|
Home
|
|
Transpondo as barreiras do espaço
e do tempo para outra dimensão

Kátya Alexandrina Matos Barreto Motta, Fernanda
Costa Nunes, Paula Gomide e Juliana Rosa Ferreira*
Comunidades x Comunidades Virtuais
Etimologicamente, a palavra comunidade deriva de comum: algo que pertence a todos. A dificuldade em estabelecer um significado preciso para esta palavra fez com que ela fosse usada como sinônimo de sociedade, aldeia, organização social, associação de bairro, conjunto habitacional ou clube esportivo. Todas estas significações, porém, corroboram a idéia de que, para existir, uma comunidade deve ocupar um locus, um território específico, um espaço geograficamente determinado onde as pessoas estejam ligadas pelos mesmos interesses e ainda que, possuem um senso de interdependência e integração.
Segundo Durkheim (1997), o convívio em sociedade reforça a tradição moral explicitada pelos usos e costumes. A questão comunal entre as pessoas antecede o conceito de consciência coletiva definido como crenças e sentimentos comuns. Na ótica do autor, o tipo de relações estabelecidas entre as pessoas na comunidade fornece os alicerces de como será a convivência social na sociedade. A sociologia clássica, as concepções de comunidade destacam as relações de proximidade de território, relações de vizinhança e o sentimento de pertencimento a um determinado grupo. Essa noção de comunidade vem sendo ressignificada em decorrência das alterações ocorridas na dinâmica das interações sociais. A sociedade contemporânea incorpora novos meios de comunicação, possibilitando o contato interpessoal mediado por computadores.
Comunicação virtual
As evoluções tecnológicas, principalmente das telemáticas, que são as telecomunicações somadas ao campo da informática, oportuniza que o contato entre as pessoas transpondo as barreiras do espaço e do tempo para outra dimensão . As relações de vizinhança e território que antes ocorriam no espaço físico, agora ocorre no espaço virtual A interação via rede de computadores anunciam aspectos atrativos para conquistar as pessoas, como: estimular diálogos, encurtar distâncias, democratizar informações, agilizar as atividades diárias e diminuir o tempo de execução das mesmas e ainda, expandir as redes de contato das relações humanas. Com a Internet, participar de grupos nacionais ou internacionais tornou-se tão possível quanto conversar com os vizinhos.
As informações pessoais transmitidas e compartilhadas entre os membros das comunidades virtuais são divulgadas de acordo com o desejo de cada um. Sendo assim, há espaço tanto para quem quer permanecer no anonimato absoluto, como também para quem não se importa em expor abertamente as próprias características. Admite-se que quanto mais se compartilha informações, melhor é a relação entre os participantes do grupo. A questão posta é, as informações fornecidas pelos grupos que participam de comunidade virtuais são autenticas?
A rede de contato virtual traz propõe novos paradigmas e reflexões sobre os conceitos de comunidade tradicional. Os laços comunitários que se formam na comunidade em rede se estruturam um locus virtual, que não é físico e nem mesmo concreto. Não mesmo pode ser visualizado, existe no plano imaginário. O conceito de objeto real não consegue contemplar em sua definição o que é ciberespaço. A virtualização reinventa uma cultura nômade, fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia.
Um conjunto de pessoas constitui um grupo, e à medida que esses respectivos formam subgrupos, se constituem em uma comunidade. E um conjunto interativo de várias comunidades configura uma sociedade. Na comunidade virtual as relações são estabelecidas no ciberespaço e caracteriza-se pela aglutinação de um grupo de indivíduos com interesses comuns que trocam experiências e informações no ambiente virtual. O espaço virtual é mais que uma matriz matemática implementada pelas tecnologias cibernéticas, que criam outras formas de comunicação que transporta o processo de socialização da comunidade para outra dimensão (DURKHEIM, 1997).
As comunidades virtuais se estendem como uma rede que pretende preencher as demandas das pessoas que moram nas cidades que não conseguem manter encontros reais. Diminui a convivência física e aumenta a quantidade de relacionamento virtual que passa a ser baseado mais na proximidade intelectual do que no convívio físico.
As abordagens de grupo de Bion (1975); Anzieu, (1993); Moscovici (1997) relatam as dificuldades das pessoas em lidar com as questões emocionais, no ambiente virtual é possível desconecta-se sempre que estiver vivendo situações de angústias e ansiedade. De modo geral, as pessoas se afiliam aos orkuts para expor suas crenças, buscando compartilhar momentos que posam suprir suas demandas. Na impossibilidade de viver a concretização do seu sonho no mundo real, cria-se o cenário para viver a gratificação das necessidades, expectativas e os desejos no plano virtual.
Segundo o jornal Folha de São Paulo (08/07/2004), alguns serviços têm ganhado destaque na mídia especializada, como o Orkut. Recentemente os brasileiros ultrapassaram os americanos em número de usuários conectados ao Orkut. O crescimento dessas comunidades reforça ainda mais a relevância da web como meio de comunicação grupal. Apresenta-se a seguir alguns pressupostos teóricos sobre os grupos e se iniciam expondo os conceitos.
Conceitos de Grupos
Os grupos são formados por pessoas que se reúnem com necessidades semelhantes para a realização de uma tarefa específica. Zimerman (2004), entende que qualquer agrupamento de pessoas pode ser conceituado como grupo. Uma simples reunião e / ou aglomeração pode se tornar um grupo. Estes se desenvolvem num processo de interação com o ciclo de atividade, interação, sentimentos para se fortalecer e estabelecer uma característica grupal.
Para Moscovici (1997) o fator mais característico de grupo é o fato de que nele duas ou mais pessoas se relacionam, para uma finalidade específica e consideram esta relação significativa. Em relação à função, a autora classifica entre dois tipos: 1. orientados para tarefa que são os de estudo, de linhas de montagem, entre outros e; 2. os sócio-emocionais que são os presentes em festas, clubes e encontros sociais.
Dentro da proposta deste artigo nota-se que o Orkut é um grupo do tipo que pode ser comparado ao conceito de grupos sócio-emocionais, entendendo-se como uma rede de contatos virtuais que engloba os sentimentos racionais e sociais.
Segundo Anzieu (1993), o grupo é um lugar de fomentação de imagens. Os seres humanos se reúnem para trabalhar, distrair, defender, roubar e matar, crer, mudar o mundo, ser instruídos ou tratados. Neste espaço grupal os sentimentos invadem, agitam-se desejos, medos, angustias que excitam ou os paralisam. Em grupo uma emoção comum, às vezes se apossa dele e lhe dá uma impressão de unidade. Surgem várias emoções que podem aglutina ou romper com o grupo.
As comunidades do Orkut se constituem em formações que tornam possíveis e sustentam o processo de desenvolvimento de um grupo tanto dos aspectos conscientes como dos inconscientes. Quando uma pessoa cria uma comunidade esta criação é a “concretização” destes fantasmas imaginários. Observa-se, portanto, uma nova forma de estabelecer laços sociais, de reunir pessoas sob a forma de uma comunidade.
Este artigo é uma pesquisa exploratória qualitativa realizada sobre o orkut.com.br, que é um site formador de grupo que convivem nas comunidade virtuais. A coleta dos dados ocorreu por meio da revisão de literatura, incluindo sites na internet, o próprio o orkut, não sendo utilizada nenhuma forma de contato com usuários.
O dicionário wikipedia disponível na Internet no endereço http://pt.wikipedia.org/wiki/ define orkut como uma rede social que se afilia ao Google, criado em 2004 com o objetivo de estabelecer vínculos de amizades, manter contatos, oferecer apoio e informações sobre adversos temas. Tal sistema foi projetado para ser uma rede social. O nome vem de um funcionário da empresa, que desenvolveu esse projeto: Orkut Buyukkokten. É um serviço que permite fazer e relacionar com amigos. Basicamente, é um painel que uma pessoa possui e que por meio dele é possível fazer contato e manter relação com os amigos. As comunidades abrem espaço a para a comunicação entre os orkuts. Cada pessoa tem uma descrição e um número fornecido pelas comunidades que participa. Quem acessa a rede e visita um orkut pode verificar, quais os amigos que ela tem, enviar mensagens a ela e até mesmo se declarar fã da pessoa, o volume de mensagens trocadas é muito grande e eles se reproduzem em rede. O site http://pt.wikipedia.org traz as seguintes informações: funcionamento, perfil, como criar as comunidades, screpat do orkut, como se segue:
1. Funcionamento - é um web site orientado para os networks. E para participar da rede, o usuário deve ser convidado. Cada usuário tem sua própria senha e estes só podem ser acessados por quem faz parte da rede.
2. Perfil - para participar o usuário tem que preencher um perfil com suas características, discorrendo sobre três aspectos: social, profissional e pessoal. De acordo com as informações do site www.wikipedia.org o Orkut abre possibilidades para que o perfil informado não corresponda com o real. O usuário pode mentir ou deixar certas informações em branco, mas se faz necessário passar pelas inúmeras perguntas para poder participar da comunidade. Além do mais, estas informações subsidiam para que seja criado o orkut das pessoas no sistema virtual da rede. Cada usuário tem um grupo de amigos que pode chegar a, no máximo, 1000 pessoas. O usuário pode classificá-las de desconhecido até melhor amigo. Cada amigo tem outro amigo, e dessa maneira cada usuário do Orkut é ligado de algum modo com todas as pessoas.
A pessoa que possuem um orkut na comunidade virtual tem duas áreas de contato que é o fórum e os eventos. O fórum funciona por meio de dois canais. Uma perspectiva é quando uma pessoa cria um tópico, com um título e um texto. A outra é quando uma pessoa (pode ser a mesma) pode entrar no tópico e deixar uma mensagem. Existem conversas no Orkut, porém elas não são instantâneas, às vezes, pode demora alguns instantes até alguém conseguir ler sua mensagem e mandar um retorno.
As pessoas mais jovens têm mais interesse no Orkut. Aproximadamente 58,47% possuem entre 18 a 25 anos. Porém, esse número não é real, pois pessoas menores de 18 anos também, participam da rede, colocando idades incorretas, ou mesmo nem pondo a data do nascimento. As pessoas de 26 a 30 anos ocupam o segundo colocado em participação de idades com 14,31%, (este número apresenta maior exatidão). São inúmeros os interesses para se cadastrar na rede, porém 80,99% participam para fazerem novos e encontrarem os velhos amigos. Em segundo lugar, estão aqueles que procuram parceiros para dialogar sobre o mesmo tema com 27,19%. Os totais de orkuts criados por todo o mundo são aproximadamente de 17.497.157. É importante ressaltar que essas informações são originadas pelos próprios usuários durante o preenchimento do cadastro do site. É muito comum usuários de um país se cadastrarem como se fossem habitantes de outro.
Gírias e Neologismos - o site www.wikipedia.org apresenta também as gírias e neologismos utilizadas dentro da rede: Orkuta - verbo utilizado pelos brasileiros que significa o ato de acessar o site Orkut; Scraps - cada perfil de usuário conta com uma página de comentários individual como uma forma de interação entre os usuários. Cabe aos usuários, destinatários ou autores dos scraps, a sua eliminação ou manutenção; ScrapChat - concentração de várias pessoas no ScrapBook de um certo indivíduo para bater papo, assim aumentando seus scraps no orku;. Fã - é uma opção encontrada no orkut. Pode-se declarar fã de quem quiser, o mesmo acontecendo com os outros. A cada fã, uma estrelinha amarela aparece. Algumas vezes, o usuário acaba tendo fãs que ele nem mesmo conhece e; Orkuticídio: Cometer um "orkuticídio" é um termo usado no sentido figurado de suicídio, para quando algum usuário quiser excluir sua conta no sistema.
Considerações
Na sociedade contemporânea as comunidades virtuais formam-se muito mais em torno das questões de identidade, interesses e objetivos comuns. Não depende mais do lugar, nem da relação de proximidade física, a proximidade territorial ocorre no plano virtual. Como toda comunidade precisa de acordos para a convivência, normas, leis, padrões, procedimentos para funcionar organicamente.
As interações sociais ou qualquer relacionamento que se procura estabelecer tornam as pessoas vulneráveis à rejeição, à desconfiança, ao desrespeito e à dor, mas a necessidade e busca da conexão é maior e pode trazer benefícios, o que supera os riscos. Nas relações das comunidades virtuais, tais riscos existem, pois não se tem a garantia de privacidade quando “on-line”. Por outro lado, abre possibilidades para que o perfil informado não corresponda com o real. O usuário pode mentir ou deixar certas informações em branco, assim consegue se proteger minimizando a sua vulnerabilidade.
As informações repassadas podem ser decifradas como verdades virtuais que podem corresponder ou não com os dados reais. Essa perda da identidade momentânea pode ser uma defesa contra as situações diárias sentidas como ameaçadoras: dificuldade de lidar com as pessoas, compartilhar emoções, conversarem e trocarem opiniões. Com também, as pessoas fazem contatos físicos mais íntimos e se decepcionam, então na impossibilidade de encontrar os cenários principesco na vida real buscam cria-los no ciberespaço. E mediante a qualquer risco, basta um click para romper com a rede de contato.
Cabe várias reflexões sobre o campo da dinâmica grupal nas comunidades virtuais. Segundo Anzieu (1993), emerge da situação grupal uma representação imaginária comum projetada nos vários membros que dá unidade ao grupo. As comunidades orkut se enquadram neste conceito como sendo um grupo organizado em torno de um fantasma individual que produz o fenômeno da ilusão grupal. Os grupos de convívio na comunidade virtual, também vivenciam essa ilusão grupal, deste modo, fica a reflexão será que uma resposta que atende as demandas individuais de socialização? O grupo virtual possui uma identidade, entretanto, essa identidade que constitui a unidade grupal é autêntica?
*Autoras
Kátya Alexandrina Matos Barreto Motta é psicóloga; didata em Dinâmica de Grupo pela Sociedade Brasileira de Psicoterapia, Psicodrama e Dinâmica de Grupo - Soprap Regional Goiás; especialista em Dinâmica de Grupo e mestre em Psicologia Social
Fernanda Costa Nunes é psicóloga e especialista em Consultoria e Gestão de Grupos
Paula Gomide é psicóloga e especialista em Gestão de Grupos
Juliana Rosa Ferreira é psicóloga e especialista em Gestão de Grupos
BIBLIOGRAFIA
ANZIEU, D. O Grupo e o inconsciente. 1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1983.
BION, W.R. Experiência com grupos. São Paulo: EDUSP; 1975.
DURKHEIM, E. A divisão do trabalho social. 2.ed. Portugal 1 volume. Editorial Presença e Livraria Martins Fontes,1977.
MOSCOVICI, F. Desenvolvimento Interpessoal. Rio de Janeiro: Livro Técnico, 1996.
ZIMERMAN, D. C. Bion da teoria à prática. Porto Alegre: Artmed, 2004.
Ilustração: Paulo J.S.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Março/2006
|
|
|
|
|