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Cartão postal e lugar de memória de Goiânia

Paulo José
Combinação de natureza e cultura, o complexo Lago das Rosas-Jardim Zoológico de Goiânia tornou-se com o tempo uma grande e única enciclopédia, que pode nos contar, a partir do coração da metrópole goiana, a história da ocupação, da construção e da destruição do cerrado. Pode nos mostrar também que as coisas têm capacidade de transformar sem precisarem se modificar, bastando que os olhares se modifiquem, amadurecidos ou alterados.
Antes, o que os olhos viam e o coração sentia era o Lago das Rosas como uma intervenção cultural em meio à natureza abundante que separava Campinas e Goiânia. O geógrafo Horieste Gomes, em suas Memórias da Campininha dá um valioso testemunho disso: "A travessia da densa mata ciliar do vale do Capim Puba, pela jardineira, acontecia na baixada do Lago das Rosas que, contornando pela mureta com suas belas floreiras ornamentais, dava um toque de contraste artificial à paisagem natural então observada". Hoje, o que olhos vêem nesse "contraste artificial" é exatamente a natureza que restou. Reconstruída e cercada de ruas e prédios, impermeabilizada de asfalto e concreto, com o curso d'água transfigurado em fio de esgoto, mas natureza. Quem há de negar? Mas, entre essa natureza e aquela cultura, há muitas histórias.
O vale que hoje abriga o Lago das Rosas, em Goiânia, começou a ser efetivamente ocupado na segunda metade do século 19, passando a integrar em data não precisa a Fazenda Criméia. Em 1933, os seus proprietários doaram esta e outras áreas, num total de 50 alqueires, para serem incluídas no território da nova capital. Aqui vão surgir várias heranças, mas que só serão percebidas no futuro: primeiro, o local vai tornar-se um dos cartões postais da cidade que surgia e, mais tarde, em um dos mais fortes pontos de sua identidade; e, segundo, além do nome do córrego que nascia ali, Capim Puba, ter sido mantido, tanto a fazenda quanto um dos proprietários, Urias Magalhães, iriam emprestar seus nomes para batizarem bairros que iriam ser criados nas décadas seguintes, como os setores Urias Magalhães, Criméia Leste e Criméia Oeste.
Em 1937, diretores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, aproveitando-se da considerável mata que havia ali, vão orientar a instituição do Horto Florestal de Goiânia. Em 1941, é fundado o Balneário Lago das Rosas, com o objetivo de dar lazer à população de Goiânia, que, à época, constituía-se de quase 40 mil habitantes. Também foi um ato político e 'civilizador' (ou cultural) que marcaria a intersecção entre Campinas e a nova Capital.
Assim, nos fundos de vale e junto às nascentes do córrego Capim Puba, foi criado o balneário com o lago, que foi cercado de roseiras, tornando-se um clube popular, no qual podia tomar banho e, ao lado, nas matas do Horto Florestal fazer programas familiares. Segundo o livro Dossiê de Goiás, "não há viventes dessa geração que não tenha mergulhado seus sonhos e prazeres nas águas verdes do Lago das Rosas ou descansado em piquenique nas matas do Horto Florestal".
Além do trampolim e das muretas - desenhadas em art decó e, portanto, dentro do conjunto artístico que marcava a identidade da nova capital -, havia dois prédios para uso dos visitantes, o Castelinho, ocupado sempre pelos estudantes em suas ações, e outro, que misturava bar e boate e era freqüentado por boêmios. Em 1956, esse horto foi transformado no Jardim Zoológico de Goiânia e, no final dos anos 60, o banho passou a ser proibido ali (os casos de afogamento tinham sido muitos desde a fundação).
Ao longo dos anos 70 e 80, a crescente concentração de renda do Brasil iria mostrar claros reflexos no Lago das Rosas. Com a expansão de Goiânia e a ocupação do entorno do Lago-Zôo com condomínios de luxo pela elite, o lugar passou a ser uma espécie de diorama de classes sociais e a ter novas funções. Uma delas foi transformar suas calçadas em pista de caminhada para os moradores da região, de segunda a sábado, e outra foi tornar-se uma espécie de produto para o mundo imobiliário, que o vende como "uma natureza próxima", uma natureza ao alcance do tato, do olhar e do olfato. Aos domingos, o lugar continua tendo a função que sempre teve: o de passeio para as famílias e casais, mas agora a maioria deles é de classes menos favorecidas, pois o mesmo pessoal que habita e caminha em seus entornos prefere passear nos shoppings ou outros locais (incluindo o Zôo, cuja cobrança de entrada restringe o público).
Se a gratuidade e a ausência de portarias continuam mantendo o Lago como um espaço-propriedade de todos, o Zôo já é uma instituição, uma autarquia e, portanto, uma restrição. Mas, ressemantizado ou não, o complexo é um dos mais fortes espaços-âncora da memória goianiense, tendo tornado-se ao longo do tempo sinônimo de natureza e cultura, de história, de diversão e de domingo. Para muitos, domingo é dia de Lago das Rosas em Goiânia. Não há quem não saiba onde ele fica. Nos dias de hoje, é visitado semanalmente por mais de 12 mil pessoas e é, sem dúvida, o único de todos os lugares de Goiânia que mantém desde que Goiânia é Goiânia uma freqüência permanente. Está em cartaz há 62 anos e continua um sucesso.
Paulo José é jornalista e mestre em Gestão do Patrimônio Cultural
Foto: Agetur Goiás
Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2003)
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