|
Home
|
|
Memórias do hibridismo Goiás-Bahia

Hélverton Baiano
Os primeiros vieram a pé, levando como herança uma capanga com farinha e rapadura. Uma tralha pequena com água e alguns cacarecos montados nas costas de algum animal, força e coragem e muita esperança. Eu já vinha, desde aqueles idos, montado na imaginação de hoje. Desde muitas dezenas de anos que os conterrâneos, que carrego no sobrenome literário, pelejavam de lá pra cá, de Correntina para Goiás. Formavam já com a região nordeste goiana um Estado, um auspicioso estado de espírito.
Nossos jeitos, trejeitos, festejos e comidas são muito um só, até nas bestagens, o que voga muito. No início do século XIX, nossa história diz que Goiás lutou para ter a posse daquele chão de ouro e a resistência não deixou, mas também não deixou de unir. Nossa relação com Goiás foi sempre maior que com a Bahia, leia-se Salvador, e nos últimos tempos parece que tem aumentado. Das conversas se atina para mais correntinenses aqui do que residindo lá, sem contar a descendência.
Conheço esse caminho e no dia de Santo Reis deste ano completei 30 anos de Goiânia, trazido e transido aos 15 anos de idade nos solavancos de um caminhão pau-de-arara até me aportar na Vila Nova, nosso abrigo baiano, e iniciar uma trajetória que hoje me transforma em um verdadeiro GoiaBa. Da vermelha ou da branca, como preferirem, contanto que seja Hélverton GoiaBa, nem que seja só para o deleite desse momento.
O mundo baiano em Goiás é imenso, graças aos santos e nossas histórias muito interessantes. Sou até capaz de dizer, sem medo de errar, que pouca coisa foi construída aqui sem um dedinho conterrâneo no meio ou na beirada. É difícil, também porque é chato, ficar um dia sem topar um dos nossos nesse mundaréu goianiense. É mister ainda visitar, para comer bolo de arroz, de puba, de fubá, biscoito de queijo, peta, avuador, paçoca, rapadura, beiju de tapioca, quebrador, brevidade e cuscuz, tomar um cafezinho, um licor de jenipapo, de caju, um suco de umbu ou uma pinga brejeira ou bananinha.
A gente adjutora esse Goiasão querido na sua qualificação. Isso é o que acho. Boa essa aprendizagem de ser duplo, estando aqui e não saindo de lá, do colo de mainha e dos olhos de painho.
Caminhamos traslados a pé, em seguida as tropas, mais tarde vieram as estradas: a de Correntina a Posse foi construída no braço, na força do muque, e a viagem inaugural teria sido uma tragédia não fosse a coragem e a persistência de Pedro Patury, um dos que viajavam no caminhão que ficou quebrado pelos caminhos do Gerais. Ele pôs-se a Posse a pé pedindo proteção. Vêm à tona as histórias de Zequinha do Pinduca, que, como lá diziam, dava guarida aos baianos na ida, para matá-los, em tocaia, na volta, quando se sabia que levavam algum pé-de-meia.
Fica a colheita dos nossos que labutaram a terra, cerziram, parafusaram, constituíram família, construíram e produziram frutos que alimentam aqui, lá e alhures. Fizemos nosso mundo sem fronteiras, aproximando rituais, cantigas, comidas e a poesia que nos diz que esse amor pela terra e as coisas dela não tem medida.
Assim, nasceu-me um GoiaBa, que se mistura, cria e contagia.
Hélverton Goiaba, também conhecido como Hélverton Baiano, é jornalista em Goiânia
Fonte: jornal 'Diário da Manhã', Goiânia, 10 de janeiro de 2006
Ilustração: Paulo J. S.
........................................................ Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, abril/2006)
|
|
|
|
|