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Cenário e personagem Ao lado, o homem do couro e a arquitetura colonial nativitana. Foto de Jorge Campana
A voz do passado Casas do centro histórico. Expressão vernacular. Fotos de Raquel Nery
Lenda? No fim do arco-íris tem um pote de ouro!? Panorâmica da Serra de Natividade, símbolo do Ciclo da Mineração. Foto de Jorge Campana
Ao lado, localização da cidade em relação à serra
Tradição Mestre ourives Val e seu aprendiz: formando uma nova geração. Foto de Raquel Nery
Cultura popular Ao lado, filigranas locais e jóias em forma de Pomba do Divino. Fotos de Wagner Araújo, Acervo Monumenta. Abaixo, a menina Olívia com seu brinquinho de filigrana. Foto de Raquel Nery
Saberes e sabores Biscoitos amor-perfeito. Ofício que persiste. Foto de Emerson Silva
Natureza e civilização Casario do centro da cidade e a Serra de Natividade ao fundo. Foto de Raquel Nery
Iconografia Ao lado, o arraial de Natividade, em 1828. Desenho de William Burchell, viajante inglês
Localização de Natividade no Brasil e no Tocantins
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Uma análise dos 20 anos de tombamento
da histórica cidade do Tocantins

Raquel da Costa Nery
Em outubro de 2007 completou vinte anos que Natividade foi tombada pelo Iphan.
A pequena cidade do século XVIII, de difícil acesso no sudeste do Estado do Tocantins, preserva quase íntegra, uma arquitetura colonial singela, que se destaca pelo seu apelo vernacular - são aproximadamente 260 imóveis tombados no perímetro de preservação do centro histórico.

A energia elétrica chegou somente há duas décadas e, desde então, o processo de expansão urbana - nas direções dos eixos norte, sul e oeste - poupou o traçado original de ruas e becos do núcleo histórico.
O processo de tombamento de Natividade na década de 1980 prometia ser um modelo de como a preservação de interesse arquitetônico e histórico poderia estar integrada à preservação da paisagem natural, ao indicar a proteção do elemento geográfico da Serra de Natividade por seu evidente vínculo com a origem da cidade (1).
A Serra foi o principal fator econômico para a população da cidade no século XVIII, por meio da atividade mineradora. Lá se encontram os vestígios das primeiras atividades de extração de ouro relacionadas à origem do núcleo urbano, como ruínas de diques, canais e abrigos residenciais. Por conseguinte, a proposta original de tombamento incluía a vertente oeste da Serra, distante 1 km do núcleo urbano, à área de preservação e interesse histórico.
Hoje, vinte anos depois do reconhecimento de seu interesse arquitetônico, urbanístico e paisagístico, seria apropriado refletirmos sobre como podemos nos re-apropriar e renovar essa paisagem.
A Serra de Natividade
Em primeiro lugar e urgentemente é imprescindível uma revisão crítica do perímetro de tombamento, de modo a incluir e incorporar o lado oeste da Serra de Natividade. Eis o único elemento monumental em oposição à escala singela da cidade.
A anexação da vertente ocidental da Serra ao tombamento acenava como uma revigorante expressão do conceito de patrimônio, que prometia integrar a paisagem construída à paisagem natural. Entretanto por questões que fogem ao âmbito do interesse preservacionista, o lado oeste da Serra foi excluído do perímetro de tombamento de Natividade, o que é sem dúvida, uma perda para a cidade e para a compreensão do processo histórico e de ocupação do interior do Brasil.
Além da importância na composição da paisagem do horizonte da cidade e do já mencionado valor histórico e arquitetônico relacionado às ruínas remanescentes da mineração e à origem do núcleo urbano, a Serra tem um valor agregado como recurso natural: é a principal fonte de água que abastece a cidade. Essas características reunidas são, por si mesmas, mais que suficientes para justificar a obrigação da revisão do perímetro de tombamento.
Patrimônio Imaterial
Entretanto a discussão sobre a re-apropriação da paisagem de Natividade não se esgota na revisão do seu perímetro de tombamento. Mais do que um remanescente obscuro do Ciclo da Mineração, sua paisagem é composta por uma diversidade de referências culturais como celebrações, ofícios, saberes e fazeres bastantes peculiares, alguns muito vivos, enquanto outros, quase perdidos (2).
Entre os saberes e ofícios locais, alguns ainda não desapareceram porque estão animados no saber e no fazer de alguns poucos homens e mulheres nativitanos. Esses conhecimentos são elementos de identidade social e cultural (3), a própria cultura local viva, através de técnicas de produção artesanais.
A tradicional ourivesaria de Natividade vem conquistando o reconhecimento de seu valor como saber e ofício, desde a década de 1990, e atualmente é objeto de estudos para seu registro como patrimônio imaterial. A atividade subsistiu por quase três séculos, provavelmente em função da atividade mineradora nas fazendas ao redor da cidade, que ainda prossegue (4). É um ofício privilegiado sob a perspectiva dos interesses públicos e privados que mobiliza: perto de desaparecer, na década de 1980, a joalheria começou a ser fomentada pelo Minc no final dos anos 1990 e uma nova geração de aprendizes foi e continua sendo treinada no ofício (5).

A técnica característica da ourivesaria em Natividade é a milenar filigrana. De produção semelhante à de Portugal e Espanha, que por sua vez, tem origem árabe, a filigrana local se singulariza ao incorporar símbolos da cultura popular, por meio de peças, como os pingentes da Pomba do Divino e a “Peixa”. Até duas décadas atrás, de acordo com alguns mestres de ofício em atuação, ainda era utilizado uma técnica de fundição arcaica, a partir de moldes de barro e óleo, provavelmete introduzida pelos escravos africanos (6).
Além da ourivesaria, a cidade tem expressões culturais vivas como as celebrações católicas e uma peculiar produção artesanal. No imaginário e no calendário religioso, a Festa do Divino é a mais intensa e importante e movimenta, ano a ano, toda a comunidade em sua expectativa, produção e fruição (7).
Entre os ofícios e a produção artesanal ainda perduram precariamente a técnica da construção com adobe (8), a produção artesanal de bolos e doces típicos da região (9), a produção de licores e cachaças e as técnicas de cestaria e de baús de couro, ameaçadas de desaparecimento.
O ofício da ourivesaria, as celebrações, as técnicas de produção artesanal local - partes incondicionais da história e do viver na cidade - congregados ao conjunto do casario colonial, ruas e becos, e à monumental Serra de Natividade - onipresente como um olho que tudo vê - convertem a cidade em uma autêntica experiência cultural.
Paisagem Cultural
De acordo com essas características reunidas no mesmo espaço, deveríamos considerar correspondente e adequado o bom emprego do conceito de Paisagem Cultural para a cidade.
O conceito de paisagem cultural é apropriadamente aplicado quando há uma condição, local ou regional, em que o conjunto das celebrações, ofícios e saberes se relacionam com a paisagem natural e construída como um sistema, de forma a constituir uma experiência singular.
“Sua característica fundamental é a ocorrência em uma fração territorial, do convívio singular entre a natureza, os espaços construídos e ocupados, os modos de produção e as atividades sociais e culturais.(...) Para que a Paisagem Cultural se configure, esses fatores devem guardar uma relação complementar entre si, capaz de estabelecer uma identidade que não possa ser conferida por qualquer um deles isoladamente.” (10).
O resgate das técnicas de produção artesanal com seu potencial de re-apropriação da identidade social (11), integradas à paisagem preservada e ao calendário das celebrações, possibilitaria redesenhar o austero destino rural de Natividade.
Segundo a recomendação sobre a conservação integrada das áreas de paisagem cultural “é importante que as políticas de paisagem se inspirem nos princípios do desenvolvimento sustentável enquanto meta, com a adoção de medidas apropriadas para compatibilizar a evolução controlada da paisagem e as mudanças sócio-econômicas que tendem a alterar o meio ambiente. (...)” (12)
A promoção de um modelo de desenvolvimento sustentável, além de assegurar a preservação da paisagem, é uma excepcional alternativa às rígidas relações sociais e políticas que caracterizam Natividade – assim como as demais comunidades onde a pecuária e o latifúndio predominam na paisagem econômica regional - e pode potencializar o desenvolvimento local com novas oportunidades de trabalho e renda.
A Paisagem Cultural pode ser objeto de uma perspectiva de qualidade de vida e cidadania para grande parte da comunidade, que finalmente, poderia se apropriar de modo simbólico e pragmático de sua herança cultural.
Vinte anos depois, ampliar o significado da preservação de Natividade para sua população e promover seu desenvolvimento sustentável é reafirmar a importância histórica e cultural que levou à sua inscrição nos Livros de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, Histórico e de Belas Artes em 16 de outubro de 1.987.
RAQUEL DA COSTA NERY é graduada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, arquiteta e urbanista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2006. Foi assessora técnica da Emurb entre 2002 e 2004, fez parte da equipe do Programa de Reabilitação do Centro de São Paulo (Ação Centro) e desenvolve trabalhos nas áreas de Preservação do Patrimônio Histórico e História das Artes Aplicadas e do Design. Contatos: nery.raquel@uol.com.br
NOTAS
1 - Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. “Estado do Tocantins. Conjunto urbanístico, Arquitetônico e Paisagístico, Cidade de Natividade. Tombamento Federal. Cópia Resumida. (Processo nº1.117-T-84/ SPHAN.). Brasília - DF”
2- A metodologia do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) começou a ser aplicada à cidade de Natividade em 2007, por meio de uma parceria entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a Universidade Federal do Tocantins.
3 - LIMA, Ricardo. Artesanato: Cinco pontos para Discussão. In: Palestra Artesanato Solidário, Central Artesol, 2005. Disponível em: .
4 - A extração de ouro, ainda que não tenha a abundância do passado, persiste como uma atividade de menor importância, mas constante, de caráter complementar à pecuária na região. Entre os demais fatores pelos quais poderíamos explicar a sobrevivência dessa técnica na cidade, seriam: o ensino do ofício de pai para filho, o isolamento da cidade dos grandes e médios centros comerciais e o valor simbólico da jóia de filigrana dentro da comunidade, que resiste culturalmente através do tempo.
5 - Perto de desaparecer na década de oitenta, a atividade joalheira começou a ser fomentada pelo Ministério da Cultura, através do Programa Monumenta, no final da década de 90, e uma nova geração de aprendizes foi e continua sendo treinada no ofício.
6 - A técnica de fundição do ouro foi introduzida no Brasil através do comércio de escravos. Genericamente identificados por negros “Mina”, os escravos eram provenientes da atual região de Angola, Moçambique, além dos grupos Minas – Yorubanos, Gegê, entre outros, e foram introduzidos na colônia em razão de sua experiência e domínio das técnicas de metalurgia e mineração na África. Foram inseridos no Brasil como mão de obra escrava especializada a partir do início do ciclo da mineração para atender às novas necessidades e modos de produção na colônia. OZANAM, Luiz. “As jóias dos negros: usuários e artífices nas Minas Gerais do século XVIII.” Revista da FADOM, Divinópolis-MG, n 13, p. 1- 5, 2003. Disponível em: . Acesso em: 28 jul. 2007.
7 - A festa do Divino Espírito Santo marca a comemoração do Pentecostes. A festa ganhou maior importância e representatividade no calendário religioso a partir do ciclo da mineração, e ocorre em várias regiões do interior do país. A Folia do Divino é parte dessa celebração: é uma alegoria da evangelização realizada pelos apóstolos (foliões) que atinge assentamentos isolados no interior, levando a mensagem do evangelho. No Domingo de Páscoa, após a bênção das bandeiras, as folias giram quarenta dias sertão adentro, na zona rural. A pomba do Divino Espírito Santo é um símbolo recorrente em vários elementos da festa: nas bandeiras, uniformes dos foliões, jóias de filigrana, pratos, copos, talheres, doces e bolos. Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) Natividade, Tocantins. Ficha de Identificação / Celebrações: Festa do Divino Espírito Santo. Natividade, Tocantins, 2007.
8 - O adobe foi intensamente substituído e desprezado nas novas construções da cidade. Feitas de finas paredes de tijolo furado e cimento, as novas construções públicas e privadas são inteiramente inadequadas às altas temperaturas na cidade ao longo do ano, ainda que bastante apropriadas aos interesses dos fornecedores locais de material de construção.
9 - Alguns desses bolos remetem à tradicionais receitas coloniais da cultura cabocla, como o bolo de arroz na folha de bananeira, o bolo de mãe, entre outros.
10 - ALMEIDA, Luiz Fernando de. O futuro é a paisagem. Jornal O Globo, Rio de janeiro,10 jun. 2007.
11 - LIMA, Ricardo.
12 - Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, CURY, Isabelle (Org.). Recomendação n° R (95) 9 Sobre a Conservação integrada das áreas de paisagens culturais como integrantes das políticas paisagísticas. Cartas Patrimoniais. Coleção Edições do patrimônio. 3ª Edição revista e aumentada. Rio de Janeiro, p. 293-345, 2004.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Novembro/2007
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