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Frutíferas nativas são opções para o quintal e o jardim

Evandro Bittencourt
Cultivar frutíferas do Cerrado em quintais e jardins de imóveis urbanos e rurais é uma opção que vem ganhando adeptos fiéis. Essas plantas têm a vantagem de ser totalmente adaptadas às condições da região, são perenes e depois que atingem a fase adulta resistem ao longo período de estio sem a necessidade de irrigação.
Embora haja quem ainda não reconheça o valor ornamental das espécies que compõe o bioma, muitos não abrem mão de manter amostras da rica variedade de árvores de troncos rugosos e tortuosos que caracterizam nossa flora nativa. Os frutos, dos mais variados sabores, podem ser consumidos in-natura ou processados de diversas formas e são, com toda a certeza, a melhor maneira de atrair pássaros e favorecer a qualidade do ambiente que se quer ornamentar.
Algumas, como a mangaba, o pequi, a cagaita, a palmeira, o jerivá e o murici podem ser facilmente encontrados em viveiros. Outras são mais difíceis, o que exige a coleta de sementes no campo e a formação de mudas sob encomenda. A maioria tem porte médio ou pequeno, o que elimina a preocupação constante de controlar o desenvolvimento dessas plantas. Basta apenas fazer podas de formação no início da vida produtiva e limpar galhos secos.
No Cerrado, em condições naturais, as plantas nativas enfrentam um regime de chuvas marcado pela estacionalidade. Caso sejam irrigadas, podem ter suas características alteradas, principalmente no que se refere à frutificação, em razão da interferência em estímulos naturais, fatores de estresse como o frio e a escassez de água, que provocam a queda de folhas e induzem a floração. "Com a irrigação as plantas podem produzir em épocas diferentes ou apresentar uma carga de frutos diferenciada, maior ou menor."
Nabor Júnior diz que não há restrição para a irrigação após o período de floração, pois já houve o estímulo natural e a suplementação de água será benéfica para a planta. A procura por esse tipo de planta, segundo o agrônomo e viveirista Nabor Veloso Naves Júnior, aumentou com o surgimento dos condomínios fechados, onde a disponibilidade de espaços mais amplos possibilitou alterações na tradição goiana de cultivar apenas algumas poucas frutíferas tradicionais nos quintais, tais como os pés de manga, goiaba e uva, entre outras, e plantas ornamentais de pequeno porte nos canteiros e jardins.
Frutos da preservação
Cultivar frutíferas nativas é uma maneira de preservar a flora e manter viva a tradição regional, com o privilégio de degustar seus frutos e contemplar a qualquer momento alguns exemplares do patrimônio vegetal que beira o risco de extinção.
Quando se mudou para um condomínio fechado em Goiânia, o professor universitário Ildeu Moreira Coelho preocupou-se em adquirir uma área maior, de pouco mais de 3 mil metros quadrados, para cultivar frutíferas. Entre elas, alguns exemplares da flora do Cerrado. O plantio de alguns pés de mangaba, uma antiga paixão, possibilitou o resgate de sensações e lembranças do tempo da infância.
Ildeu lembra que quando criança costumava subir a serra próxima ao sítio do pai, no município de Itauçu, em busca de mangaba e de cajuzinho do campo. Hoje, com algumas plantas já em fase de frutificação em seu quintal, se alegra com a possibilidade de cultivar pés de mangaba e cagaita e apresentar as plantas para crianças e adultos que ainda não as conhecem. "Eu mesmo não me lembrava da beleza da floração, que espalha pelo ar um perfume muito suave".
Ildeu Coelho diz que as plantas despertam a atenção dos vizinhos, que solicitam mudas e sementes. "Os frutos atraem grande quantidade de pássaros." O professor lembra que essas frutíferas estão se tornando cada vez mais raras no campo e o cultivo é uma forma de preservá-las, o que o levou a decidir plantar outras espécies nativas.
Beleza rústica
Cada uma das diferentes espécies de frutíferas do Cerrado possui uma ou mais características que podem ser exploradas na ornamentação de quintais e jardins. A cagaita, por exemplo, apresenta nos meses de agosto e setembro floração exuberante, na cor branca, o que faz lembrar a espécie ornamental neve-da-montanha.
A frutificação ocorre nos meses de dezembro e janeiro. A planta, descreve o engenheiro agrônomo Nabor Veloso Naves Júnior, apresenta desenvolvimento médio, atingindo cerca de três metros de altura num período de 3 a 4 anos. O fruto, amarelo, tem o tamanho de uma bola de tênis de mesa e pode ser aproveitado para o consumo in-natura e sucos.
A planta aceita bem as podas e pode ter a sua copa reduzida, caso seja necessário. Ocorre naturalmente em áreas de Cerrado e Cerradão e sua copa assume formato de aspecto delicado, adequado a projetos de paisagismo. Embora seus galhos não sejam retorcidos, o caule apresenta a rugosidade típica das plantas nativas.
Por não ter copa muito fechada, proporciona pouca sombra, o que permite uma boa convivência da planta com as gramas. Como toda planta de Cerrado, é resistente à escassez de água. Essa característica é especialmente importante, ressalta o agrônomo, em razão da rápida redução dos recursos hídricos disponíveis, resultado da exploração descontrolada e da degradação ambiental. "Não sabemos se num futuro próximo teremos água suficiente para irrigar jardins ou se o custo ainda será viável", questiona o agrônomo.
O cajueiro é outra frutífera nativa de áreas de Cerrado que pode se prestar bem à ornamentação de jardins e quintais. Quando adulta, o porte da planta varia de 4 a 5 metros de altura, a floração se dá de julho a setembro e a frutificação de setembro a novembro. Além de apresentar copa mais frondosa, suficiente para produzir sombra, seus troncos e galhos são retorcidos, evidenciando se tratar de uma típica representante do bioma.
Os frutos, de cor amarela ou vermelha, podem ser consumidos in-natura ou na forma de sucos e doces.
O cajueiro do Cerrado também apresenta variedades rasteiras, que atingem no máximo 50 centímetros de altura. A planta produz frutos menores e, nesse caso, a oferta de mudas em viveiros comerciais é mais rara, afirma Nabor Júnior, dificuldade que pode ser contornada com a coleta de sementes no campo para a formação de mudas ou produção sob encomenda.
O pé de araticum, da família da ata, atinge de 4 a 5 metros de altura, ocorre na região de Cerradão e sua floração se dá de setembro a outubro. O fruto amadurece no mês de março a abril, o que o faz ser chamado de fruto da quaresma.
Embora tenha uma copa de pouca densidade, a planta apresenta-se elegante e atinge de 4 a 5 metros de altura. O pé de araticum, portanto, pode ser plantado em áreas gramadas sem prejuízos a esse tipo de cobertura.
O fruto é consumido principalmente in-natura e em forma de sorvetes e doces. É apreciado principalmente pelos que aprenderam a soboreá-lo desde a infância, assim como o pequi, o que nem sempre ocorre com pessoas não habituadas ao fruto, que tendem a rejeitá-lo em razão do cheiro forte. Sua floração é mais discreta, principalmente se comparada à cagaita.
Árvore símbolo do Cerrado, o pequi é uma das plantas mais procuradas entre as frutíferas nativas para o cultivo doméstico. Por se tratar de uma espécie que pode atingir entre 8 e 10 metros de altura, requer espaço maior para o cultivo, em torno de 25 metros quadrados. Não se trata de uma planta delicada como a mangaba e a cagaita e não aceita podas na fase adulta.
O ideal é que esse manejo fique restrito à formação da planta, com o objetivo de arredondar a copa, o que deve ser feito por volta dos cinco anos de idade, para que depois a planta se desenvolva naturalmente. "Plantas frutíferas devem ter a copa mais aberta e arredondada para proporcionar maior ventilação e favorecer a frutificação", recomenda Nabor Júnior.
A floração do pequi ocorre no mês de julho e agosto. A flor amarelada, que destaca-se na copa, é um de seus maiores atrativos, juntamente com os frutos, tronco rugoso, galhos retorcidos e folhas grandes e ásperas. No Estado de Goiás, a frutificação se concentra nos meses de dezembro e janeiro. Mesmo sendo uma das plantas do Cerrado que mais despertam a atenção da pesquisa, ainda se sabe pouco sobre o pequi.
Ao contrário do pequizeiro, o pé de mangaba é uma frutífera adequada para quem dispõe de espaços menores, pois a planta cresce no máximo 3 metros. A copa é formada por folhas rígidas de verde intenso e brilhoso e brotações novas avermelhadas.
A floração exuberante, com flores brancas e delicadas, é outro atrativo da planta. Mesmo sem frutos, a folhagem é suficiente para produzir expressivo efeito ornamental, afirma o agrônomo. O fruto da mangaba, verde e arredondado, se destaca por ser rico em proteínas e vitamina C. Fica avermelhado quando amadurece e cai, momento em que atinge sua melhor qualidade. Tanto que dificilmente encontra-se o fruto maduro no pé. O consumo do fruto in-natura é o mais apreciado, mas da fruta também se faz um doce saboroso.
A pitanga-do-cerrado, arbustiva, produz pequenos frutos vermelhos, semelhantes aos da pitangueira nativa da Região Sul do País, mais conhecida e cultivada. A planta do Cerrado é um arbusto que atinge no máximo 1,5 metro e floresce nos meses de setembro e outubro.
Seus frutos são mais alongados que a variedade do Sul e amadurecem em novembro. É encontrada sobretudo em áreas de Cerrado com latossolo vermelho e pode ser propagada sem maiores dificuldades. É também uma planta perene, semelhante à gabiroba, outra frutífera nativa. Em jardins, aconselha Nabor Júnior, pode ser usada com bordaduras ou isolada em gramados para se destacar. "É preciso estar ciente que, por ser caducifólia, ela fica 'apagada' durante o período mais frio do ano, de junho a agosto" ressalva Nabor Júnior.
Além da floração, a planta também tem como atrativo a folhagem, com folhas bonitas e alongadas e brotações vermelhas que contrastam com o verde. É uma opção para quem realmente valoriza a vegetação do Cerrado e não para os que se interessam apenas por plantas que apresentem efeito ornamental durante todo o ano.
O murici, outra opção interessante, pode ser encontrado no Cerrado e na Região Amazônica. Embora as duas variedades apresentem copa exuberante e bela floração na cor amarela, o primeiro produz frutos amarelos e o último avermelhados, de sabor forte e característico.
Os frutos do murici do Cerrado são muito usados para aromatizar e amaciar a cachaça, pois têm sabor e aroma peculiares e intensos. São também muito consumidos in-natura, na elaboração de doces e, mais recentemente, utilizados para a produção de sucos e sorvetes.
A planta da Amazônia atinge até seis metros e a do Cerrado até quatro metros. A frutificação, que ocorre de agosto a setembro, é intensa, com cachos repletos de frutos que se destacam na frondosa copa em meio à floração amarela. Por ser uma planta relativamente baixa, a poda de formação é suficiente para dar aspecto e porte adequados à planta.
As palmeiras não aceitam podas e necessitam, para efeito de ornamentação, apenas a retirada de folhas secas. Basicamente, há duas opções desse tipo de planta que se adequam a espaços menores, como os canteiros. São eles o coqueirinho-do-cerrado e o coqueirinho-vassoura.
Caso a intenção seja o cultivo de uma palmeira mais imponente, a planta mais indicada é o jerivá, muito utilizada em paisagismo. É encontrado na natureza em locais próximos aos rios, nascentes e grotas.
Para saber mais: Nabor Veloso Naves Júnior, viveirista e engenheiro agrônomo: (62) 3261 3960. Ildeu Moreira Coelho: (62) 3567 3142 Fotos: Paulo J. S.
Publicado por
Altiplano.com.br Goiânia, Goiás, Brasil - Maio/2006
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