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Livro

Minhas Aventuras na Chapada dos Veadeiros
de Domingos Soares de Farias
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Paulo José*
Você perguntava:
-Tudo bem, seu Domingos?
Ele respondia primeiro com a mão, no gesto de mais ou menos, depois com palavras:
-Tô vivo. Nem em cima nem embaixo, no meio.
Era deste prisma, o do equilíbrio, que Domingos Soares de Farias enxergava a vida – manancial inesgotável para muitas e muitas histórias, sua especialidade. “Minha energia é muito boa”, dizia. Guardião da memória e contador de causos e verdades, era também horticultor, garimpeiro de cristal de rocha, carreador de carro de boi, amansador de cavalo brabo – ou, como contava, “tudo de doido eu já fiz”. Sabia orações que acendiam lenha molhada em dia chuvoso, desmanchava mentiras, falava com passarinhos e previa o tempo.
Este mestre da cultura popular brasileira morreu no início deste outubro de 2009, aos 84 anos, na Vila de São Jorge, município de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, e deixa mais que saudades e histórias, mas uma filosofia de vida que pede alegria, honestidade e serenidade. “Eu criei a minha natureza para mim viver na paz”.
Sempre contou histórias, mas tornou-se o contador oficial a partir do final de década de 1980, quando, depois de um longo período de isolamento por causa do fim da exploração do cristal, São Jorge começou a receber os primeiros turistas. Esses visitantes curiosos pelo passado e as opções do lugar foram abastecidos por seu Domingos. Para isso, o lugar preferido era a varanda do armazém de Claro Machado, na mesma rua em que morava. Com sotaque goiano-mineiro, contava verdades, brincadeiras e mentiras, recomendando sempre que não se devia misturá-las para que uma não tomasse gosto da outra.
Em julho deste ano, lançou o livro Minhas Aventuras na Chapada dos Veadeiros, editado pelo Centro de Memória José Raimundo de Oliveira (Cememo-Zé), no qual reúne 60 pequenas histórias. A obra é baseada em quatro fitas cassetes, nas quais ele mesmo gravou suas narrativas e de uma entrevista também gravada. Ali estão acontecimentos, absurdos, escândalos, o fim dos tempos, o Cerrado, onças e mulheres. “Vai na minha casa que tem a parede cheia de foto tirado junto com muié. Eu sou do tipo de brincar com a classe das muié”, dizia.
O segredo? Ser “macho e amaciado”. Rei da proeza e da autoestima, apresentava outra virtude: a valentia. “O povo me pergunta se eu já vi onça. Onça?! Eu já bati foi nela, uai! Rá, rá, rá, rá”.
Numa época de calorão danado, morou sete dias debaixo d’água e só saiu porque começou a aparecer escamas no corpo todo. “Já tava perto de virar peixe”. Teve, por longos períodos, uma rixa com o conhaque Leão do Norte, do qual sempre levava surras mas nunca abandonava.
Sempre de chapéu, jaqueta, óculos escuros e relógio, andava com um guarda-chuva, na época das águas, e uma bolsa, na qual levava lanterna, remédios, duas fitas (uma com cantos de passarinho e outra com ambiente de brejo, sapos e rãs), uma paçoquinha, “vergonha e moral” e uma carteira.
Dentro da carteira, documentos pessoais (“Eu sou bem documentado, graças a Deus. Documento que homem precisa eu tenho”) e dinheiro (“Ah, menino, eu tenho crédito”). E avisava: “não carrego fuxico”.
Essa personagem ímpar nasceu a 19 de julho de 1925, em Paracatu, Minas Gerais. Chegou à Chapada dos Veadeiros aos 17 anos e, três meses depois, “eu tava era montado num monte de cristal”. Ficou rico, comprou revólver, dois cavalos, com arreio e pelego, e voltou para Minas. Lá adquiriu novilhas, quase casou na marra (“êba – era bravo, né? – não caso, não!”), vendeu tudo e foi para Cristalina, em Goiás, onde torrou a fortuna. Depois, voltou para os Veadeiros outras duas vezes. Na última, em 1951, para ficar de vez. Casou e teve nove filhos, um deles o artista plástico Moacir Soares.
Sertanejo legítimo, há alguns anos, quando o entrevistei para uma dissertação, tive de mudar o foco porque me apresentou outra dimensão. Esperava um garimpeiro, mas conversei com um alquimista prático e um horticultor sofisticado, que dominava as existências fossem elas mineral, vegetal ou animal.
Ele vai revelar que o seu relacionamento com as coisas da terra começa na infância, com horta e roça, depois com o pai, Vicente Martins, que via enterros de ouro, exatamente como no folclore do Ciclo do Ouro: “aparecia porca com pintinhos e galinha com leitão, rá, rá, rá... o que era dum era do outro. Pra mostrar onde o ouro tava enterrado”. O pai conseguia tirar porque “era preparado, tinha as orações”.
Um dia, seu Domingos vai experimentar essa realidade. A esposa Maria sonha com um enterro de ouro e lá vai ele atrás, obedecendo as descrições dela: “era um pau assim, lavrado assim... quase um metro de fundura, quando eu cheguei embaixo deu numa terra assim como quer um carvão preto, um moi de café, aí passei e dei na bosta de cavalo como que tava naquela hora. Era o ouro! Virou bosta de cavalo, rê, rê, rê. Virou na hora. Isso é terrível. O ouro encanta! O ouro encanta, vira mosca, vira bicho, vira qualquer coisa aí”.
Em sua horta, nessa época, havia 27 espécies plantadas e só um pé de cada, mas com múltiplas funções, que podiam ser alimento, remédio ou erbário mágico. Entre elas milho, batata, banana, mandioca, cará-do-ar, taioba, capim santo e dois tipos de pimenta. Um deles, a malagueta, estava plantada bem à entrada da casa porque também servia contra olho ruim e inveja. E, quando fosse comida, quanto mais inveja tivesse captado mais ardida seria.
Tanta diversidade fez de Domingos um exemplo do que o antropólogo Edward Sapir chama de adepto da “autoconstrução cultural”, pois a sabedoria pode vir da necessidade, derivar da experiência, mas também pode ser buscada. Sua última participação oficial neste mundo será no final do ano, quando concorre ao Prêmio Culturas Populares 2009, do Ministério da Cultura, na categoria Mestres.
Mas, agora, que a comunidade da Vila de São Jorge está triste com sua partida, também pode ter a certeza de que ele está em um bom lugar, pois tinha reconhecida intimidade com os céus. Em seu livro, ele testemunha: “Eu sou de Deus, ando com Deus, Jesus anda comigo, filho dele, então...”
*Paulo José é jornalista
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Dezembro/2009 Fotografias: Paulo J.S.
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