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A venda de Claro Machado
Empresa ou armazém?

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Paulo José

Há quase 50 anos funciona no distrito de São Jorge, no município de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, a venda de secos e molhados de Claro Alves Machado, 83 anos. De dentro dela, ele viu as grandes transformações e eventos que mudaram o mundo, incluindo ali. Não hesitou e também foi transformando o seu armazém. O fim do ciclo do cristal, iniciado décadas antes e encerrado no final dos anos 1970, foi seguido por uma recessão, que só acabou aos poucos com a consolidação do turismo, a partir do início dos anos 1990.

Nesse ínterim, Claro, autoridade local e reconhecido relações públicas, deixou o lampião e a geladeira a gás e adotou as benesses da energia elétrica, incluindo mais recentemente TV por assinatura e computador – que não usa, mas serve para a filha fazer planilhas do negócio. Acompanhou as tendências, incluiu novos produtos, tirou a mesa de sinuca e colocou mais prateleiras. Fez o que se chama inovação. Primeiro, uma palavra, depois uma idéia e aí, pela ordem, uma decisão, uma ação e, finalmente, um resultado. Deu certo.

Energéticos, vinhos, aguardentes e cervejas, chocolates e achocolatados, bolachas, chinelas havaianas e botinas, baldes de plástico, creme de leite, leite condensado, arroz, óleos e azeites, macarrão, ovos, azeitona, palmito, polpa de tomate, pilhas, xampu, condicionador, leite de rosas, suco em caixinha, castanha de caju, gergeliko (salgadinho típico da região), repelente, filtro solar, caderno escolar, canetas, cartão telefônico, cigarros e barbeador. É esse o principal de seu mix hoje, absurdamente exagerado em vistas do mix do passado. O que não está é porque não é novidade, não tem demanda ou causa perdas.

Por isso, suas prateleiras não incluem nada em que a validade seja comprometida a curto prazo, caso de iogurtes e similiares, frutas e hortaliças. Vende muita cerveja, mas não tira-gostos. Diversifica os produtos, não as marcas. Em geral, vende a que considera a melhor, gira rápido e, é claro, dá lucro. Há exceções, como as bolachas, para as quais existem duas “marcas”: a de quem tem pouco dinheiro e a dos “de melhor condição”.

"NOVES FORA"
À moda antiga, vende fiado, anota as compras em cadernos e, na hora de somar, dispensa a calculadora, fazendo a conta na caneta e na cabeça e utilizando o “noves fora nada”. Então, olha, para o freguês e pergunta: “quer conferir?”. Ninguém arrisca.

Longe dos “serasas e SPCs”, baseia seu sistema de financiamento em relacionamentos, confia na clientela e fixa limites de crédito com base na realidade financeira dos fregueses – os quais conhece pessoalmente a família e, em alguns casos, até os antepassados – o que contribui para ele definir o tamanho do lastro. Assim, alguns podem gastar até R$ 50,00 e outros podem passar dos R$ 2.000,00. Não há registros de inadimplência. Tem esquecimento.

Não anota os preços, mas os produtos adquiridos. No dia do pagamento, atualiza os valores, o que significa que, se quando adquirido o produto custou R$ 5,00, na hora de quitá-lo o preço será o vigente, sejam os mesmos R$ 5,00 ou algo mais, em casos de reajustes de fornecedores. Trabalha praticamente sozinho, mas tem o apoio de filhos e netos.

Apesar das quase cinco décadas, a venda de Claro Alves Machado só foi batizada oficialmente há alguns anos e com o nome de Casa Machado Alves. Não adiantou porque ninguém a chama por esse nome. É “Seu Claro” e pronto. Para não deixar barato, ali funciona ainda a chamada “Varanda do seu Claro”, um dos principais locais de encontro e diversão de turistas e moradores e ponto final de carnavais e festas.

MÓVEL IMÓVEL
Claro chegou à Chapada dos Veadeiros por volta de 1950, mas não se encantou e voltou para Formosa, também em Goiás. De lá, tentou Cristalina, mas teve de desistir. Reorganizou-se e decidiu retornar aos planaltos veadeiros.

Chegou a São Jorge meses depois, durante o segundo grande boom do garimpo de cristal de rocha na região. Tinha saído de caminhão de Formosa e desembarcou com a mercadoria no povoado que hoje é Alto Paraíso. De lá, percorreu os cerca de 36 km até São Jorge de bicicleta, enquanto sua carga foi de carro-de-boi. Levava secos e molhados e montou um armazém.

Com o tempo, tornou-se comprador e revendedor de cristal e fornecedor de garimpeiro. Mais tarde, começou a exportar o mineral para o Rio de Janeiro. Baldeava de jipe até Alto Paraíso e, de lá, seguia de caminhão até o litoral. Fez isso por quatro anos, mas baseando-se em um sistema de confiança mútua para fazer negócios, teve muito prejuízo. Desistiu. Voltou para Formosa, deu um tempo, regressou a São Jorge, onde se estabeleceu e “colocou” o armazém que chegou até os dias de hoje.

E, se com o progresso do turismo apareceram supermercados em estilo moderno, com gôndolas e auto-atendimento, nisso Claro não mudou. É ele que pega o produto solicitado e o balcão de madeira é uma marca registrada, móvel imóvel e indispensável de definição dos espaços de sua venda – freguês, sim, mas ‘ele lá e eu cá’. O cá não é só mercadoria. É substancialmente o caixa e uma rede, na qual, deitado, espera pedidos. Podemos falar em caixa, mas nem tente falar em faturamento.

Nesse contexto, ele próprio não mudou os hábitos – inclusive os de consumo: continua comendo arroz e frango, prato fixo que faz todos os dias só para ele -, mas a sua venda teve de transformar-se, crescer para dentro de si mesma e abrir janelas para o mundo. Como diria a piada: “É uma empresa? Não, é armazém mesmo”.


Paulo José é jornalista e editor da Altiplano

*Reportagem vencedora da etapa estadual de Goiás do
Prêmio Sebrae de Jornalismo 2011, na categoria Webjornalismo

Publicado por
Altiplano.com.br
Goiânia, Goiás, Brasil - Fevereiro/2011