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Paulo José
Exuberância de
flora, fauna e flores, paisagens deslumbrantes,
morros e campos, diversidade de cenários, lindas
cachoeiras, incontáveis rios e águas, um céu
espetacular e cristais por toda terra. Essa soma
mais alguma coisa intangível, mas “sentível”, a
que as pessoas chamam de energia,
constituem o encanto básico da Chapada dos
Veadeiros, em Goiás.
E, ao contrário do
misticismo e da ufologia, o bom é que, neste
caso, não é preciso acreditar em nada
sobrenatural ou fantástico, basta ver com os
próprios olhos e sentir com todos os sentidos. O
“poder terreno” manifesta e não há como escapar.
É o planeta que chama.
Nesta viagem,
diferentes percepções. O morador-nativo vê a
natureza, com o perdão da redundância, como
“natural”, porque ela sempre esteve aqui, esta é
a paisagem permanente, é linda, mas o deslumbre
não existe. O visitante vê a natureza como
“sobrenatural”, algo glamourizado, cada vez mais
raro e para ser devotado como um
deus.
Sua intensidade é tão contrastante
com as médias e grandes cidades, que a primeira
reação de quem chega é de impacto e choque, e o
local inevitavelmente vai apresentar-se como um
paraíso. Se há estresse, ele evapora. Nesse
sentido, a maior virtude da região é mostrar às
pessoas o quanto tudo pode ser diferente e,
sobretudo, melhor.
E ainda é possível
escolher o tipo de turismo: ecológico, rural, de
aventura, místico, ufológico, religioso, de
moradia. Ops! De moradia? De moradia, porque não
poucos visitantes tornam-se moradores. É como
uma paixão, começa com um flerte e vai indo. Por
exemplo: o Lutero e a Graça, de Brasília,
construíram uma pousada;
a Ivene, de Goiânia, abriu uma pizzaria
e assim segue. Entre os novos moradores e os
nativos, de um lado, e os turistas, de outro, há
aqueles que têm casas de veraneio e estão sempre
aqui, “ajudando a cuidar do lugar”.
A dois passos ou no
paraíso? “O que faz da Chapada dos
Veadeiros algo tão especial? O contato com a
natureza é extremamente intenso, a sensação de
liberdade que o local transmite”, pergunta e
responde o site de turismo Transchapada,
em uma espécie de auto-reflexão.
O que
mais se diz, faz ou se vê aqui? Confira o que
anunciam diversas fontes: caprichos da natureza
(revista Bonde); dádivas da natureza"
(Ecofotos); contato com a natureza, a
biodiversidade, um silêncio mágico
(Chapada.com); sintonia com a natureza (Casa das
Flores); uma natureza exuberante e intrigante
(Verde Trigos); natureza agreste, aura mística,
santuário ecológico e belezas naturais (Pousada
Jardim do Éden); todas as facetas da natureza
intactas e com a força das águas (Férias
Brasil). Como se percebe, falar daqui é ser
redundante.
Para Márcio José Pereira, de
Goiânia, fã de carteirinha, a Chapada vai além
do lindo cerrado de altitude e dos “passeios
interessantíssimos”. “Tem a galera, a pinga
com arnica do Seu Claro, o crepe da
madrugada, o Bar do Bodinho...”. A lista não
acaba.
O interessante é que as opiniões e
imagens da região são tão positivas e
construtivas que se alguém falar mal de algo vai
se passar por ranzinza e insensível, quando não
ficar com descrédito. É aqui o
paraíso?
Parece que sim. A Chapada dos
Veadeiros é natureza e sua história é a história
da Terra. Aqui tudo começou. Foram nestas
paragens altas do planalto goiano que os
primeiros raios de sol iluminaram um dos
primeiros pedaços de terra emersos do planeta.
Sobre ela, depois de milhões de anos, apareceram
Cerrados em plenitude. E aí, dizem por aqui, o
mundo ficou completo.
A sociedade
nacional só chega durante o Ciclo do Ouro, por
volta de 1740, com a fundação da cidade de
Cavalcante, mas já quatro décadas depois -
informa o historiador Paulo Bertran -, o senhor
Joaquim Pereira Lemos reivindica uma sesmaria de
“meia légua de terra em quadra em o
ribeirão chamado Paraíso, tudo
na Chapada dos Veadeiros”. Ou seja, desde antes
essa época, tudo estava batizado e a imagem já
vinculava-se ao Éden.
Em 1935, quando a
região era conhecida somente por suas minas de
cristal de rocha e a preservação da natureza era
idéia e prática inexistentes, Matma Nago, em seu
livro O Tocantins, escreve: “Sabes,
leitor amigo, onde fica a Chapada dos Veadeiros?
(...) São as paragens mais inebriantes do
Brasil. Em verdade, se ela não foi o local em
que estava situado o Paraíso Terrestre em que
Adão pecou, é, por certo, um pedacinho do céu
que os Criadores das Cousas cortaram de seu
imenso palácio e pregaram em pleno coração de
nossa pátria”.
No livro Berço das
Águas do Novo Milênio, do ano 2000, o seu
autor, Miguel von Behr, faz uma verdadeira
devoção à Chapada dos Veadeiros e pede que,
aquilo que considera os seus elementos (água,
flor e paisagem), sejam “entendidos como
fornecedores de fontes de riqueza para o homem”.
Segundo ele, “o que mais atrai são as belezas
cênicas, com suas variadíssimas cachoeiras,
cascatas, riachos, corredeiras, exuberantes
montanhas, veredas, majestosos campos de flores,
paredões, escarpas, canyons...”. E define:
“paisagem é o estado da alma”.
Já o guia
Amaury de Azevedo, de Alto Paraíso, escreve em
poema:
“...A Chapada está em
mim. Nela incorporei-me Em simbiose tão
profunda...”
E o músico Paquito
canta:
“Eu moro no paraíso Chapada
dos Veadeiros Eu vivo no coração Do
cerrado brasileiro Um banho de cachu Um
love com você Que venha o fim do mundo Eu
não quero nem saber”
E assim, de
apologia em apologia, a Chapada enche o papo.
Exportação de
couro Ainda que esse encanto pela
região venha há séculos, o respeito à natureza é
recente. Sem considerar a agricultura de
subsistência, as primeiras atividades econômicas
da região, nos séculos 18 e 19, sempre
devastadoras, foram a exploração de ouro e a
exportação de couros, principalmente de veados,
daí o nome veadeiro, que
significa tanto o caçador de veado e o cachorro
usado na caça quanto os locais onde esses
animais costumam beber água. Por ironia do
destino, foi uma atividade altamente predatória
que batizou o que é hoje um dos lugares mais
preservados do Cerrado brasileiro, mas sempre
coexistindo com a noção de
paraíso.
Depois, vieram a criação de
gado, cavalo e muar e o cultivo de trigo, este
durando até o início do século 20. Em 1912,
começaram as explorações de cristal de rocha,
que se estenderam até meados dos anos 1980,
quando o Parque Nacional da Chapada dos
Veadeiros (PNCV) foi fechado com cercas de arame
e o turismo ecológico e místico iniciam,
lentamente, suas atividades, somando
remanescentes de comunidades alternativas e
aventureiros.
Apesar de ter sido criado
em 1961, com 600 mil hectares, foi somente por
volta de 1990, e já reduzido a 60 mil hectares,
que o PNCV vai assumir sua condição de natureza
a ser preservada. Simultaneamente, já acontecia
um movimento conservacionista feito por grupos,
entidades e associações civis, instituindo
hotéis-fazendas, santuários informais e reservas
particulares de patrimônio natural.
A
consciência ambiental e a vida alternativa que
vinham crescendo desde as revoluções urbanas das
últimas décadas - reforçadas pelos ventos do
encontro ECO-92, no Rio de Janeiro - vão ser
fundamentais na consolidação desse sistema de
proteção à natureza dos Veadeiros - que, hoje,
começa a sofrer uma nova ameaça: os plantadores
de soja, conhecidos como “fazedores de
deserto”.
Novos
olhares De outro lado, ao contrário
do que se pensa, o ecoturismo não é uma
atividade isenta, pura e não-poluidora. A
abertura de trilhas, a construção de hotéis e
pousadas, o lixo gerado e o esgoto não deixam de
interferir no ambiente verde, mesmo que com
menos impacto que outros ramos da economia. A
natureza também é explorada, mas de forma
diferente. Ainda assim, parece ser este o melhor
caminho para o chamado desenvolvimento
sustentável.
Nesta troca entre o paraíso
e as cidades, além do impacto cultural, da
interferência em costumes e comportamentos
locais - uns positivos, outros negativos -, os
turistas e os novos moradores também
contribuíram para melhorar o perfil daqui. De
certa forma, foram eles que ensinaram ao nativo
a não só explorar, mas valorizar os Cerrados, a
olhar diferente, a preservar e a “sentir a
energia que rola aqui”.
Nos primeiros
tempos do turismo, alguns nativos se enchiam de
admiração e espanto ao saberem que as pessoas
vinham de longe e, depois, caminhavam
quilômetros e quilômetros sob sol ou chuva, em
trilhas íngremes, só para tomar banho
de cachoeira. No povoado de São Jorge,
particularmente, os recém-chegados, com
exemplos, incentivaram os moradores a fazer
jardins, plantar árvores e arborizar o povoado.
E o cenário urbano mudou por completo. A noção,
até o início da década de 1990, era de que,
estando bem no “meio” da natureza, já tinha mato
demais, então árvore na rua pra quê?
Na
mesma frente, o céu ganhou um novo olhar. Ora,
pois, direis ouvir estrelas? Aqui você vai ouvir
e entendê-las. Exultar o pôr-do-sol
e o nascer da lua cheia. Isso é possível,
mas é não é praticado nem percebido nas grandes
cidades. Nos Veadeiros, há tempo e lugar para
apreciá-los e até promover rituais de
consagração, banhar-se em energia ou fazer
mentalizações.
Como o chopinho pós
expediente ou a academia de ginástica no mundo
urbano, os astros-reis da Terra são, na Chapada,
um álibi para o relaxamento de fim de tarde.
Para o morador e o trabalhador, o calendário e
as horas são gregorianos, mas, para o visitante,
o tempo aqui é outro - não o do relógio e das
datas, mas dividido somente em dia e noite. Ou
está claro ou está escuro e é isso que determina
o que se vai fazer.
Cachoeiras, campos
floridos, lindas paisagens, céus literalmente
divinos. Este é o místico acessível, a magia que
independe de crença, a energia que dispensa
tomada, um sentimento que pode ser resumido ao
bem-estar. Quem não quer estar bem? Então,
esteja na Chapada.
Fotos: Paulo J.S.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Dezembro/2007
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