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Kayapó da floresta faz visita inesperada à aldeia Kapôt do Xingu

Rodolfo Salm
Uma notícia surpreendente, vinda das terras dos kayapó (que se estende
pelo norte do Mato Grosso e sul do Pará), vem ganhando espaço na mídia nos
últimos dias. Um grupo de índios desta etnia, que vivia sem contato com o
restante da sociedade brasileira, deixou o isolamento em que estavam ao se
aproximar da aldeia Kapôt (também kayapó). As notícias são de que falam o
idioma mebengokré, assim como faziam os antigos kayapó; que são altos e
fortes, usam cabelos longos e o botoque (um disco de madeira preso no
lábio inferior); pintam-se de vermelho e preto e portam arcos e flechas.
Segundo a fotógrafa Sue Cunningham, membro da Royal Geographical Society
de Londres, que nos últimos vinte anos tem documentado a história dos
povos indígenas na área do Xingu e está em Colíder (MT), a cidade mais
próxima, o clima é de muita emoção entre todos os índios. Os índios
isolados foram recebidos com muita alegria, com cantos e danças. O
interessante é que os recém-contatados lembravam-se de outras danças que
os índios da aldeia Kapôt já haviam esquecido, o que provocou extrema
comoção.
O jornal O Estado de São Paulo informou que "índios desconhecidos" vinham
emitindo sons e sinais, percebidos pelos habitantes da aldeia Kapôt, mas
sem fazer contato visual. Porém, no dia 24 de maio último, jovens desta
aldeia avistaram na mata dois índios desconhecidos que, apesar de
assustados, fizeram contato em sua língua. Trata-se de kayapó do tronco
Metuktire, até então desconhecidos do Estado brasileiro e dos próprios
kayapó, que abandonaram a terra onde moravam no sul do Pará, próxima de
onde caiu o Boeing 737-800 da Gol no ano passado.
Aparentemente, os índios isolados foram atacados por garimpeiros e/ou
madeireiros e caminharam cinco dias por cerca de 100 quilômetros pela mata
em busca de proteção. Os kayapó "civilizados" pensavam que este grupo
recém-contatado, hoje composto por quase noventa pessoas, tinha sido
dizimado há quase seis décadas, quando parte dos índios da etnia passou a
desenvolver relações pacíficas com a sociedade envolvente - na verdade,
desde então as relações foram tanto pacíficas quanto não-pacíficas e até
belicosas. Naquele processo de contato, o grupo recusou a aproximação e
fugiu. Imagina-se que, além dos possíveis ataques de garimpeiros ou
madeireiros invasores da terra indígena, o acidente aéreo e os trabalhos
de busca também possam ter assustado os índios, influindo em sua decisão
de deixar o isolamento.
O grupo recém-contatado acampou a cerca de um quilômetro da aldeia Kapôt.
O local está isolado e ainda não há registros de imagens destes índios.
Mas cantos da tribo foram gravados, imediatamente transmitidos por meio de
aparelhos de radioamador pelas aldeias kayapó e agora pelo mundo, através
da Internet (www.estadao.com.br/ext/som/2007/jun/01/audio_wma.wma). O
principal interlocutor deles tem sido o cacique Megaron Txucarramãe,
administrador regional da Funai, na cidade de Colíder. Para facilitar a
aproximação, e como mostra de boa receptividade, Megaron solicitou à Funai
que enviasse como presente aos índios miçangas coloridas, facões e
machados. Miçangas, produzidas na República Tcheca, foram usadas como
presentes por missionários que trabalharam na pacificação dos kayapó nos
anos 1950 e ainda hoje são consideradas por eles matéria-prima para a
produção de ornamentos de prestígio, tal como o ouro para nós.
Índio brabo
Sobre o encontro dos índios aparentados vivendo separados por tantos anos,
o presidente da Funai, Márcio Meira, em uma declaração à Folha de São
Paulo, comparou: "É como se uma família de judeus que sobreviveu ao
Holocausto 30 ou 40 anos depois descobrisse que boa parte de seus parentes
sobreviveu". Eu acho que é bem mais. É mais até do que se uma família de
judeus descobrisse que parentes seus sobreviveram ao ataque do exército
romano que devastou a fortaleza de Massada, no ano 73 d. C., e tivessem
vivido desde então como viviam os judeus há quase dois mil anos. Isto
porque este povo já conhecia o dinheiro, transformador das relações
sociais, desde aqueles tempos bíblicos. Os kayapó, por outro lado, que
estão saindo de um estágio pré-histórico de civilização, em breve ganharão
miçangas de presente, mas mal sabem que farão de tudo, no futuro, para
conseguir mais contas coloridas. Até trabalhar para ganhar dinheiro para
comprá-las.
Há muito que ouço falar de "índio brabo", em relatos dos kayapó da aldeia
A´Ukre que freqüentavam a base de pesquisas do Pinkaití, a cerca de 300 km
em linha reta do local de onde se acredita que vieram estes índios
recém-contatados. De acordo com os kayapó, seriam membros de seu grupo
original que recusaram o contato e seguiam vivendo como o "pessoal de
antigo". Eu nunca soube ao certo o quanto estes relatos eram lenda – como
tantas outras histórias que são contadas como verdade pelos índios mais
velhos – que funcionaria, neste caso, como uma reserva idealizada do
estado primordial da cultura indígena.
Segundo contam, em raras ocasiões esses índios aproximam-se das aldeias,
sorrateiramente, em busca de algum objeto de interesse que estivesse dando
sopa. Mas esta também poderia ser uma estória conveniente para justificar
vários pequenos delitos internos, e não há como saber o quanto disto seria
real. É verdade que eu e um colega já vimos o que parecia uma pegada
fresca descalça em uma trilha distante da base (os índios kayapó que
conheço sempre andam na mata calçados), e outros pesquisadores dizem já
ter ouvido na mata conversas que não eram dos índios que trabalham
conosco. No Pinkaití, estamos tão distantes daqueles Metuktire
recém-contatados, que dificilmente estes seriam os "nossos índios brabos",
de modo que a dúvida e a lenda persistem.
O fato é que os kayapó recém-contatados estão servindo efetivamente como
uma reserva de conhecimentos tradicionais, como observado por Sue
Cunningham, ao relembrarem cantos e danças que haviam sido esquecidos. Sem
dúvida, esta comunidade tem muito mais a ensinar. E não só aos kayapó, mas
a nós brasileiros de modo geral. Sobre como não depender da Funai para
nada, ou da "ajuda" de madeireiros e mineradoras ou de concessões de
garimpos ilegais; acima de tudo, sobre como viver harmônica e
discretamente com os recursos da floresta. Certamente já há muita gente
ávida por ganhar com a
comercialização das suas primeiras imagens.
Infelizmente, pelo tratamento que a grande imprensa, especialmente a
televisiva, de maior penetração, dá aos índios, é provável que chamarão
mais a atenção pelo gosto barato e descartável do bizarro do que por
questões morais ligadas às possíveis contribuições de seu modo de vida.
Por outro lado, as crianças recém-contatadas aprenderão a apreciar
"caramelos", como todas as outras crianças kayapó, viciando-se em açúcar;
os adultos, como os outros índios, além das miçangas coloridas,
rapidamente se acostumarão com cigarros, pão, manteiga, café e macarrão;
sapatos, relógios, roupas de marca, mochilas; barracas de camping, motores
de popa, gasolina, molinetes e iscas-artificiais; futebol, rádio e
televisão.
Segundo o Estadão, Elias Bigio, da Coordenação de Grupos de Índios
Isolados da Funai, ainda teria dito que este é um fato "completamente
inusitado", por ser o "primeiro registro que se tem de uma migração em
massa de índios que viviam isolados na selva e que por iniciativa própria
buscaram a aproximação com regiões urbanizadas", e os índios da aldeia
Kapôt seriam considerados um risco para os novatos "devido aos hábitos,
costumes e até mesmo às doenças que adquiriram após a aproximação com as
áreas urbanas". É bom que se corrija que, apesar de relativamente
integrada, a aldeia Kapôt está longe do que pode ser chamado de uma
"região urbanizada" e o que há de inédito é a capacidade de articulação e
comunicação dos kayapó, que permite à sociedade envolvente acompanhar à
distância estes movimentos internos do povo kayapó. Para os puristas, os
"hábitos e costumes" dos kayapó podem representar riscos para estes novos
brasileiros. Mas é neles, seus parentes, que os recém-contatados decidiram
confiar e serão eles que se encarregarão da sua integração.
Se este é um assunto interno dos kayapó, o que o leitor deste artigo tem a
ver com esta notícia? Muito, pois ela revela como na bacia do Xingu, nas
áreas sob a influência de rodovias como a BR-163 e a PA-150 ainda há povos
e florestas vulneráveis e intocados. Então que se proteste contra a
paralisia do governo federal que permite que, um ano depois de lançado, o
Plano BR-163 Sustentável continue no papel, conforme denunciou
recentemente o site Amazônia (www.amazonia.org.br); e que se apóie e ajude
os kayapó e outros povos indígenas na organização do novo grande encontro na cidade de Altamira contra os
projetos de
hidrelétricas neste rio.
-Veja a conclamação indígena pelo Rio Xingu
Ilustração: Paulo J.S.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Julho/2007
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