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Hábitos alimentares e a noção simbólica de comer em Goiás

Larissa e Cecília comem pequi, em Goiânia
Considerado como um todo, os hábitos alimentares correspondem a um
esquema muito complexo de categorias culturais e de relações entre elas. Assim,
os hábitos alimentares nos permitem entender diferentes dimensões da
cultura. E se cultura é um texto – uma propriedade do habitus, e, este, uma
gramática geradora no sentido Bourdieu (2001), os hábitos alimentares constituem
uma reunião de textos a que o pesquisador se propõe a ler, pois, em uma
dimensão mais ampla, os hábitos alimentares são a expressão de várias culturas
impelidas a um conjunto de textos. E dentro desse conjunto de textos,
temos categorias gramaticais como a comida e o alimento, que, alias, se diferenciam
cada qual em sua essência.
Pensar em comida e alimento e como o são o constructor da cultura, tem
sido uma antiga preocupação da Antropologia e mais recentemente da História
Cultural. Desde o século XIX, a Antropologia começou a desenvolver uma
etnografia sistemática dos hábitos alimentares e a buscar interpretá-los culturalmente.
Quanto aos historiadores culturais estes, estão cada vez mais interessados
em saber como a comida nutre as sociedades, bem como alimenta
identidades e define grupos. O estudo da alimentação é um vasto domínio
multidisciplinar para o qual as demais ciências como a Sociologia, Arqueologia,
Biologia, Medicina e a Economia têm prestado grande parcela de contribuição
ao tema.
Nada mais curioso a um estranho como a maneira que se come: o quê,
onde, como e com que freqüência comemos, e como nos sentimos em relação
à comida. Isto atrai sua atenção rapidamente, porque a comida e o alimento
ajudam a classificar ações morais no nosso mundo (DaMatta, 1986). Comer é
uma atividade humana central não só por sua freqüência, constante e necessária,
mas também porque cedo se torna a esfera onde se permite alguma escolha
(Fernandez-Armesto, 2004). Além disso, existe um bom motivo para que a
alimentação seja considerada tema essencial; é a coisa mais importante para a
maioria das pessoas, a maior parte do tempo. E nenhum outro aspecto do
nosso comportamento, à exceção do sexo, é tão sobrecarregado de idéias
como a alimentação, conforme sublinhou Carneiro (2003) em ‘Comida e Sociedade;
uma história da alimentação’.
Da acepção etimológica, comida deriva de alimento. E alimento expressa
aquilo que ingerido por um ser vivo, o alimenta ou nutre. É no século XV, que
a palavra alimento ganha a dimensão de nutrir, de produto alimentício, e, como
conseqüência, o termo se apresenta como uma propriedade alimentar, no século
XVI. Mais tarde – durante o século XX, em detrimento da nova realidade,
a expressão passa a designar superalimentação, o que conota um sentido de
mercadoria.
Preservando tal acepção etimológica e histórica, também em consonância
com DaMatta (1986) procuro diferenciar comida de alimento. Trato a primeira,
como sendo, algo relacionado ao ritual de comensalidade, que com suas
possibilidades simbólicas, está ligada àquilo que expressa integração familiar,
sendo do código da comida, o mais importante. A comida abre espaço para
uma leitura do cotidiano e, carrega em si, um ato social.
Como representação,
ela se apresenta como um momento de convivialidade, manifesta-se sempre na
comida compartida entre parentes e amigos. Ela pode ainda, expressar a
condicionante de sociabilidade, pois, é capaz de reunir pessoas – mesmo as
estranhas, para um momento de socialização que de uma certa maneira, pode
se configurar como uma ocasião especial. Já o alimento, tem, além da satisfação
e da manutenção do corpo, o sentido universal e geral e, também um ato
individual. “Algo que diz respeito a todos os seres humanos: amigos ou inimigos,
gente, de perto ou de longe, da rua ou da casa” (DaMatta, 1986: 55).
No alimento, não se têm normas. Serve substancialmente para nutrir uma
pessoa, um grupo ou uma classe social. Trata-se da busca pelo sustento. Em
geral, considera-se como alimento o que é fundamental para se manter vivo, e
dar manutenção à força de trabalho. Quanto à comida, ela deve ser entendida
como aquilo que trata da parte gustativa, que busca um fundamento de cunho
tradicional ou que diz respeito a um convívio social.
A comida pensada a partir de uma oposição em relação ao alimento conserva
certas propriedades a que confere a noção de comportamento. E ainda, conserva
certos elementos tão próximos daquilo que poderíamos chamar de desejo se estabelecer
certas diferenças. Assim, um simples ato de cozer ganha a dimensão de
comida quando “ritualizado”. Lévi-Strauss (2004) ao escrever ‘O Cru e o Cozido’
nos chama atenção ao considerar que o cru como parte da natureza ganha nova
dimensão ao ser cozido e se transforma em cultura. O cozido entendido por ação
cultural com ritmação lenta que marca longos processos de preparação e confecção
de alimentos se configura em comida. No entanto, todo esse processo de
transição natureza-cultura deve ser entendido a partir da noção de classificação e
da escolha dos alimentos.
Historicamente, a escolha dos alimentos depende das condições de acesso,
produção e possibilidade de se consumir certos alimentos. Contudo, nossa
escolha dos alimentos – quando temos alguma escolha – desenvolve-se também
em contextos particulares, o que pode variar de cultura a cultura. “Embora
ao escolher, apresentemos restrições de importância, não podemos esquecer
da centralidade dos conteúdos simbólicos, cognitivos e classificatórios.
Os fatores econômicos sozinhos – sem a cultura – não são determinantes”
(Woodward, 2000: 48).
Como se sabe, o homem está longe de “comer de tudo”. Ele é por ação
cultural, um ser seletivo. Comer transcende em muito a simples satisfação de
necessidades orgânicas. Assim, temos “comida para nós” e “comida para os
outros”. A classificação alimentar serve para distinguir o “nós” de “outros”,
isto é, constitui um elemento simbólico da afirmação da identidade (Woortmann,
1978). A comida desempenha um papel diferenciador. Assim sendo, “somos o
que comemos”. Somos aquilo que escolhemos comer. E comemos aquilo que
está relacionado ao nosso universo simbólico.
A classificação simbólica está assim intimamente relacionada à ordem
social (Woodward, 2000). Um sistema classificatório está intimamente relacionado
às convenções – que definem o que é alimento e o que não é, e que tipo
de alimento pode ser consumido e em quais ocasiões. Assim, - dos hábitos
alimentares, devemos pensar como cada cultura classifica cada produto e,
ainda, pensar na comida para as crianças, comida para idosos, comida para os
homens, comida para as mulheres, comida festiva, comida do cotidiano e na
comida especial para pessoas especiais.
Compreender a classificação dos hábitos alimentares não é uma tarefa
fácil. Depende da forma como é percebida por cada cultura. Depende também
como a natureza dos alimentos se encontra no domínio dos usos do
homem; alimento não apropriado – inútil hostil, selvagem; alimento comestível,
comestível com restrições (“frio/quente”, “forte/fraco”, reimoso e não
– reimoso), não comestível. E ainda, depende daquilo que Mary Douglas
(2000: 164), assinalou como estilo de pensar, pois, em cada cultura existem
formas distintas de organizar a vida cotidiana e, ainda, categorias que acabam
por refletir nas estruturas taxonômicas utilizadas para organizar as atividades
habituais.
Dar ou não preferência ou eleger “gostos” a um produto alimentar –
aquele que certos grupos nomeiam como significante, é um trabalho que se
encontra no domínio do modus operandi no sentido Bourdieu (2001). A preferência
a certos produtos alimentares se associa ao sentido das práticas a que
confere o habitus. E o habitus aqui tem uma conotação de maneira de ser,
forma de viver, de comportamento. A homogeneidade dos habitus de um grupo
ou de classe, que garante a homogeneização dos “gostos” – no nosso caso,
a preferência por certos produtos alimentares. Entretanto, sabemos que o sentido
de habitus não pode ser entendido como um sistema rígido de disposições
mecânicas puras e simples.
Devemos pensar no habitus como representações
e ações de indivíduos passiveis de modificações. Sendo assim, é possível considerar
que, o habitus se atualiza na lógica de uma pratica particular e, que, os
“gostos” por certos produtos alimentares estão relacionados a uma pratica de
construção da memória. Este tripé; classificação, habitus e memória, são o que
confere aos hábitos alimentares sua importância ritual e social.
Quero me referir a comida como algo que pode atuar como significante.
“Algo que foi classificado, que está no habitus e na memória. Portadora de
significados simbólicos, a comida representa a típica transformação da natureza
em cultura” (Woodward, 2000: 44).
Se cultura é a norma, a natureza é o “outro”. Pensando assim, traduzimos
a ordem de classificação, derivando comida de alimento. Comida revela
o comportamento que cada grupo social tem para si. O comportamento relativo
à comida revela repetidamente a cultura em que cada um está inserido
(Mintz, 2001).
O ato de comer pode organizar a sociedade. “Em torno de refeições em
conjunto e em horários prévios para comer” (Fernandez-Armesto, 2004: 24),
ele ordena o mundo em que vivemos. “A comida é um meio pelo qual as
pessoas podem fazer afirmações sobre si próprias” (Woodward, 2000: 43).
Comida não pode ser simplesmente entendida como “boa para comer”, mas,
como analisou Lévi Strauss, a comida é “boa para pensar”. Assim, comer dá
existência social: “como, logo existo”.
Comida é mais que sustento (Fernandez-Armesto, 2004). Sua produção,
distribuição preparação e consumo geram ritos e magia. A comida seduz, produz
magia, sentimento de prazer. Porém, quero enfatizar nesse texto, que comida
é também, um memorial. Um aprazível memorial. Comer certos pratos
que carregam a identidade de um povo é também, “comer” parte de uma memória.
Memória esta, que elege ou delega a certos pratos a importância de ser
o carro chefe da culinária local, e, portanto, da sua identidade.
Deste ponto de vista, pensamos na categoria de memória seletiva, pois
“não existe memória desinteressada” (Woortmann, 1998). Por meio da sedução
e do prazer que a comida proporciona, a identidade de determinados
grupos podem ser moldadas. A memória seletiva considerada por Halbwachs
(1990) como um processo de “negociação” e retrabalho são construídos
para que gerações seguintes lembrem dela. É um prazer interessado em delimitar
uma identidade. Por isso, alguns pratos regionais são ressignificados e
entendidos como um memorial.
Em Goiás, pode se afirmar, o empadão é um
memorial (Péclat, 2003). Um memorial que atribui identidade de comportamento.
Nesse caso, o empadão goiano é um memorial que define como se é. O
“nós” – os goianos, nos distinguimos dos “outros”, pois, o empadão está
para Goiás como o pão de queijo está para Minas (Péclat, 2003). E o pequi?
Para os goianos, o que dele importa é que representa uma identidade, embora,
certos goianos detestem pequi.
Em Goiás, devido a importância significativa que a comida tem enquanto
definidora da identidade regional e local, assim como em outras partes do
Brasil, a cozinha é grande porque é importante (Péclat, 2003). E é importante
porque agrega operações rituais, habitus, atos memoriais. Nas palavras de Suely
Molina:
Lançar um olhar sobre a cozinha, como tal ela é percebida hoje e também
no passado, dá margem, ainda, a uma compreensão mais ampla de nós
mesmos, na medida que estaremos fazendo uma ligeira incursão na
história da nossa cultura, repensando a ordem cotidiana no tempo e no
espaço social (Molina, 2001: 126).
A cozinha funciona como transformadora do produto (isto é, a comida)
em cultura. A cozinha é o meio universal pelo qual a natureza é transformada
em cultura. A cozinha funciona como mediadora espaço a partir do qual se
define, os pratos do dia-a-dia, os pratos extraordinários para ocasiões especiais,
os pratos festivos e, também os pratos do tipo fast food. Este último tem,
além da dimensão publico/privado, o sentido de mercadoria.
Na cozinha goiana, se produz e se consome pratos folclóricos como o
arroz-com-pequi, a maria-isabel, exatamente por pertencerem ao receituário do
povo. “E o jeito do cozinhar folclórico é aquele, bem pessoal, em que a cozinheira
não vai atrás dos livros de receitas nem balança para pesar os ingredientes; é
um prato raso ou fundo disso ou daquilo. Não se usa na cozinha folclórica, ou do
povo simples, o grama, o quilo.” (Ortencio, 2004: 136).
Outra dimensão da cozinha goiana também pode ser referenciada como a
noção de tradição. E neste sentido; o peixe na telha, a macarronada de Folia; os
doces em calda da Festa do Divino Espírito Santo, os doces cristalizados, a
pamonhada, a galinhada, o bolo de arroz, a tigelada de guariroba entre outros,
são pratos típicos que combinam tradição e inovação.
Introduzir e promover a substituição de elementos novos no consumo
de alimentos referencia relação de poder. Ou seja, a combinação entre tradição
e inovação imbrica relações de poder. Os hábitos alimentares possuem
uma dimensão política. Dessa forma, pode indicar os níveis de influência
quão uma pessoa tem. Inferir sobre comidas “típicas” nada mais é, que
uma demonstração de poder. No caso do empadão goiano, certas mulheres
são eleitas “autoridades máxima” do saber fazer, e, assim, como representantes
“legais”, cabe à elas, dar ou não um novo sentido ao produto. Essa
autonomia sobre o “modo de fazer” é a diferença sobre o que indagamos
sobre comida e alimento.
Decidir sobre o que vem a ser comida “extraordinária” para dias especiais
exige além da noção de convenção, a noção do que aquilo representa em torno do
discurso da prática (Geertz, 1989). E os discursos em torno da prática alimentar
se apresentam, na medida do possível, como uma prática identitária. É por isso,
que devemos pensar nos hábitos alimentares como uma forma de expressão
interessada em introjetar códigos específicos, locais, e, em especial, regionais.
Cada hábito alimentar compõe um minúsculo cruzamento de histórias
(Giard, 1998). A cozinha goiana natural da miscigenação entre o indígena –
nativos da terra; os africanos – dos escravos negros; e européia – da chegada
das famílias portuguesas, sofreu níveis de interferências.
À época da mineração, o abastecimento alimentar consistia num dos grandes
problemas em Goiás (Magalhães, 2004). Entretanto, com dificuldades o
goiano cuidou de buscar alternativas e aos poucos, na mesologia do cerrado,
brotou uma culinária própria adaptada, estribada em idiossincrasias de um meio
ambiente que, sob muitos aspectos, era novo ao colonizador e que o encaminharia
ao consumo de alimentos cuja produção adaptava-se à região (Bertran,
1994: 174). As receitas eram produzidas de acordo com a realidade local,
conforme afirma Ortencio:
“As receitas, os ingredientes para comporem as iguarias culinárias,
eram executadas de conformidade com os produtos alimentícios
existentes na região e, também, com as substituições desses produtos;
não havia a batatinha inglesa, mas havia a mandioca e o inhame
nativos, a serralha entrava no lugar do almeirão, a taioba substituindo
a couve” (2004:274).
Este processo de substituição e adaptação configurou-se em uma variada
cozinha goiana, que, além dos vinhos, queijos, licores e quitandas, prima pela
qualidade dos pratos de sabor exótico feitos com espécies do cerrado goiano,
como o pequi e a guariroba. Sem falar dos doces e sucos feitos com os frutos
da região e, até mesmo, com as cascas desses frutos, resultado de uma verdadeira
e perfeita simbiose entre o homem e seu meio ambiente.
Em Goiás, durante o século XIX existia um número significativo de mercadorias
importadas disponíveis nos estabelecimentos comerciais como; azeitonas
em latas; queijos do Reino (novos); farinha de trigo estrangeira, azeitonas
de Sevilha em vidros; latas com camarões em conserva; manteiga dinamarquesa;
manteiga inglesa; peixe em latas; queijos londrinos; sal e lingüiça
(Callefi, 2000). Esses ingredientes evidenciam importantes aspectos do consumo
da população goiana no século XIX, contrariando os historiadores dessa
abordagem que reforçam a decadência e a miséria.
Evidente que, nem todas as camadas sociais tinham acesso a tais produtos,
pois, se os hábitos alimentares são elementos constitutivos de sistemas
classificatórios e quando se classificam alimentos, classificam pessoas. Assim,
devemos pensar nos hábitos alimentares em Goiás durante o oitocentos,
como uma hierarquia de alimentos comidos segundo uma hierarquia de pesso-
as. Nem todos têm o “poder” de consumo sobre o mesmo alimento. Alimentos
para pobres, alimentos para ricos e também, comida para pobres e comida
para ricos fazem dos sistemas alimentares algo mais expressivo e interessante.
Os sistemas alimentares operam sobre e entre as camadas sociais. Os hábitos
alimentares podem produzir diferenças sociais e, também, podem estabelecer
diferenças nas formas de circulação do produto entre os grupos sociais. Ter
ou não certos ingredientes à mesa depende também da ação cultural a que cada
grupo confere para si. E ainda, depende do que Fernández-Armesto (2004),
chamou de diferenciador social – do significador social de classe e de uma
medida de categoria social a que a comida se configura.
Em Goiás, os hábitos alimentares devem ser analisados a partir da ótica
cultural de cada grupo. O que está em jogo é a diferença entre alimento e
comida. A comida – ela “fala” de algo mais que nutrientes. “Fala” de economia,
ideologia, política, “fala” de família e aspectos ecológicos.
Afinal, o que pode ser entendido por comida em Goiás? Se pensarmos em
categorias simbólicas; comida aqui seria refeição de caráter social, ou seja, em
grupo. E há diferenças entre o comer cotidiano e o comer cerimonial, mesmo
que ambos sejam ritualizados (Woortmann, 2004).
A galinhada, como a
pamonhada, em Goiás, já não é mais apenas um prato, uma iguaria. Na verdade,
virou uma reunião social. Ritualizados, esses pratos expressam a integração social.
Aos domingos, pela madrugada ou ao entardecer, a galinhada e a pamonhada,
são comidas – comidas típicas, que representam a comensalidade. O mesmo se
aplica ao empadão goiano e ao arroz com pequi. Expressados pelo sentido de
goianidade, cada um desses pratos tem em si, um valor totêmico, que na acepção
de Lévi-Strauss (2003: 31) significa, [o] da “minha parentela” que exprime o
parentesco, a “pertença” ao mesmo grupo familiar.
Do processo de plantar e comer, a pamonhada é esperada como nenhum
outro. Durante o período sazonal do milho, a pamonhada marca uma nova
época de “fartura” (Brandão, 1981: 32). Consumida e compartida por muitos,
a pamonha pode ser assada, frita ou cozida. Envolta em folha de bananeira ou
na própria palha do milho, é cozida em grandes caldeirões e são recrutadas
várias pessoas para sua elaboração. Os comensais que para a pamonhada se
dirigem, tem além, da configuração de convidados, a conotação de amigo da
mesa, amigo “intimo”.
A pamonhada, em especial, “empurrou” os homens para a cozinha, delegou
tarefas neste ato memorial, incumbindo-o de cortar, selecionar e ralar o
milho e, ainda, lenhar. Fica a cargo dos homens a responsabilidade de convidar
os “compadres” e amigos, pois, no plano público visibilizado, o homem representa
a família, e, no plano privado, a mulher detém o “domínio”.
A comida é nucleante (Woortmann, 2004). “E, acima de tudo, a comida
deve ser entendida como relacional que exprime uma sociedade igualmente
relacional” (DaMatta, 1986: 63). Em outros termos, temos na comida um código
culinário marcado pela ligação, código situacional e intermediário.
A cozinha goiana e mineira se diverge em detalhes e em alternativas
combinantes (Abdala, 1997; Bertran, 1994).
Marcada por singularidades, a
cozinha goiana apresenta variáveis especiais como; considerar a refeição mais
séria e comum a noturna - sempre preferida por indicar termino da tarefa
diária. Alguns almoçam mais a fim de garantir as energias gastas durante o
dia de trabalho. No entanto, aos domingos, por simbolizar um dia especial,
usa-se o ajantarado, almoçando mais tarde e lambiscando a noite.
Em geral,
o ajantarado consiste em: lasanha (introjetada, ou seja, não é um prato “típico”
goiano); lombo assado à mineira (o que era pensado como comida local);
frios, peixe e outros. É costume também, reunir a família e os amigos
em restaurantes de comida “típica” e, no final da tarde, fazer refeições do
tipo fast-food em feiras livres.
Os restaurantes, como replicantes da cozinha “típica” podem também
ser analisados como espaços simbólicos, caracterizados como “teatros de comer”
e estratificados em torno de posições sociais. Pratos tradicionais encontrados
em restaurantes de comida “típica” configuram um sentido de “extensão/
replicação” doméstica, ou seja, a extensão da cozinha materna. Categorias
de memória como a nostálgica é aí despertada – quando, da lembrança da
cozinha da vovó e dos tempos dos quintais.
A memória destello, ligada às percepções físicas do corpo, também se
apresenta nesse jogo de sedução a que a comida permite. Sentir o cheiro do
molho da galinha caipira; do pernil assado; são sensações físicas que ficaram
retidos na memória, e que, se provocadas, trazem na lembrança um momento
especial e o sentimento de “pertença”.
Um jeito especial e característico do “comer” goiano pode ser notado
nos preparativos de viagens longas ou curtas. A famosa matula – que do
ponto de vista da história, lembra a ordem dos tropeiros, geralmente, é preparada
de véspera ou às pressas. Ligada a um simbolismo especial, a matula
agrega um valor próximo ao que poderíamos chamar de prática “ritual”.
Além da dimensão de alimento - a precaução contra a fome, a matula tem a
expressão de comunhão. E se rituais são bons para transmitir valores e conhecimentos
e também próprios para resolver conflitos e reproduzir as relações
sociais conforme propõe Peirano (2003), a farofa de galinha caipira ou
de frango de granja ou a almôndega, o feijão tropeiro, os biscoitos, a rapadura
e a banana, fazem da viagem algo mais atraente.
O cuidado com os farnéis,
com as velhas canastras e até mesmo com os vasilhames do tipo tape –
ware, tornam a viagem significativa, uma vez que, o atrativo s e encontra no
domínio das expectativas e do esperado. O mantimento distribuído e compartido
alimenta todos aqueles que fazem parte da mesma situação. E neste
sentido, podemos confirmar; a comida e o alimento em suas relações são
situacionais.
A comida também se apresenta como demarcador das relações de
gêneros. “Não se pode falar de comida sem se falar em gênero feminino.
Entre os goianos, era muito comum, as mulheres não comerem à mesa. A
obrigação feminina de servir ao homem, cansado do trabalho, excluiu-a da
refeição comum” (Ortencio, 2004: 290). Nem mesmo em ocasiões de visitas,
a mulher se apresentava à mesa. Operosa e assoberbada de trabalho,
ela ficava na cozinha triplicando-se de responsabilidades. Entretanto, nada
disso, pode ser entendido como sujeição, pois, em grande medida, era ela –
a atriz privilegiada da cozinha, quem dava a palavra final nas decisões mais
necessárias do lar.
Em Goiás, por “circuitos de reciprocidade feminina” costuma-se trocar
receitas e muitas delas são transmitidas oralmente. É gentil solicitar à dona da
casa a receita mesmo que já se saiba ou mesmo que não lhe tenha agradado. Se
tratar de pratos simples, cotidianos, então se deve perguntar qual foi o modo
que fez. Os elogios são princípios de reciprocidade – é a maneira que temos de
agradecer o convite pelo almoço ou jantar.
E, além disso, como afirma Klaas
Woortmann (2004), não convidamos pessoas para jantar em nossa casa a fim
de alimenta-las enquanto corpos biológicos, mas para “alimentar” e reproduzir
relações sociais. Se o que está em jogo é o principio da reciprocidade e da
comensalidade, o que pretendemos é que sejamos convidados a comer na casa
do nosso convidado.
A comida é tão essencial para a camaradagem humana, que ela cria laços
de “compadrio” entre o anfitrião e o convidado. Mesmo um “estranho” ao ser
convidado a fazer refeição em sua casa pode criar esses laços. É sempre bom
manter vínculos com as pessoas que comungaram com você algum tipo de
refeição, principalmente, as especiais, pois, mais tarde elas poderão servir de
referencia para relações futuras. Tudo isso, está ligado ao principio de reciprocidade.
Embora, seja do plano privado, a cozinha o espaço mais intimo da
casa, em algumas localidades do Estado de Goiás, o “estranho” é convidado a
partilhar da cozinha.
No caso da Cidade de Goiás, o convidado de “fora” não tem acesso
a cozinha, devendo aguardar a refeição em espaço próprio. Ser convidado
a fazer refeições em certas casas, não significa que a cozinha seja um
espaço de entrada para todos ou que esteja disponível a recebe-lo. Tudo
isso, deve ser entendido, de acordo com as normas e o sistema do lugar
(Pietrefesa, 1998). Na Cidade de Goiás, mesmo em dia de festa, a cozinha
fica restrita aos estranhos.
Comportamentos relativos ao cerimonial de comensalidade são pré-estabelecidos,
principalmente, em situações de visitas. Qualquer “estranho” que
chegue em visita deve tornar-se convidado através de procedimentos rituais.
O convidado não tem nenhuma voz ativa na maneira como seu anfitrião o
tratará; enquanto está na casa de outra pessoa, precisa tornar-se cerimonialmente
passivo e aceitar o que é oferecido. Exceto em caso de intimidade com a dona
da casa, que alguns requisitos podem ser acertados antecipadamente – como o
prato do dia e, em alguns casos, com o quê o convidado irá contribuir. Cabe ao
convidado, acertar o horário de chegada e números de excedentes se este for
o caso.
Quanto ao anfitrião, é comum em Goiás, receber seus convidados
com pratos regionalmente conhecidos como a galinhada; a guariroba; o arroz
com pequi e guariroba e ainda, alguns pratos especiais que não são de origem
local, mas que são concebidos como regionais – a exemplo, da macarronada.
Em muitas situações, cabe ao papel do anfitrião, o provedor dos convidados,
nada comer da refeição.
A mulher, em especial, aguarda pelos elogios e observa
se tudo está a contento para posteriormente se servir. Em alguns casos, ela
sempre diz: “estou farta só de experimentar a comida”. Talvez, seja essa a
principal razão que confere à mulher a sua inclusão na cozinha, ficando a
cargo da prova da comida.
Finalizando, escrever sobre a diferença entre comida e alimento exige situar
alguns aspectos do comportamento humano como a cultura. A diferença entre
comida e alimento é a cultura, o habitus. Parte dos elementos culturais em Goiás
revela o modo como é operada a comida na região. Na sociedade goiana certos
elementos da cultura fazem da nossa comida a diferença e o diferente.
O comportamento
relativo à comida exprime por assim, dizer, a “marca tipificada de
nós mesmos”. Assim, podemos concluir que, além dos diferentes elementos
embutidos tanto no alimento como na comida, na nossa região, fazemos do
alimento algo especial – a comida em especial.
O campo de análise dos hábitos alimentares por ser complexo nos faz
pensar o quanto a comida goiana é significativa. Através da comida goiana
podemos avaliar tanto os níveis de interferência como o sentido de re’significação
o quanto a comida tem. O estudo sobre comida não pode ser entendido como
um domínio de interface somente entre a Antropologia e a História, na verdade,
este é um palco multidisciplinar.
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___________________. O sentido simbólico das práticas alimentares. http: //
www.google.com.br. Acessado em 18/11/2004.
Gláucia Tahis da Silva Campos Péclat
é mestre em Patrimônio Cultural pelo IGPA-UCG, pesquisadora associada do Núcleo de
Antropologia da UEG e professora do Departamento de História da Faculdade
de Educação Ciências Humanas de Anicuns(GO)
Fonte: Guanicuns: Revista da Faculdade de Educação e Ciências Humanas de Anicuns
(Fecha/FEA - Goiás, 02, 211-223, 2005)
Fotos: Paulo J. S. e IGR
...................................................... Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, abril/2006)
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A história do empadão goiano
Na foto, família almoça em Goiânia: arroz, feijão, carne de panela, mandioca cozida, tomate e macarrão
Ao lado, o cardápio básico de um restaurante de comida goiana:
Peixe na telha (ao centro), galinhada (em amarelo, ao fundo) e pratos
à base de arroz, tutu de feijão, couve refogada, ovo frito, batata frita ou palha, bife e salada de tomate e alface
Na foto, arroz com pequi
Ao lado, pamonha cozida embrulhada em palha de milho verde
Na foto, galinhada com açafrão e milho
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