de dados pertinentes. “A informação exata que se
exigia dos pilotos do infante fez com que a ciência da
cartografia desse um salto de qualidade e atingisse um
nível de precisão inacreditável para época” (Dantas,
2007), fato que contribuiu para alavancar a série de
descobrimentos e a decorrente constituição do império
português. Da simples descrição dos roteiros costeiros
(os portulanos) passou-se a produzir documentos
espacialmente mais abrangentes e de leitura mais
complexa (as cartas de navegação).
Tratadas como segredo de Estado, as
informações coletadas durante as viagens eram
sigilosas e de propriedade real, só empregadas na
correção dos mapas existentes ou na elaboração de
novos documentos. “Feita a matriz, cópias das cartas
de navegação eram reproduzidas à mão por copistas, o
que acarretava ligeiras alterações derivadas dos
sucessivos decalques” (Ramos, 2004) ou da
incorporação de elementos decorativos. Outras vezes,
em função de interesses particulares ou da previsível
espionagem, cópias eram especialmente produzidas
contendo erros estratégicos. Prática que chegou aos
nossos dias e que, ainda hoje, dificulta a compreensão
do corpus cartográfico histórico disponível, confunde
estudiosos e desperta a curiosidade de muitos
pesquisadores.
Vejamos, então, um caso interessante ocorrido
em pleno século XVIII, no interior do sertão do Brasil.
VOU por Letra aos pés de Vossa Excelência;
ainda que a minha mayor furtu-na, e honra
seria fazelo pesoalmente, estribado sempre
porem naquele/profundo respeito, e
acatamento, que á de tempo taõ antigo traz a
origem, que/objectivamente tive, e devo à Sua
Excelentíssima Pesoa; mas sempre com a
Sustada, e duvi-/doza rezoluçaõ, de que me
seja contada por temeridade esta
determinaçaõ; eu/ative quando soube a
estimável, agustoza noticia, de dar a Vossa
Excelência o parabéns/por carta, da
acertadisima eleiçaõ que o nosso soberano
fizera de nomear/a Vossa Excelência seo
Secretário de Estado, emprego ainda que
infeior aos altos mere-/cimentos de que Vossa
Excelência se orna, sempre venturozo para a
Monarchia, de ter/hum Ministro taõ destinto
que a derija.
Assim tem início o ofício que o secretário de
governo da capitania de Goiás, o português Ângelo dos
Santos Cardoso enviou a Sebastião José de Carvalho e
Mello, Secretário de Estado (1750), futuro Conde de
Oeiras (1759) e Marquês de Pombal (1769). O
documento, que compõe o acervo documental referente
à Goiás, está guardado no Arquivo Histórico
Ultramarino – AHU, e trata-se de um relatório sobre a
capitania, escrito em 1755 (AHU_ACL_CU_008, Cx.
12, D. 740.).
Entre outras coisas, menciona os aspectos
gerais da ocupação e formação territorial, os problemas
existentes, comenta sobre a povoação e a participação
eclesiástica. A elaboração de relatório sobre a capitania
cabia ao secretário de governo, funcionário nomeado
pelo rei, geralmente bacharel, que assessorava
diretamente o governador, sendo responsável pelos
trâmites burocráticos do governo, ou seja, toda a
documentação emitida e recebida pela autoridade
administrativa da capitania.
Ângelo dos Santos Cardoso foi nomeado
secretário do governo e dirigiu-se à Goiás no ano de
1749, acompanhando o governador D. Marcos de
Noronha, Conde dos Arcos, o primeiro a exercer o
cargo na recente capitania, independente de São Paulo.
A comitiva do novo governador chegou à capital Vila
Boa no dia 6 de novembro, e Ângelo Cardoso redigiu o
termo de posse em cerimônia realizada dois dias
depois.
Aos 8 dias do mês de Novembro de 1749,
nesta vila Boa de Goiás, nas casas da câmara
dela, na presença do senado da câmara da
mesma vila e povo dela, sendo aí lida a
patente real com que S. M. faz e nomeia
governador e capitão-general destas minas ao
Ilm.o Exm.o Sr. D. Marcos de Noronha, em
virtude de que tomou posse do mesmo
governo. De que fiz este termo, em que
assinaram o dito Ilm.o Exm.o Sr. governador
e capitão-general e oficiais da câmara. – E eu
Ângelo dos Santos Cardoso, secretário do
governo, o escrevi e assinei. – D. Marcos de
Noronha. – Ângelo dos Santos Cardoso. –
Agostinho Luiz Ribeiro. – Manoel da Silva. –
Inácio Barbosa da Silva. – João Ferreira
Barros (Alencastre, 1979).
Ângelo Cardoso quando escreveu o relatório
de 1755, já se encontrava há seis anos no sertão goiano
e nesse tempo havia percorrido a capitania de modo a
construir suas impressões. Menciona no documento,
que conheceu um especialista em cartografia, cujo
nome não cita, que teria viajado pela capitania e
elaborado a primeira representação cartográfica de
Goiás, com os arraiais e os caminhos. Ângelo Cardoso
atesta ainda que o mapa foi enviado em 12 de maio de
1750 ao diplomata Alexandre de Gusmão, certamente
com o objetivo de fornecer informações sobre as
ocupações ocidentais da colônia, principalmente
àquelas situadas além do Tratado de Tordesilhas. A
ampliação do conhecimento geográfico da colônia
ajudava a garantir os interesses de Portugal diante da
Espanha, principalmente quando se tratou da
demarcação dos limites coloniais na América do Sul
durante a articulação do Tratado de Madri, assinado em
1750.
Concidero, a Vossa Excelência já com
algumas luzes naõ pe-/quenas, da situaçaõ
deste Continente, naõ só porque seria publico
hum Ma/pa nese Ministerio, que eu remeti a
Alexandre de Gusmaõ, que Deus haja,/em 12
de Mayo de 1750, que foy o prim.ro mais
ajustado, que lá apareceo até/aquele tempo, e
o menos distante da verdade da destrebuiçaõ
desta Comarca,/e seos Arrayaes, mostrando o
caminho, que vem da Vila de Santos a esta
Capi-/tal, e daqui ao Cuyabá, Mato Groso,
Rio da Madeira, té o das Amazonas,/que à
força de deligência alcancey de hum sugeito
capacisimo, na materia de/fazer Mapas, que
pesoalmente viagou quazi toda a imensa
extensaõ dos/referidos caminhos, e de
propozito lavrou a meos rogos o que remetî.
(AHU, D. 740, fl. 2).
Assim, era de fundamental importância
descrever as características das terras novas e a
estrutura da ocupação colonial ao rei. Prática que,
como visto, era exercida desde o século XVI, por meio
da sistemática atualização das cartas-padrão, nas quais
os cartógrafos durante as viagens registravam os
aspectos geográficos, hidrográficos, rotas, portos,
ocupações humanas etc. (Bueno, 2007).
Prosseguindo em seu relatório, Ângelo
Cardoso menciona a presença na capitania do
cartógrafo e geógrafo Francisco Tosi Colombina.
Conforme o historiador Paulo Bertran (2000),
Colombina era um entre tantos outros italianos que
trabalharam para Portugal com o objetivo de propor
mudanças estruturais na colônia, e que, oportunamente,
passaram a tentar enriquecer no Brasil.
Tal intenção
levou os italianos a percorrerem as capitanias
brasileiras e assim Tosi Colombina chegou a Goiás.
A serviço do Conde dos Arcos, o cartógrafo
italiano foi encarregado de levantar informações sobre
a capitania e as registrar em um mapa, tarefa que
realizou e entregou ao governador em 6 de abril de
1751 (Quadro 1, Documento 2). Portanto, o Mapa
geral dos limites da Capitania de Goiás feito pelo
engenheiro italiano Francisco Tosi Colombina (Fig. 1),
foi elaborado um ano depois do mapa enviado por
Ângelo Cardoso. Este, por sua vez, comenta que
Colombina, sabendo da existência do mapa da
capitania de Goiás, solicitou uma cópia, pedido que foi
prontamente atendido pelo secretário. Ou seja, foi feito
uma reprodução do documento anteriormente enviado a
Alexandre de Gusmão.
Na mesma conjuntura que eu cheguey a esta
Vila/Em companhia do Senhor General
Gomes Freire de Andrada, também veyo hum
Italiano/Italiano, por nome Francisco Tosi
Columbina, na cometiva do ouvidor/novo
Agostinho Luiz Vieira, que Vinha entaõ para
esta Comarca; o qual/Columbina dahy a quazi
hum anno, foy em companhia do mesmo
Ouvidor correr/a Comarca; e levou ordem do
Senhor Conde dos Arcos General desta
Capitania, para hir ob=/servando as alturas
dos Arrayaes, e situações da mesma
Comarca; pela/curiozidade que se lhe
descubrio, de ser enfarinhado em Geografia;
pedio-/me o referido Columbina, a copia do
Mapa, que eu já antecedentemente/tinha na
maõ, de que havia remetido o original para a
Corte a Alexandre/de Gusmaõ, e dele sevales
para formar outro com pouca diferença,
exce=/pto em alguma exacçaõ das alturas dos
graõs, em que ficavaõ os Arraya/es, e algum
rio, ou citio que descobrio de novo; este Mapa
que fez o tal/Italiano, seria vezivel a Vossa
Excelência; o que talvez não escaparia à Sua
penetrante prespicacia, se por acazo o
conversou, que Columbina pe-/ca alguma
coiza em vizionario. (AHU, D. 740, fl. 2-3)
Imagina-se que, com base no mapa de Ângelo
Cardoso, Tosi Colombina se lançou em viagem pela
capitania de Goiás, cotejando e coletando informações
que colheu de viajantes e sertanistas, somadas às suas
experiências pessoais (Barbo e Schlee, 2009). O novo
mapa então elaborado objetivava reforçar a intenção de
Colombina (e sócios) de implementar uma estrada
ligando Santos a Cuiabá, pelo qual solicitaram ao rei D.
José I (1750-1777) sesmarias e privilégios de
exploração durante dez anos (AHU_ACL_CU_008,
Cx. 8, D. 554).
O mapa assinado por Tosi Colombina tem
sido considerado pela historiografia como a primeira
representação cartográfica de Goiás, outros tantos
documentos cartográficos com desenho semelhante ao
de Colombina, porém sem assinatura, (encontrados em
acervos documentais como da Biblioteca Nacional, do
Ministério das Relações Exteriores e do Arquivo
Histórico Ultramarino) são considerados cópias
posteriores ou de autoria atribuída ao próprio
cartógrafo italiano.
Assim quer nos parecer que o relatório de
1755, elaborado por Ângelo dos Santos Cardoso,
sugere a necessidade de um reexame das interpretações
produzidas. O documento traz novas possibilidades,
pontua novas descobertas e indica novos
esclarecimentos. O primeiro questionamento que deve
ser feito é: Onde estaria o primeiro esboço cartográfico
da capitania de Goiás? E o mapa que Ângelo Cardoso
enviou a Alexandre Gusmão?
É possível que o mapa seja o que consta do
acervo da mapoteca do Ministério das Relações
Exteriores, cujo fac-símile foi publicado por Isa
Adonias em 1960, na coletânea cartográfica intitulada
“Mapas e Planos manuscritos relativos ao Brasil
Colonial (1500 – 1822)” organizada nos volumes I
Texto e II Mapas (Quadro 1, Documento1). Na obra,
Adonias atribui a autoria do Mapa da capitania de
Goiás e regiões circunvizinhas mostrando as
comunicações entre as bacias do Prata e do Amazonas
(Fig. 2), a Francisco Tosi Colombina. Na análise da
autora, o mapa é considerado uma variante do mapa
original, elaborado por Colombina, portanto uma cópia
onde, conforme observa, faltam “as duas legendas do
original, a primeira contendo uma nota dirigida pelo
autor a D. Marcos de Noronha, e a segunda, uma
explicação dos caminhos” (Adonias,1960).
Quando comparamos os dois mapas, destacase
na figura 1 o colorido aquarelado, as informações
em texto nas legendas e a aparência de um trabalho
melhor acabado. Já a figura 2 parece um esboço, um
rascunho, um estudo prévio. Porém em ambos constam
os limites da capitania, os arraiais auríferos, o sistema
hidrográfico, a ausência dos morros e os caminhos,
quase tudo idêntico. As exceções estão no fato de na
Fig. 2 os limites com o da capitania do Mato Grosso
foram traçados pelo rio das Mortes seguindo a proposta
do Conde dos Arcos, e a letra não é a de Colombina
como bem observou Isa Adonias.
Conforme Alencastre (1979), D. Marcos de
Noronha sempre defendeu os limites com o Mato
Grosso “pelo rio das Mortes, confluente do Araguaia,
por uma linha de suas cabeceiras até o rio Taquari, por
ele abaixo até a barra do Cuxim, e por este acima até
Camapuan até as cabeceiras do rio Pardo” (Fig. 3), o
que expôs em carta ao rei D. João V, em 12 de janeiro
de 1750 (AHU_ACL_CU_008, Cx. 6, D. 429).
A diferença entre os dois mapas não está
restrita aos dois pontos, mas a alguns outros detalhes:
a) a grafia do termo sertão, com “S” no mapa de
Colombina e com “C” no outro mapa de Cardoso; b)
diferentes representações das cabeceiras do rio
Maranhão e um pouco mais abaixo a presença do
topônimo Sobradinho no mapa de Cardoso e a ausência
no mapa assinado por Tosi Colombina (Fig. 4).

Fig. 1: Mapa de Tosi Colombina (1751) Fig. 2: Mapa organizado por Ângelo Cardoso (1750)

Fig. 3: Os limites ocidentais da capitania de Goiás pelo rio das Mortes. O mapa de Ângelo dos Santos Cardoso segue a
preferência do governador D. Marcos de Noronha.

Fig. 4: Extratos dos mapas de Tosi Colombina e Ângelo dos Santos Cardoso, no quadrado vermelho as diferentes
representações das cabeceiras do rio Maranhão. A seta vermelha aponta as discrepâncias em relação ao topônimo
Sobradinho.
Com tais discrepâncias, tudo indica, os mapas
não teriam a mesma autoria. Sendo assim, a
historiografia tem, ao longo dos anos,
equivocadamente considerando o mapa de Cardoso
como sendo o primeiro mapa de Colombina. Adonias
apresenta um segundo mapa da capitania de Goiás,
Mapa que mostra a capitania de Goiás e a região ao
sul até o rio da Prata (idem), mais completo, com
melhor acabamento e legendas com mais informações,
atribuído a Tosi Colombina, com a data provável de
1756, mas com características semelhantes ao do mapa
que acreditamos ser de Ângelo Cardoso (Quadro 1,
Documento 3). A grafia é muito parecida, a palavra
sertão está grafada com a letra “C”, consta o
Sobradinho e as semelhanças no desenho das
cabeceiras do rio Maranhão. Além do detalhe em que
os limites da capitania estão conforme as
determinações do Conde dos Arcos, como uma cópia
do mapa de 1750.
Em 12 de setembro de 1753, o Conde dos
Arcos encaminhou ao secretário de estado da Marinha
e Ultramar, Diogo de Mendonça Corte Real, um ofício
relatório da capitania de Goiás, prestando informações
sobre os arraiais, os caminhos e distâncias entre as
minas, os postos fiscais e a arrecadação dos tributos. O
documento está relacionado no acervo do AHU com o
número 603. Juntamente ao ofício seguiram dois
mapas, sem assinatura, que desmembrados do
documento 603, estão catalogados na cartografia de
Goiás como: AHU_GO_D. 866 e D. 867 (Fig. 5).
Fig. 5: Mapas da capitania de Goiás, com a zona de mineração e de gado, registros e caminhos. Cartografia do AHU anexa ao Doc. 603.
Pelas características das atribuições de
secretário de governo, é de se considerar que o
documento 603 tenha sido redigido por Ângelo
Cardoso e assinado pelo Conde dos Arcos. Reforça a
suspeita a grafia e o estilo da redação, semelhante ao
do documento que Cardoso enviou ao Marquês de
Pombal. Nos mapas (Quadro 1, Documentos 7 e 8)
encontram-se as mesmas características dos anteriores,
os limites, o Sobradinho, as cabeceiras do rio
Maranhão, a grafia de sertão (cabe a observação que
em um dos mapas, sertão está grafado Certam). São
mapas coloridos, com belas rosas dos ventos cada qual
com suas cores e desenhos, legendas com textos
semelhantes que referenciam as ilustrações dos arraiais,
registros e caminhos, em pontos vermelhos o caminho
de Vila Boa ao Mato Grosso, e as zonas de criação de
gado sinalizadas. A quantidade de detalhes e
semelhanças acaba por atribuir a Ângelo dos Santos
Cardoso a autoria do ofício e dos mapas que o
acompanha.
Assim, quer nos parecer que Ângelo dos
Santos Cardoso, português, secretário do governo de D.
Marcos de Noronha no período 1749-1755, em suas
atribuições, cumprindo o propósito de descrever a
capitania de Goiás, assessorando o governador e Coroa,
organizou aquele que pode ser o primeiro mapa da
capitania de Goiás (Quadro 1, Documento 1) e três
outros complementares (Quadro 1, Documentos 3, 7 e
8). Seu trabalho (relatórios e mapas) contribuiu para o
conhecimento sobre o processo de ocupação na
colônia, e serviu de base documental ao governo de
Portugal nas disputas diplomáticas pelo território.
Levantamento realizado acerca da produção
cartográfica da capitania de Goiás, no século XVIII,
resultou em dez mapas relevantes, que foram
sistematizados, em ordem cronológica, no Quadro
“Documentos cartográficos da capitania de Goiás, do
século XVIII”, permitindo uma análise comparativa
entre eles (Quadro 1). Os documentos cartográficos 1,
2, 3, 7 e 8 foram detalhados anteriormente. Quanto aos
demais, permitem ao leitor observar algumas
peculiaridades.
O Mappa dos Sertões, que se comprehendem
de Mar a Mar entre as Capitanias de S. Paulo,
Goyazes, Cuyabá, Mato-grosso, e Pará (Quadro 1,
Documento 4), catalogado pela Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro, não traz a identificação de seu autor,
nem a data precisa, apenas a indicação do século: [17--
]. Quando comparado com o mapa de Tosi Colombina,
de 1751 (Quadro 1, Documento 2), a apresentação
gráfica surpreende pela similaridade: o colorido
aquarelado, a letra, as bordas desenhadas, o aspecto de
um mapa bem acabado. A diferença mais visível se dá
pelo carimbo no canto inferior esquerdo, onde no
exemplar disponibilizado digitalmente pela Biblioteca
Nacional consta o nome do mapa e no documento de
Colombina consta texto do autor com instruções para
leitura do mapa, descrição de itinerários e relação de
localidades encontradas. Entretanto, leitura mais
acurada permite perceber que existem diferenças
realmente significativas: a grafia da palavra sertão foi
assinalada em um documento com a letra “C”, e no
outro com a letra “S”; o desenho das cabeceiras do rio
Maranhão é diferente; e, ainda, apenas no Mappa dos
Sertões (Quadro 1, Documento 4) consta o nome
Sobradinho, entre os paralelos 16 e 17.
O Mappa da Capitania de S. Paulo e seu
sertão, em que se vem os descobertos, que lhe forão
tomados para Minas Geraes, como também o Caminho
de Goyazes, com todos os seus pouzos, e passagens,
deleniado por Francisco Tosi Colombina. Primeira
Parte (Quadro 1, Documento 5), catalogado pela
Biblioteca Nacional, na Coleção Morgado de Mateus,
de autoria de Tosi Colombina, não traz a indicação
precisa de sua data, apenas a do século: [17--]. O
documento mostra a primeira parte da Estrada das
Minas dos Goyazes, que se inicia na Vila de Santos, no
paralelo 24 e, neste mapa, segue até o paralelo 17.
Abrange a região desde a serra do mar até o rio do
Peixe destacando a cidade de São Paulo, vilas,
fortalezas, arraiais, rios e trilhas.
O Mappa da Capitania de Goyazes, e de todo
o sertão por onde passa o Rio Maranhão, ou Tucantins
[segunda parte] (Quadro 1, Documento 5), catalogado
pela Biblioteca Nacional, na Coleção Morgado de
Mateus, não traz a identificação de seu autor, nem de
sua data, apenas a indicação do séc. [17--]. No entanto,
uma análise do documento permite a sugestão de que o
autor seja Tosi Colombina. Encaixa-se perfeitamente
no documento anterior, que traz em sua legenda a
expressão 'primeira parte' e tem autoria assinalada
(Quadro 1, Documento 5), dando continuidade ao
“Caminho de Goyazes”, a partir do paralelo 17 até o
paralelo 11. A representação gráfica é exatamente a
mesma, permitindo aferir que os dois mapas (Quadro 1,
Documentos 5 e 6) sejam obra do mesmo autor.
A Carta de toda a porção d'América
Meridional, que pareceo necessaria a manifestar a
viagem de 569 legoas commuas, que da escala e
cidade do Rio de Janeiro executou por terra, em 17 do
mes de Mayo de 1772, para Villa Bella da Santissima
Trindade, o Governador e Capitão General do Estado
do Mato Grosso e Cuiabá, Luis d'Albuquerque de
Mello Pereira e Caceres do Concelho de Sua
Magestade Fidelissima que Deos o guarde (Quadro 1,
Documento 9), catalogada por Isa Adonias (1960),
mostra parte das capitanias do Rio de Janeiro, São
Paulo, Minas Gerais, Bahia, “Guaiás” e Mato Grosso,
com os respectivos limites. É muito detalhada quanto à
representação dos rios e seus afluentes, serras, alguns
caminhos, cidades, vilas e arraiais.
O documento
descreve o caminho seguido por Luis d`Albuquerque,
do Rio de Janeiro até Vila Bela da Santíssima
Trindade, ao ir tomar posse do governo da capitania do
Mato Grosso. No canto inferior esquerdo da Carta
estão relacionados os nomes dos lugares que serviram
de pouso durante a viagem, o número de léguas
percorridas entre cada um e o número de dias gastos na
dita viagem. Dentro do retângulo marcado por Isa
Adonias, referente à região que hoje corresponde ao
Distrito Federal, foi assinalada a Contagem de São
João. No mesmo local onde os primeiros mapas
(Quadro 1, Documentos 1, 3, 4, 7 e 8) registraram o
nome Sobradinho, nesta Carta está assinalado o “S.
Bartholomeo”.
A Carta ou Plano Geographico da Captª. de
Goyaz huma das do centro da America Meridional, do
Reino de Portugal que mandou construir o Illmº e
Excllmº Snr. José de Almda de Vasconcellos de Sovral
e Carvalho Gov.or e Cap. Gen. da dita Capit.ª do Dia
26 de Julho de 1777 até Maio de 78, que a entregou
(Quadro 1, Documento 10), de autoria de Thomas de
Souza Villa Real, Sargento Mor do Regimento de
Cavalaria, também conhecida por “Mapa dos
Julgados”, registrou a Capitania de Goiás no auge de
sua expansão no século XVIII e tinha a preocupação de
delimitar o âmbito dos Julgados goianos. Reproduziu
as fronteiras da Capitania de Goiás, dividiu a Capitania
em 13 Julgados, representou o relevo e a rede
hidrográfica da região e assinalou a capital, os arraiais
com freguesia, os arraiais sem freguesia, as aldeias e as
estradas que cruzavam a região. O documento,
catalogado por Isa Adonias (1960), foi finalizado em
1778, ano em que José de Almeida de Vasconcelos de
Soveral e Carvalho deixou o governo da Capitania de
Goiás. O Governador Soveral e Carvalho deixou
registrado em diário o roteiro de suas jornadas, tanto
sua primeira, em 1772, quando saiu do porto da cidade
do Rio de Janeiro até Villa Boa, em companhia do
Governador do Mato Grosso Luis d’Albuquerque Melo
Pereira e Cáceres; quanto a segunda marcha de
inspeção e providências, em 1773, quando percorreu
em operações de reconhecimento a capitania de Goiás.
Nessas viagens se fez acompanhar pelo ajudante-deordem
Thomas de Souza Villa Real, escriba e
geógrafo, que assinalou o itinerário percorrido durante
as expedições.
Veja quadro 1 - Documentos cartográficos da capitania de Goiás do século XVIII
Como visto, a prática da decalcagem e da
reprodução de partes de documentos cartográficos
manteve-se ativa, ainda, durante o século XVIII,
chegando, de certo modo, aos dias de hoje. Sendo
própria do campo, acaba por dificultar a compreensão
do corpus cartográfico histórico disponível, e confunde
os melhores estudiosos. Neste sentido, é fundamental a
análise detalhada, pormenorizada e comparativa do
material disponível. É o que foi realizado em relação à
documentação cartográfica da capitania de Goiás, no
século XVIII.
Reforçando as palavras de Ângelo Cardoso
(AHU_D. 740), percebe-se sutis diferenças de graus
nos arraiais, o que pode-se notar tomando por exemplo
a capital Vila Boa e compararmos com os mapas de
Tosi Colombina.
Tudo indica que, Paulo Bertran (2002)
concluiu acertadamente que Ângelo dos Santos
Cardoso “foi o primeiro cartógrafo do Brasil Central, o
qual forneceu seu mapa pioneiro ao italiano Tosi
Colombina, e para este ficou toda fama depois”.
Portanto através do exercício da pesquisa, descobrindo
e revisitando documentos, cumpri-se aqui o objetivo de
contribuir para os estudos da cartografia histórica.
RESUMO
Aquele que é considerado como o primeiro mapa da capitania de Goiás foi desenhado em meados do século
XVIII e sua autoria foi atribuída ao cartógrafo italiano Francisco Tosi Colombina. E assim, este foi consagrado pela
historiografia. Para o governo português, o mapa atendeu as necessidades de se conhecer a ocupação territorial de
Goiás, fator fundamental nas negociações com a Espanha para a delimitação do Tratado de Madri. A pesquisa em
documentos manuscritos da Capitania de Goiás, encontrados no Arquivo Histórico Ultramarino, revelou relatórios
escritos por um funcionário do governo que contesta a autoria do mapa a Colombina, informando como o cartógrafo
italiano fez o documento e apontando discrepâncias cartográficas. A análise dos mapas de Goiás, assinados e atribuídos
a Columbina, confrontados com os documentos do acervo Ultramarino, levou a constatação da importante necessidade
de evidenciar novos personagens e ao mesmo tempo reavaliar a participação de personagens históricos como Tosi
Colombina. Este artigo contribui também para a catalogação da cartografia de Goiás em acervos como o da Biblioteca
Nacional e do Arquivo Histórico Ultramarino, ampliando as informações documentais e favorecendo instituições e
pesquisadores.
Palavras chaves: Tosi Colombina, Goiás, Planalto Central, Cartografia.
ABSTRACT
One who is regarded as the first map of the captaincy of Goiás was designed in the mid eighteenth century and
its authorship was attributed to the Italian cartographer Francisco Tosi Colombina. And so this was enshrined in the
historiography. For the Portuguese government, attended the map needs to know the land occupation of Goiás, a
fundamental factor in the negotiations with Spain for the delimitation of the Treaty of Madrid. The research in
handwritten documents from the Province of Goiás, found in the Overseas Historical Archive, revealed reports written
by a government official who denies the authorship of the map Colombina, telling how the Italian cartographer made
the document and pointing cartographic discrepancies. The analysis of maps of Goiás, signed and assigned to
Colombine, confronted with the documents in the collection overseas, led to confirmation of the need to highlight
important new characters and at the same time reassess the participation of historical personages as Tosi Colombina.
This article also contributes to the cataloging of cartographic collections in Goiás and the National Library and the
Overseas Historical Archive, expanding documentary information and encouraging institutions and researchers.
Keywords: Tosi Colombina, Goiás, Central Plateau, Cartography.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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relativos ao Brasil colonial: 1500 – 1822. Rio de
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Goiás. Goiânia, Governo de Goiás, 392 páginas.
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU. Projeto
Resgate. AHU_ACL_CU_008, Cx. 12, D. 740.
______. AHU_ACL_CU_008, Cx. 8, D. 554.
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______. AHU_CARTm_008, D. 0866 / D. 0867.
Barbo, L. C. e A. R. Schlee, 2009. A cartografia
histórica e os caminhos de ocupação do atual Distrito
Federal, In Anais do III Simpósio Luso-Brasileiro de
Cartografia Histórica. Ouro Preto – MG, 17 páginas.
Bertran, P., 2000. História da terra e do homem no
Planalto Central: eco-história do Distrito Federal, do
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TRANSCRIÇÃO PALEOGRÁFICA
Transcrição do documento AHU_ACL_CU_008, Cx.
12, D. 740, feita por Wilson Vieira Júnior e Deusdedith
Alves Rocha Junior em janeiro de 2010. Normas
orientadoras: César Nardelli Cambraia, Heitor Megale
et. al., 2005, Normas para Transcrição de Documentos
Manuscritos para a História do Português do Brasil, In
Megale, H. e S. A. Toledo Neto, (orgs.), Por Minha
Letra e Sinal: documentos do ouro do século XVII. São
Paulo, Ateliê Editorial, pp. 145-148.
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*Este artigo, de autoria de Wilson Carlos Jardim Vieira Júnior (wilsonvieirajr@gmail.com), Andrey Rosenthal Schlee (andreyrosenthal@gmail.com) e Lenora de Castro Barbo (lenorabarbo@gmail.com), da Universidade de Brasília, foi apresentado na seção temática “Cartografia Histórica e História da Cartografia” do 24º Congresso Brasileiro de Cartografia, realizado de 16 a 20 de maio de 2010, na cidade de Aracaju, Sergipe, Brasil.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Outubro/2010
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