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Um livro e muitas histórias

O indigenista Fernando Schiavini acaba de lançar "De Longe, Toda Serra é Azul", livro que retrata a atuação de um grupo de indigenistas denunciando o envolvimennto de ex-dirigentes da Fundação Nacional dos Índios (Funai) com grupos econômicos que ameaçavam várias nações indígenas brasileiras, particularmente os povos Krahò, Xerente, Apinajé e Xavante, do Estado do Tocantins
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"De Longe, Toda Serra É Azul" conta uma história daquelas que são tão boas, mas tão boas que parecem ficção. Mas é tudo real: a vida de Schiavini, um mineiro de 54 anos.
Durante vinte anos, ele viajou e lutou como um guerreiro ao conviver com populações indígenas em alguns dos cantos mais isolados do Brasil. Acabou expulso da Funai, mas foi por ela readmitido em um episódio que denota por si as idas e vindas do organismo governamental que cuida dos descendentes diretos dos primeiros brasileiros.
Em 1972, Schiavini, rapaz novo do interior que acabara o serviço militar, não sabia o que fazer da vida. Naquele ano de chumbo, eram poucas as oportunidades para quem não se enquadrava bem nas opções abençoadas pelo que então se usava chamar de sistema, a sociedade do mainstream, como diriam os economistas norte-americanos. Estimulado pelo irmão, ele prestou concurso para técnico da Funai, começando sua grande aventura três anos mais tarde, quando assumiu seu primeiro posto indígena, em um afluente do rio Tapajós.
Ali, sem qualquer infra-estrutura e com pouco conhecimento prático, ele se meteu a cuidar do povo Kayabi. Apesar dos percalços, da falta de apoio da própria Funai, da constante presença de comerciantes desonestos na região e dos mosquitos, conseguiu conquistar a confiança dos índios, ajudá-los e melhorar o posto.
Um dos melhores trechos de "Toda Serra É Azul" é próprio para o cinema. Durante uma festa no posto das terras Kayabi, quando crianças perseguem uma galinha que insistia em fugir da panela, Schiavini deu o primeiro tiro de sua vida e abateu a ave. Ganhou assim, o respeito dos índios e demais moradores da região e ainda se livrou de uma perseguição que lhe poderia ter sido fatal.
As constantes revoltas dos índios contra o homem branco que, depois de lhes tomarem as terras, querem roubar até mesmo a sua dignidade, são episódios freqüentes na trajetória de Schiavini. Sua defesa intransigente dos povos indígenas, de seus interesses e suas culturas, que afinal acabaram lhe custando até o cargo na Funai, é inspiradora. A luta contra Romero Jucá, ex-presidente da Funai, é episódio típico e digno da crônica política brasileira.
Em "De Longe, Toda Serra É Azul", a influência que o homem branco tem até hoje sobre as primeiras populações brasileiras, para o bem e, infelizmente muito mais, para o mal, é escancarada. O indigenista demonstra que 'civilizar' o índio não é o caminho certo, especialmente se a via escolhida para isso for a força. Conhecer o dia-a-dia de um local a quilômetros e quilômetros de qualquer conforto da vida moderna por escolha própria é o mínimo que se obtém através da leitura deste livro, uma estréia imperdível a todos os que sabem o quanto vale conhecer o Brasil que o Brasil desconhece. Ele chega ao público através de uma ousada e valente edição do autor.
Texto: Maria Helena Passos
Contatos com o autor no blog www.todaserrazul.com
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Julho/2007
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