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Tinha um óvni no
meio do caminho

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Justo naquela hora, naquele dia, naquele lugar...



Paulo José

Até meados da década de 1980, a Chapada dos Veadeiros era habitada principalmente por sertanejos, sacis, negros d’água, romãozinhos, curupiras e mães d’ouro. A partir daí, os extraterrestres começaram a chegar, levados pelos turistas e ufólogos, discoportos foram inaugurados e expressões como chipado, abduzido e nave-mãe passaram a fazer parte do cotidiano.

Hoje, na esfera mística de Alto Paraíso, discos voadores têm lugar especial. Para muitos é uma nova forma de religião, em que santos e anjos são substituídos por seres também voadores, mas extraterrestres, e por seres intraterrestres, estes habitantes de cidades construídas em cavernas no fundo da terra e remanescentes da civilização atlântida.

Esse mundo se divide entre os que acreditam e os que não acreditam. Os últimos são quase todos iguais, mas os primeiros subdividem-se em crentes, ufólogos místicos e ufólogos cientistas. Os crentes querem ver naves espaciais e, se possível, ETs, mas contentam-se com luzes móveis no céu noturno. Será um avião? Um satélite? Um óvni? Se formos literais, desde que não seja reconhecido como tal, um avião também vai ser um “objeto voador não identificado”.

Já os ufólogos místicos dizem ter o privilégio de realizar encontros físicos e astrais com seres extraterrestres, corporificando uma religião universal, na forma de uma fraternidade espalhada por todo o planeta. Os ufólogos cientistas são os que investigam os casos acima, incluindo o de não crentes, e costumam acusar os governos de vários países de guardar segredos sobre o assunto bem como utilizar-se de tecnologia extraterrestre para fins militares. Também são capazes de interpretar coisas sutilíssimas, como o fato de, na etiqueta interplanetária, ser de bom tom não confundir um ET com um EBE.

À revista UFO, o ufólogo Claudeir Covo explica que o ET de Varginha, por exemplo, é um EBE, ou seja, uma Entidade Biológica Extraterrestre. “Sabemos que os seres capturados em Varginha são do tipo delta, espécie de macaco extraterrestre, bem mais desenvolvido que nossos macacos. São treinados pelos seres do tipo alfa e beta para realizarem missões específicas". Estas missões, que acontecem em diversos pontos do planeta, como a Chapada dos Veadeiros, são promovidas por duas ordens interplanetárias: os confederados e os não confederados, os primeiros sendo identificados com o bem.

Gente legal
Segundo os contatantes, apesar de existirem ETs bons e maus, grandes e pequenos, a maioria deles nesta área da galáxia é de gente legal, tamanho médio, dois olhos arregalados (estes já adotados pelos terrestres para ilustrar suas festas trances e raves) e, ao contrário do que se diz, não são verdes, mas cinzas. Tá legal, de vez em quando, eles capturam uns terráqueos para experiências, mas nada que desabone suas condutas. Esses ETs estão em missão de paz e obedecem ao comandante Asthar Sheran. Preste atenção neste nome, leitor, porque esse é o cara.

Para os praticantes dessa nova religião, Asthar Sheran é São Miguel Arcanjo e entra em contato por telepatia, viagem astral ou fisicamente com diversas pessoas ao redor da Terra. Elas funcionam como multiplicadoras de seus avisos e sugestões. Como um santo popular, ele é devotado por milhares, tem seguidores, suas mensagens são discutidas, apreciadas e difundidas e várias comunidades na internet o têm como centro. Sua figura, de um ET quase louro, olhos claros e semblante pacífico e concentrado, vestido de azul e irradiando luz, é ícone da Nova Era.

Para aqueles que se identificam com a causa, quem faz contato com Sheran ou outros comandantes-mestres como Karran e Mória - ou seja, quem for iniciado - conquista poder político e magnetismo e, por isso, está apto, quase como uma missão, a criar uma entidade, na qual a nova religião vai ser ritualizada. Na Chapada dos Veadeiros, a maioria das experiências são pessoais e restritas; publicamente, só o turista e sua busca por luzes que se movem no céu.

A mais famosa das entidades relacionados com contatos imediatos de terceiro grau de Alto Paraíso foi a Fundação Arcádia. Nela, Ergon Abraham Can Hell e sua esposa Inti-Rá mantiam uma movimentada fazenda, onde aconteciam cursos, meditações, treinamentos e contatos e vendiam-se livros de conteúdo ufológico e instrumentos baseados em tecnologia extraterrestre – caso do bastão cromotransmutador, usado para equilibrar a energia dos chakras, aliviar dores e relaxar.

Ali, entre as propostas, uma era constituir um hospital holístico para a prática da cosmoterapia, uma soma de práticas tradicionais e alternativas e conhecimentos extraterrestres. “Além de todo um trabalho de volta à natureza, haveria ligação a uma tecnologia muita avançada”, explicou Ergon. O projeto, contudo, não foi adiante.

Por causa de sua vibração energética, a Chapada dos Veadeiros é um dos lugares preferidos dos crentes para seus encontros. O site Ufo Gênesis a coloca como um dos quatro principais destinos do turismo ufológico no Brasil, ao lado da Chapada dos Guimarães e Serra do Roncador, em Mato Grosso, e Chapada Diamantina, na Bahia. Dessa lista podemos deduzir que os ETs preferem as chapadas.

Por aqui, as atividades incluem eventos de discussão sobre o estágio de relacionamento da Terra com outros planetas, reuniões para ver um disco voador em lugar previamente acertado e cursos, nos quais o condutor tira as dúvidas dos presentes consultando telepaticamente seres alhures.

Popstars
Há pouco tempo, a entidade Humming Bird, sediada nos Estados Unidos e famosa no meio, promoveu um encontro, em Alto Paraíso. Cada convidado pagou por três dias de atividades cerca de R$ 2,6 mil. Entre as questões que apareceram, uma chamou a atenção da participante Sueli Carneiro: o caso de dois chipados, um homem e uma mulher, em que ambos haviam pedido ao condutor-mestre que entrasse em contato com Asthar Sheran, e para propósitos diferentes. Enquanto ele reclamava que tinha perdido o livre arbítrio e, por isso, queria que desligassem o chip, ela estava maravilhada e solicitava, digamos, um upgrade.

Para ser chipado, é preciso ser abduzido e esta é outra categoria. Ser sugado pela luz de um óvni e ir para seu interior, dizem as histórias, pode ser espetacular para uns e traumático para outros. De qualquer forma, quem volta passa a ser uma espécie de popstar no metier, conquistando fãs e admiração. Isso porque não adianta querer ser abduzido, a escolha é sempre dos ETs. Do ponto de vista terrestre, os casos mostram que quem tem mediunidade desenvolvida está mais apto.

Muitos dos que têm a experiência de entrar em contato com os extraterrestres preferem não falar do assunto, sempre alegando que iriam colocar a cara à tapa. “Ninguém acredita. Nem adianta falar. Você fica ridicularizado”, explica um iniciado de Alto Paraíso, que pede anonimato e se recusa a dar entrevista. “O contato físico é limitado. Você fica paralisado. Os encontros então acontecem mais através de viagens astrais, projeciologia”, acrescenta, encerrando nossa conversa.

Os perseguidos são outra categoria nesse universo. Tem dois tipos. Um é seguido ou vigiado por uma bola de fogo, que se move quando a pessoa se move. O professor Paulo Duarte, dono de uma casa no povoado de São Jorge, conta que, numa viagem de madrugada em direção a Alto Paraíso, “uma imensa bola amarela, parecida com a lua cheia”, viajou ao lado de seu carro, a uma certa distância, por vários quilômetros. “Até hoje não sei o que era”, diz. Quando a pessoa está ao ar livre, não raro essas bolas causam queimaduras.

O outro tipo de perseguido é o que invoca a tradicional cena do cinema e da TV, na qual o automóvel é seguido por um disco voador cheio de luzes. São várias as histórias e elas indicam que, quanto mais ermo e tarde da noite, mais chances existem de aparecer um óvni. Aqui, cabe uma pergunta: por que, podendo voar, os óvnis preferem, mesmo pelo alto, seguir a rota das estradas? E essa paixão por automóvel? Serão eles apaixonados por carro como todo brasileiro?

Bem, se há um lado tratado com seriedade, os ETs também geram um folclore, expresso em lendas urbanas, brincadeiras e piadinhas. O fotógrafo Ricardo Feres escreve, em seu site, sobre Veadeiros: “confesso que não vi ET algum, mas várias pessoas me garantiram que se eu procurasse bastante, encontraria. Mas acho que abril não é mês de férias interplanetárias, já que o estacionamento do discoporto estava vazio”.

O mochileiro Thiago de Sá informa que, “pelos lados da Chapada dos Veadeiros, há quem acredite existir uma base de óvnis e um centro de operações do Quarto Reich, numa nova tentativa alemã. Relatos de contatos com ETs, cetros mágicos, luzes inexplicáveis, toda aquela região é um poço de misticismo”.

Já no blog de Ernestinho e Suas Mulatas Bezuntadas, o seu titular, membro da Sociedade Ufológica E.T. Phone Home, nos conta: “Certa madrugada, durante uma de suas solitárias expedições ufológicas na Chapada dos Veadeiros, viu-se envolvido por uma intensa luz azulada. Olhou para cima e viu uma gigantesca nave espacial. Começou então a ser atraído e perdeu a consciência. Quando voltou, semanas depois, apenas uma lembrança: um imenso luminoso com os dizeres ‘Sorria! Você está sendo abduzido’."


Foto: Paulo J. S.

Publicado por
Altiplano.com.br
Goiânia, Goiás, Brasil - Julho/2007